Inflação, crise, dívida. Quais fatores econômicos ainda assombram o mercado?

Economistas divergem em relação a perspectivas para Brasil, EUA e Zona do Euro, mas reconhecem dificuldades à vista

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SÃO PAULO – “Vocês ainda vão sentir saudades de 2010”. Essa parece ser a promessa do mercado em 2011, que começou fraco e ainda segue tropeçando até aqui. Na cena externa, muitas são as dúvidas dos investidores em relação à recuperação das economias desenvolvidas. O pior é que os emergentes também sentiram os efeitos e começaram a pisar no freio. Por aqui, a cautela ainda é o clima predominante.

Inflação, política cambial, dificuldade de recuperação econômica, crise da dívida pública. O que ainda assusta o mercado? Todos esses fatores ainda exercem suas influências negativas sobre os ânimos das bolsas ao redor do mundo e o cenário futuro não é dos mais otimistas. 

Inflação no Brasil: contradições
Os dados mais recentes sobre a alta de preços na economia brasileira fizeram o Banco Central respirar aliviado. Tudo o que Alexandre Tombini, presidente do BC, e seus homens queriam era que os índices começassem a mostrar que suas apostas estavam certas. E, de certa forma, foi isso que aconteceu: o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) mostrou taxa de 0,47% em maio, contra 0,77% em abril.

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André Perfeito, economista-chefe da Gradual, explica que agora o tema “inflação” está menos preocupante. Os analistas do mercado também parecem ter comprado essa leitura, já que muitos ajustaram suas recomendações tendo em vista a perspectiva de que o ciclo de alta dos juros está no fim e de que os riscos de mais medidas macroprudenciais são reduzidos.

Para Perfeito, o curto prazo é favorável para o País e o importante é que os investidores que negociam juros no mercado já estão mais confiantes disso, já que quem forma preços é o Banco Central.

Contudo, a situação pode não ser tão benéfica assim. Cristiano Souza, economista do Santander, possui uma visão bem distinta. Ele explica que o Santander não está tão confiante assim em relação à inflação. “Esse bom momento favorecido por commodities é sazonal; temos que olhar que a demanda não está recuando, o que mostra que as políticas fiscal e monetária do Governo não foram tão incisivas quanto deveriam”, expõe.

Souza ainda acrescenta que o fato de o BC falar que está tudo sob controle não é algo revelador. “Estar sob controle significa que a inflação não vai chegar a 10% ao ano, mas já estouramos o teto e não há evidências de que ela deva recuar tão logo”, pondera.

Porém, o economista do Santander avalia que não é só o Brasil que está enfrentando problemas com a inflação, essa é uma constatação global. Para ele, a desaceleração da economia chinesa tem afetado as economias de todos os países e a luta do governo chinês contra a alta dos preços não deve chegar logo ao fim, já que o problema vai muito além de uma simples questão de alta dos alimentos.

Economia americana segue sonolenta
Quando o assunto é economia dos EUA, a certeza é que ainda há muito que melhorar. Para Souza, o começo do ano foi muito otimista, os analistas acharam que após um 2010 fraco, 2011 seria melhor, mas na verdade eles foram otimistas demais. O economista afirma que a economia segue em um ritmo de crescimento fraco e espera um avanço do PIB (Produto Interno Bruto) de 2,5% no ano.

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Embora uma parte do poder de compra do norte-americano tenha sido consumida pela inflação mais alta e pelo preço da gasolina, o fato principal está nos baixos preços dos imóveis, que intensificam a pressão sobre as bolsas do país. “Mesmo que a inflação se estabilize, o consumidor ficará mais pobre, porque quem está endividado usa o dinheiro que tem para pagar suas dívidas e essas pessoas estão vendo as hipotecas que contraíram ficarem mais caras do que os próprios imóveis”, afirma Souza.

Assim, a tendência para os EUA é que consumo e investimentos continuem caindo, de modo que a recuperação do país continuará sonolenta. Para Perfeito, a situação não é o caos. A recuperação está fraca, é verdade, mas ao menos não houve depressão econômica.

Soma-se a isso, a preocupação política que surge no Congresso. O déficit público no país está maior e por isso há certa resistência em aprovar um endividamento mais elevado, como quer o presidente Barack Obama. Essas pendências pesam sobre o mercado.

O mercado de trabalho está sendo muito penalizado, conforme os últimos dados. A criação de vagas de emprego decepcionou o mercado e o desemprego voltou a bater 9%. Contudo, o economista da Gradual ressalta que o governo não está omisso. “Os EUA estão no caminho certo, o mercado precisa ter mais paciência”, avalia. Para ele, o espaço para avançar existe e as ações tomadas até aqui, como incentivos à demanda, são importantes e devem surtir efeito no médio prazo. 

Impasse político na Zona do Euro
Como não podia deixar de ser, na Europa, o foco continua sendo a questão da insolvência grega. Perfeito destaca a “queda de braço” entre Alemanha e BCE (Banco Central Europeu) e falta de acordo entre ambos. “A Alemanha é favorável à ajuda, Trichet não é, isso revela que o presidente do BCE não está obediente a uma das principais economias da Zona do Euro, o que pode abrir espaço para problemas políticos”, constata.

 

Na Europa, o mercado ainda espera o resultado da votação a respeito das novas medidas de austeridade a serem anunciadas pelo parlamento grego. No entanto, a medida não é consenso entre os gregos, que protestam em Atenas, o que aumenta a percepção de risco do mercado sobre o tema. 

O economista do Santander acredita que não haverá acordo, pois não há consenso ainda, o que dificulta muito as coisas. Além de tudo, o BCE sabe que sua carteira de ativos pode sofrer forte pressão por conta d uma ajuda do setor privado nessa reestruturação. O máximo que pode ter é um pacto “a contragosto”. 

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Importante nesse momento é que a Grécia parece não ter saída. “O mercado já precifica uma insolvência da Grécia, não tem jeito”, afirma o economista. A economia grega já está contraída ao máximo e os juros que eles têm que pagar estão cada vez mais altos, uma hora essa bolha deve explodir. 

 

No conjunto, as pressões do final de 2010 parecem estar mais acentuadas agora, de modo que o mercado ainda olha com máximo cuidado o desenrolar econômico para esses países ao longo do ano.