Entrevista 2

Imagem de salvador da pátria mantém “volta, Lula” vivo, explica especialista

Para Marco Antonio Teixeira, professor de administração pública da FGV, ex-presidente só não sucumbiu ao Mensalão, porque imagem do governo era positiva

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SÃO PAULO – Uma das quesões mais curiosas da atual corrida eleitoral é que os sucessivos indícios de queda da presidente Dilma Rousseff nas pesquisas não têm sido acompanhados por qualquer alteração aparente na percepção do eleitor sobre a imagem do antecessor Lula. Ao contrário do que se poderia esperar com um aumento da insatisfação de uma parcela significativa da população com a situação do País, o cenário adverso parece recair apenas nos ombros daquela que tenta reeleição em outubro deste ano. Para muitos, o presidente mais popular da história democrática brasileira segue como modelo político e não teve sua imagem arranhada nem mesmo com os efeitos do Mensalão.

Para o professor de administração pública da FGV (Fundação Getulio Vargas) Marco Antonio Carvalho Teixeira*, é preciso observar o contexto dos dois últimos governos para se ter uma compreensão melhor dos motivos que afastam a imagem de Lula à de Dilma, apesar de ambos serem representantes do PT (Partido dos Trabalhadores) e o primeiro ter tido forte participação na eleição da segunda. Teixeira lembra que o momento vivido pela gestão de Lula aspirava mais otimismo, com resultados econômicos, sociais e posturas políticas bem mais sólidos se comparado ao atual momento do Brasil.

Na segunda parte da entrevista concedida ao InfoMoney (para conferir a primeira, clique aqui), Teixeira falou sobre a perda de popularidade da Dilma, da relação com seu mentor Lula e as escolhas políticas e econômicas do atual governo. Confira:

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IM – O que tem motivado essa perda de popularidade da atual presidente?
Marco Antonio Carvalho Teixeira – Sem dúvida nenhuma, é o bolso. As pessoas sentem isso quando elas percebem que, com o mesmo dinheiro, elas estão comprando menos. E, se a taxa de juros elevou, aquilo que ela poderia consumir parcelando hoje tem um custo maior e ela se vê impossibilitada de fazer isso. Na medida em que você olha o cenário de médio prazo e ele é ruim, você começa a buscar alguém que possa trazer uma expectativa melhor.

IM – Essa onda de protestos, insatisfação, a própria Copa do Mundo também: tudo isso gira em torno dessa falta de popularidade?
MACT – Certamente. Quando a gente foi anunciado como sede da copa do mundo, em 2006, o cenário era outro. A expectativa de médio prazo também era outra, tanto que o anúncio foi festa, não foi protesto. Os protestos começam a ser acentuados do ano passado para cá, sobretudo, quando se começa a comparar aquilo que se esperava da Copa com o que está sendo entregue, em termos de obras de infraestrutura. Ao mesmo tempo, quando se observa o investimento vultoso que foi feito e que áreas de políticas públicas importantes para o cotidiano estão abandonadas ou deterioradas, esse grau de insatisfação aumenta assustadoramente.

Tem um parâmetro que eu acho muito legal: Teresópolis (RJ) reformou todo o acesso à Granja Comary, enquanto na mesma cidade existem ainda efeitos das enchentes de 2011, que está lá e não teve intervenção pública nenhuma – inclusive com casa para serem entregues, obras que ainda estão por serem feitas. Então, quando você começa a comparar, é muito natural e muito legítimo que essa indignação se floresça muito rapidamente.

IM – A política tem esse caráter de continuidade, de herança, não é uma coisa tão pontual. Então, o que explica a permanência da imagem de Lula forte em oposição à deteriorada de Dilma?
MACT – Por uma razão muito interessante: ele terminou o governo e podemos dizer que ele deixou o País em uma situação que, se piorasse, não seria culpa dele. Acho que ele tem dois momentos: o da entrada, quando pega o País em crise – tanto que essa foi, de certa forma, a âncora do Fernando Henrique Cardoso – e o momento da saída, no qual ele o entrega em uma condição que foi possível, inclusive, eleger a candidata dele que sequer era conhecida enquanto política.

