Cenário político

“Indemissíveis”: com Levy e Temer, Dilma “amarrou as mãos”, diz analista político

Dilma não pode demitir Levy, nem desfazer o arranjo que deu a Temer as rédeas da coordenação política do governo; caso contrário enfrentará crises econômica e política, avalia analista da MCM, Ricardo Ribeiro

SÃO PAULO – Os últimos dois dias em Brasília, como agora é recorrente, foram de fortes emoções para o governo de Dilma Rousseff. E que culminou com a saída de Pepe Vargas das Relações Institucionais, com a sua pasta sendo extinta e sendo substituído pelo vice-presidente Michel Temer na articulação política do governo. 

E, conforme ressalta a MCM Consultores, o que foi visto nos últimos dois dias em Brasília foi um típico episódio de “dilmice”, “fenômeno bem descrito pelo ministro Joaquim Levy há duas semanas: um desejo genuíno de acertar as coisas, transformado em ação, mas não da maneira mais fácil nem mais efetiva possível. Finalmente”.

Além disso, destaca, a teimosia e a demora em agir são outros elementos constitutivos da dilmice – a presidente Dilma decidiu fazer o que há muito era obviamente necessário: dar mais poder e capacidade de decisão ao PMDB. Contudo, a decisão foi atabalhoada, destaca o analista político da consultoria, Ricardo Ribeiro. 

PUBLICIDADE

Mas, com a mudança, na prática, Joaquim Levy e Michel Temer passam a deter o comando do governo, pelo menos em suas áreas mais estratégicas. Enquanto isso, Dilma tem sua capacidade de ação e decisão tolhida.

 Dilma “já havia delegado a condução da economia para Joaquim Levy; agora repassou o comando da política para Michel Temer”, ressalta o analista.

“Até onde a vista alcança, ambos são indemissíveis. Dilma não pode demitir Levy, nem desfazer o arranjo que deu ao vice-presidente Michel Temer as rédeas da coordenação política do governo. Caso contrário enfrentará crises econômica e política. Ficaria sem o apoio do mercado e do empresariado e, definitivamente, sem o apoio do PMDB. Dilma, nesse sentido, amarrou as próprias mãos. Por caminhos tortuosos, a organização de seu governo chegou assim a um equilíbrio potencialmente estável“, completa Ribeiro.

O que pode acontecer com a atual configuração do governo? Segundo o analista, “pode dar certo”.  Isto é, pode garantir à presidente condições de governabilidade suficientes para enfrentar as turbulências de 2015 e para lhe garantir a permanência no cargo até o final do mandato.

Há o risco de dar errado, sim. Isto por que é evidente que o PMDB do Congresso  está agindo para enfraquecer a presidente e o governo. “Sendo assim, Cunha e Renan podem decidir enfrentar Temer”. 

Neste caso, poderiam provocar uma grande confusão no PMDB e se engajariam numa guerra de extermínio contra o governo Dilma. Porém, ambos ainda não mostram nem capacidade nem disposição para nocautear de vez o governo, afirma, caso contrário já teriam fechado as portas à negociação do pacote fiscal com Levy. “E, ao menos de imediato, não poderão se negar a dialogar com Michel Temer que, é bom lembrar, ainda é o presidente do PMDB”, avalia o analista político.

Mais uma dor de cabeça
E, hoje, Dilma teve mais uma prova de que o PMDB não deve voltar atrás em alguns projetos em que o governo se opõe. Um dia após a entrada de Temer na articulação política, a bancada do partido na Câmara iniciou uma movimentação para aprovar a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que limita em 20 o número de ministério. O projeto é de autoria de Eduardo Cunha.

A CCJ (Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania) adiou para amanhã o debate. Peemedebistas e aliados de Cunha ignoraram os apelos dos petistas e do líder do governo, José Guimarães (PT-CE) para adiar a votação, mas ela foi suspensa porque o plenário da Casa começou a discutir o projeto que regulamenta a terceirização no mercado de trabalho. 

O apelo do líder do governo foi no sentido de que essa é uma discussão política, e não legislativa. “O objetivo político da redução dos ministérios nós podemos discutir. Estamos iniciando esse debate no governo, que está fazendo um corte nas despesas de custeio para demonstrar que é preciso fazer um esforço”, disse.