Análise

Huck na sombra de Alckmin, Bolsonaro no teto e Lula menos influente: 5 analistas comentam Datafolha

Pesquisa divulgada nesta quarta-feira mostra ex-presidente na dianteira, mesmo após condenação, e deputado federal na segunda posição

SÃO PAULO – Uma semana após ter condenação por corrupção passiva e lavagem de dinheiro confirmada por unanimidade no TRF-4 e ver maiores dificuldades no plano jurídico para sua candidatura, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva mantém liderança na corrida eleitoral, com intenções de voto inalteradas, entre 34% e 37%, a depender do cenário avaliado, segundo a mais recente pesquisa Datafolha. O líder petista é seguido por Jair Bolsonaro, que herda a dianteira em caso de ausência do ex-presidente. Contudo, o parlamentar não conseguiu repetir o crescimento visto em outros levantamentos, ao passo que poucas mudanças são vistas no segundo pelotão de candidatos, com nomes como Geraldo Alckmin, Ciro Gomes e Marina Silva, além do reaparecimento de Luciano Huck no páreo, a despeito das negativas em disputar. (Veja aqui os detalhes da pesquisa).

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A seguir um resumo da opinião de cada analista consultado pelo InfoMoney sobre a pesquisa:

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Ricardo Ribeiro (MCM Consultores)
A pesquisa não trouxe grandes novidades. Algo diferente do que vinha acontecendo é a estagnação, com viés de baixa, de Bolsonaro. Fora isso, houve pouca movimentação: Lula segue liderando, Bolsonaro, apesar do tropeço, continua na frente sem Lula, e na sequência vem um bolo de candidaturas com Ciro Gomes, Marina Silva, Geraldo Alckmin, Luciano Huck e João Doria.

Por outro lado, a baixa pontuação de Rodrigo Maia  Henrique Meirelles, embora não surpreenda, traz efeitos às candidaturas, sobretudo no caso do ministro, que ainda enfrenta dificuldades políticas internas em seu partido para se consolidar. Neste campo das candidaturas incertas, as expectativas em torno dos nomes de Huck e Joaquim Barbosa se mantêm.

O desempenho do apresentador da Rede Globo, em empate técnico com Alckmin, certamente faz sombra na candidatura do tucano, que não está em campanha mas já faz movimentações políticas de bastidor. Enquanto não houver movimento mais efetivo em direção ao eleitorado, Alckmin deve ficar estável nas pesquisas, em um patamar desconfortável para um nome do PSDB, sobretudo para o governador de um estado como São Paulo, o maior colégio eleitoral do país.

O fato de Lula ter mantido a pontuação de antes do julgamento no TRF-4 tampouco surpreende. Afinal, a informação de que ele foi condenado e que responde a outros processos já estava muito disseminada. O mesmo ocorre com a estagnação no movimento de queda da rejeição. Este movimento estaria menos relacionado com a condenação unânime, mas mais com uma percepção de que o ex-presidente chegou ao teto das intenções de voto e talvez ao piso da rejeição — ainda alta, mas muito menor, se comparada ao quadro de dois anos atrás.

A condenação por unanimidade em segunda instância reforçou o entendimento de que Lula não será candidato. Sendo assim, torna-se fundamental observar os cenários que não levam em conta seu nome na disputa. Certamente, o substituto do ex-presidente subirá nas pesquisas, ele não ficará com 2% de intenções de voto quando houver uma substituição.

Segue menos provável que o PT decida apoiar alguma candidatura já posta no campo da esquerda. Contudo, caso isso ocorra, o nome mais viável seria o de Ciro Gomes, que já aparece em patamar bom para entrar em uma disputa fragmentada. Com eventual apoio de Lula, o candidato do PDT ganharia um importante impulso capaz de elevar as chances de ir ao segundo turno. Neste caso, o ex-ministro levaria vantagem em relação a Marina Silva, cujas chances de receber apoio petista no primeiro turno são nulas. De todo modo, vale observar que ambos são os principais herdeiros do voto de Lula caso o ex-presidente não participe da disputa. Também cresce, na ausência de Lula, o grupo dos que não têm candidatos.

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Danilo Cersosimo (Ipsos Public Affairs)
A baixa oscilação nas avaliações sobre Lula nas pesquisas de intenção de voto e nos barômetros divulgados pela Ipsos reforçam sua força perante o eleitorado, além de uma debilidade de outros nomes na tentativa de se construírem como alternativas. Muitos deles não têm imagem de candidatos efetivos à presidência da República. É o que acontece com Luciano Huck.

O apresentador é uma das poucas figuras públicas alvo de especulações para as atuais eleições com uma taxa de aprovação superior à desaprovação. Contudo, há baixa capacidade de conversão de tal avaliação em intenções de voto. A imagem de Huck se confunde com a de apresentador carismático e demagogo. Ele é aprovado como figura pública, mas ainda não é visto como candidato.