A imagem do Lula não é a de alguém que entregou o País com inflação, desemprego ou qualquer coisa parecida. Muito pelo contrário. Por isso que, para as pessoas, o “Volta Lula” faz sentido. Faz sentido para as pessoas que ganharam algum grau de inclusão social; faz sentido para o setor empresarial – é difícil você achar um setor do empresariado que não tenha sofrido impacto positivo durante o governo Lula. E, obviamente, isso acaba se traduzindo quase que em uma unanimidade.

O Lula não é mais o Lula do PT. Ele está acima disso. Ele é também o legado que ele deixou. Aquele extremamente positivo do ponto de vista de um salto, eu não diria qualidade de vida, mas talvez em melhoria de emprego, de renda e das condições de vida de muitas pessoas.

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IM – Como o senhor definiria esse período do Lula como presidente? Quais foram suas principais características como líder?
MACT – Dependendo do período, podemos localizar alguns paradoxos. Por um momento, foi o período em que se experimentou o maior processo de inclusão social no Brasil, se proliferou um conjunto de políticas sociais focalizadas, tivemos um maior número de brasileiros com acesso ao ensino superior e presenciamos o reconhecimento internacional que o o Bolsa Família ganhou. Por outro lado, foi no governo Lula que o País pôde descobrir como a política é operada, sobretudo em um sistema como o nosso, onde a governabilidade acaba tendo custos elevados. O período do Mensalão passa para a história como a marca do governo Lula.

O Lula só não sucumbiu ao Mensalão porque a sensação que a população teve de seu governo foi muito mais de bem estar do que de um governo corrupto. Caso contrário, ele sequer teria sido eleito reeleito em 2006. A ponto desta não ser a imagem do governo dele. Não é a imagem que salta. A imagem que salta é a de um governo de inclusão, que possibilitou a entrada de milhares e milhares de pessoas no mercado de consumo, que construiu políticas de transferências de renda, que ampliou o acesso à universidade, e que teve o Mensalão também. Agora, se fosse um governo em crise, a lembrança que teríamos ao final de seu mandato seria de um governo envolvido com corrupção.

IM – A gente observa que, ao menos na retórica, há uma preocupação maior do PT com políticas públicas. Quando avaliamos o desenvolvimento da economia apenas através do PIB, essa não seria uma leitura equivocada já que as metas do governo são outras?
MACT – O PIB, muitas vezes, não reflete isso. A partir daí, dá para perceber que vivemos um paradoxo: a economia está em crise, mas o País não está com índices de desemprego que sejam substantivos. Muito pelo contrário: 4,9% é quase que considerado pleno emprego. Por outro lado, a renda não foi afetada ainda sobremaneira. Por mais que você fale que o PIB está ruim, que é um PIBinho, aquilo que afeta a grande sociedade ainda não foi sentido.

Eu não diria que tal preocupação justificaria um PIB mais tímido. Eu diria que a prioridade do governo está, sobretudo, em preservar ganhos sociais. Aí, obviamente, pensar a partir de uma política econômica não salta aos olhos nem dele, nem de quem o acompanha.

De qualquer forma, quem vencer a próxima eleição vai ter que fazer ajustes. Tanto é que o governo está evitando enfrentar temas encarniçados, como o aumento nos preços do combustível, ou até temas caros ao Congresso Nacional, como os royalties do petróleo exatamente porque, neste momento, acentuaria a crise política e teria efeito negativo sobre o processo eleitoral. Mas, quem pegar o governo no ano que vem não vai ter como não discutir isso. Tudo hoje que tem efeito negativo vai ser adiado e o custo que está se avaliando aí é o custo eleitoral, não o financeiro, tampouco o do próprio interesse do Estado. O que depende do Congresso e não foi mexido até agora não se mexe mais, porque vai estar todo mundo em campanha a partir de agosto.

A própria CPI da Petrobras (PETR3; PETR4), nesse período, é um erro histórico. Ela não vai encontrar gás nem motivação para ser levada adiante a não ser que haja turbulências políticas muito fortes em torno dela.

*Mestre e doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), Marco Antonio Carvalho Teixeira é professor adjunto e pesquisador do Departamento de Gestão Pública da Fundação Getulio Vargas de São Paulo, onde leciona nos cursos de graduação em Administração Pública e Administração de Empresas, bem como no Mestrado e Doutorado em Administração Pública e Governo e, também, no Mestrado Profissional em Gestão e Políticas Públicas.