Inflação em queda no País não garante o mesmo movimento aos juros futuros

Arrefecimento nos preços sinalizado por dados recentes não mostra força suficiente para alterar perspectiva para juro

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SÃO PAULO – Um dos principais pilares de preocupação à economia brasileira em 2008, a inflação parece ter finalmente entrado no caminho da desaceleração. Em meio à movimentada agenda de indicadores de preços divulgados nas últimas semanas, todos apontam para uma acomodação das pressões.

Acompanhando principalmente as oscilações nas commodities – que sofreram expressiva queda recentemente -, o arrefecimento nos principais indicadores inflacionários do País não só contribui para reduzir as expectativas, mas também para dar a impressão de que o pior do temor com a alta dos preços já passou.

A explicação também pode partir da maturação do novo ciclo de aperto monetário, iniciado pelo Banco Central em meados de abril. Desde então, a autoridade elevou o juro básico brasileiro em 175 pontos-base, passando a taxa Selic de 11,25% ao ano para o patamar atual de 13,00% ao ano.

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Dentro deste contexto, seria de se esperar um movimento declinante nos juros futuros, que poderiam se ajustar às recentes altas na BM&F (Bolsa de Mercadorias & Futuros), caso o mercado compartilhasse da percepção de que o arrefecimento da alta nos preços seria notório o suficiente para amenizar o combate inflacionário pelo Copom (Comitê de Política Monetária).

Contudo, taxas continuam subindo

Tal movimento pode parecer coerente, mas não é o que se tem visto na prática nas últimas sessões. Pelo contrário. Apesar de encerrarem a terça-feira (26) sem tendência definida, as taxas dos contratos vinham de quatro sessões consecutivas de alta, mesmo com os indicadores mostrando que o aumento nos preços está mais lento. Mas por que isto acontece?

Pode parecer surpreendente, mas a resposta para esta questão pode estar ligada justamente aos dois fatores apontados como principais responsáveis pela melhora na cena inflacionária doméstica: commodities e política monetária.

Com relação ao primeiro item, a preocupação sobressai os bons resultados dos indicadores, na medida em que favorece as apostas de que o aumento nos preços das matérias-primas visto antes da recente correção ainda poderá dificultar a desaceleração da inflação brasileira de maneira mais robusta.

No mesmo sentido, a valorização do dólar frente ao real observada nas últimas sessões também impulsiona as taxas, pois reforça a previsão de que a contribuição da taxa de câmbio à inflação pode não se fazer mais presente.

Os efeitos da política monetária

Já no caso da política monetária, se fosse levado em conta que as últimas reuniões do Copom mostraram uma autoridade bastante temerosa com a deterioração do cenário inflacionário, seria apropriado pensar que a melhora apresentada pelos indicadores de preços mais recentes poderia reduzir a intensidade e duração do atual ciclo de aperto monetário. O que pressionaria os juros futuros.

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No entanto, tal percepção não faz jus à avaliação dos analistas, que acreditam que a trajetória ascendente da Selic deve permanecer nos próximos encontros do colegiado. “O mais provável é que o aperto continue, possivelmente com mais um aumento de 75 pontos-base seguido de outros dois de 50 pontos”, avalia Carlos Eduardo Gonçalves, professor do Departamento de Economia da FEA-USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo) e economista do Grupo de Conjuntura da Fipe.

As projeções se baseiam em dois fatores: o sinal de pressão futura nos preços, já que os dados de atividade seguem indicando uma demanda mais forte que a oferta, e a meta de 4,5% do Banco Central para o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor – Amplo) em 2009, que demandará continuada rigidez na condução da política monetária.

Nesta linha, Gonçalves aponta duas vertentes capazes de mudar este quadro. “Primeiramente, um declínio adicional nos preços das commodities, o que a propósito seria bem prejudicial ao crescimento da economia, apesar de seu efeito profilático sobre a inflação. Segundo, um plano consistente de aperto fiscal, enxugando a contribuição do governo para a demanda agregada”.

Sendo assim, o economista conclui: “o mais provável neste momento é que os juros sigam em alta”.