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Impeachment ficou mais próximo e mercado gostou: Delcídio pode ser o “homem-bomba” de Dilma?

Suposta delação está muito perto do governo e processo pode ir adiante, mas será que o mercado pelo que está comemorando?

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SÃO PAULO – Não há dúvida nenhuma de que a suposta delação premiada do senador Delcídio do Amaral (PT-MS) é o principal driver do mercado nesta quinta-feira (3). Segundo a IstoÉ, o ex-líder do governo no Senado disse em depoimento para a Polícia Federal que a presidente Dilma Rousseff tentou barrar as investigações da Operação Lava Jato. Com o cerco se fechando em torno do governo, a probabilidade de impeachment de Dilma, que estava em ponto morto por causa da eleição de Leonardo Picciani (PMDB-RJ) como líder do PMDB na Câmara dos Deputados, e também por causa do menor ímpeto das ruas, voltou com força. 

Em entrevista à Bloomberg, o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno, destacou que “o mercado está precificando a possibilidade de uma mudança política ocorrer mais cedo”, em meio a um governo mais comprometido com reformas e com o ajuste fiscal”. As eventuais notícias bombásticas poderiam engrossar as manifestações contra o governo, reforçando probabilidade de impeachment. 

Essa é a opinião também do economista da Leme Investimentos, João Pedro Brugger, que disse nunca ter havido alguém tão próximo dos líderes do governo a fazer delação. “O mercado vem com essa tendência desde 2014 de reagir positivamente a enfraquecimentos de Dilma e do PT. Acho que se confirmarem as informações da reportagem da IstoÉ dá para fazer aquele processo de impeachment andar”, diz Brugger.

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Estrago político
“Caso confirmada [a delação], trata-se de uma hecatombe política. Assim como no escândalo do mensalão, o ‘fogo amigo’ poderá selar o destino do governo Dilma. É mais combustível para a oposição fazer decolar a agenda do impeachment”, afirma o analista político da Barral M. Jorge, Gabriel PetrusEle ressalta que ainda há muitos percalços técnicos e jurídicos para se validar ou não a delação de Delcídio. Segundo a IstoÉ, o acordo da delação não foi homologado até agora pelo ministro do STF Teori Zavascki por conta de uma cláusula de confidencialidade de seis meses exigida por Delcídio.

Contudo, afirma, o processo para comprovação da veracidade da delação implica que Dilma e Lula serão chamados a se manifestar e se defender nos autos, aumentando a pressão e o desgaste sobre ambos, que já estão em uma situação delicada. Segundo Petrus, do ponto de vista técnico, é muito difícil comprovar a tese de que Dilma tenha “atuado para interferir na Lava Jato” e lembra que as últimas nomeações do STJ (Superior Tribunal de Justiça) no último ano eram de ministros altamente técnicos. “Isso pode fazer parte da estratégia de defesa do senador em tirar o foco sobre suas próprias movimentações. No entanto, política é feita de discurso e de versões; se essa versão prosperar na opinião pública, o processo de impeachment volta com força”, afirma Petrus. 

Segundo o analista político Ricardo Ribeiro, da MCM Consultores, os sinais na Lava Jato são de mais delações envolvendo petistas, mas há risco de membros da oposição também serem citados. “O mercado vê o aumento de delações como positivo, apesar dos riscos que isso pode gerar, como uma possível reação das ruas em caso de impeachment”. Por outro lado, ainda há dúvidas de como seria formado um governo dependendo de como se dê a saída de Dilma, se por impeachment ou decisão do TSE. 

“A oposição corre sim risco nessa nova onda de delações. E não apenas a oposição. Podem aparecer coisas contra os caciques do PMDB também. Mas, por enquanto, o mercado está comemorando a perspectiva de que a chance de Dilma cair aumentou”, afirma o analista político.

Para o analista político Carlos Eduardo Borenstein, da Arko Advice, os dados apresentados pela reportagem da revista IstoÉ têm potencial para agravar ainda mais a crise política do governo. “Os últimos eventos contribuem para deixar o governo ainda mais encurralado”, afirmou.

Na avaliação do especialista, com a sucessão de episódios negativos como a prisão do marqueteiro João Santana, a saída de José Eduardo Cardozo do ministério da Justiça e a reportagem desta quinta, a crise caminha cada vez mais para o interior do Palácio do Planalto. Apesar disso, a Arko Advice mantém sua projeção sobre a probabilidade de impeachment em 40%.

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Borenstein chamou atenção ainda para as manifestações convocadas para 13 de março, que podem ser outro importante gatilho para uma mudança de cenário. “Se os protestos levarem um grande contingente de cidadãos às ruas, pode acirrar os ânimos no Congresso e influenciar a correlação de forças da comissão que analisará o pedido de impeachment da presidente”, concluiu.

Mas cuidado
Contudo, o sócio-gestor da Queluz, Rodrigo Otávio Marques, disse que o mercado deve tomar cuidado com o que deseja. Apesar dessa ser a quarta alta consecutiva, é um movimento de curtíssimo prazo, na avaliação dele, que acredita que o mercado está subestimando o imbróglio político que é a destituição de uma presidente da República.

Em um caso de impedimento via Congresso, com o vice-presidente da República, Michel Temer assumindo, ele não vê um impacto não seria tão forte, mas caso haja uma cassação pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), a tensão é muito maior. “Serão pelo menos seis meses de vazio institucional e quem assume interinamente antes da convocação de novas eleições é o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que também está ameaçado de cassação”, lembra.

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