De um lado, há nomes como Huck, com bons índices de aprovação e baixa conversão em votos. De outro, há candidatos com elevada conversão, mas elevada desaprovação. Esse seria o caso de Jair Bolsonaro. O deputado possivelmente atingiu seu teto nas últimas pesquisas, o que se confirma em uma observação sobre os cenários eleitorais em que a candidatura de Lula não é considerada. Apesar de manter a liderança na disputa, o ex-capitão do Exército enfrenta dificuldades para crescer e vê seu índice de rejeição em patamar elevado para um candidato de primeira viagem (29%, segundo o último Datafolha).

Uma das grandes perguntas da atual eleição seria: qual será o espaço do novo em 2018? É possível que o brasileiro, no momento de escolher seu candidato, não queira arriscar e opte por uma postura conservadora, decidindo por endossar a candidatura de uma figura mais conhecida na política. Tal sentimento do eleitorado pode ter se manifestado na última pesquisa Ipsos, que detectou uma queda generalizada nas desaprovações de figuras do establishment, o que pode ser entendido como espécie de resignação, conformismo com os nomes hoje postos.

Haveria um vácuo no cenário eleitoral que o discurso do novo tentou preencher e até o momento não conseguiu, sobretudo em meio ao arrefecimento da candidatura de João Doria e do próprio Luciano Huck, que negou interesse em disputar a sucessão de Michel Temer. A sociedade dá sinais de divisão entre a escolha pelo novo ou pela experiência. O desafio dos atuais candidatos se configuraria em construir uma imagem efetiva, o que reduziria a dependência a fatores externos, como o noticiário, indicadores econômicos (inflação e desemprego). Está todo mundo tentando se apegar a rótulos, enquanto os candidatos precisam construir seus próprios discursos e bandeiras.

Em uma situação de preferência pela experiência, o nome de Geraldo Alckmin naturalmente cresceria. Por outro lado, a elevada rejeição mostra-se tendência de difícil reversão. Além disso, há três fatores importantes para a viabilidade da candidatura do tucano: 1) quanto ele vai conseguir comunicar sua experiência administrativa; 2) quanto conseguirá distanciar-se de menções de corrupção; 3) se o PSDB será capas de não se autofragmentar durante o processo eleitoral.

Do lado da esquerda, com a probabilidade crescente de impedimento à candidatura de Lula pela Lei da Ficha Limpa, crescem as especulações sobre o “plano B” do PT. Pelo comportamento adotado pelo partido recentemente, era esperada uma pontuação baixa de Fernando Haddad e Jaques Wagner nos cenários sem o ex-presidente, uma vez que a sigla não tratou esses nomes como alternativas de forma explícita. Isso só deverá acontecer quando a candidatura de Lula estiver totalmente sacramentada. Dependendo de qual cenário se confirmar, cresce ou diminui o potencial de transferência de votos ao herdeiro da candidatura petista. Uma coisa é Lula estar inelegível podendo fazer campanha. Neste caso, as chances de um sucessor aumentam. O cenário de Lula encarcerado torna mais difícil a candidatura, porque este seria um nome mais desconhecido em um partido com elevada rejeição. Haddad e Wagner não são nomes nacionalmente conhecidos, o que fica mais difícil se Lula for preso.

Lula tornou-se maior que o PT. Seu eleitorado não necessariamente é também do partido. Isso se observa a partir da elevada migração de votos para brancos e nulos na ausência do ex-presidente na disputa. Neste caso, a eleição naturalmente contaria com um absenteísmo maior.

Carlos Eduardo Borenstein (Arko Advice)
Em que pese o fato de Lula conseguir preservar seu eleitorado em um primeiro momento, mesmo após a confirmação da condenação no caso do tríplex, a pesquisa Datafolha já captou uma queda na capacidade de transferência de votos do ex-presidente. Isso mostra um desgaste, mesmo que não tenha se traduzido em recuo de votos a Lula. Na outra ponta, Jair Bolsonaro parou de crescer. Isso indica, por um lado, que tem um eleitorado fiel que varia de 11% a 15%, mas, por outro, que há dificuldades para continuar crescendo.

Pelo centro governista, apesar de Alckmin registrar apenas 7% das intenções de voto, ele tem um índice de rejeição menor que os dois nomes que lideram a disputa (26%, segundo o Datafolha, contra 40% de Lula e 29% de Bolsonaro). O tucano também parece ter maior capacidade de atrair aliados, em comparação com nomes como Henrique Meirelles e Rodrigo Maia, que pontuaram menos na pesquisa. Além disso, o governador tem a máquina paulista em suas mãos, e o PSDB é um partido com maior estrutura no país e experiência em disputas presidenciais. Ainda é cedo dizer que o ministro e o deputado tomaram um banho de água fria. As expectativas são de que eles mantenham candidatura para elevar o poder de barganha no processo eleitoral.

No fundo, apesar da baixa intenção de votos, a pesquisa foi favorável a Alckmin. Se for considerado o menor potencial da esquerda de atrair aliados, o tucano poderia largar ainda mais à frente, caso se confirme uma aglutinação da base do atual governo em torno de sua candidatura. Apesar de Luciano Huck representar uma ameaça hoje, o atual desinteresse na candidatura reduz os riscos ao governador. Além disso, vale lembrar que, de todos os cenários de segundo turno em que seu nome é considerado, Alckmin só perde de Lula (49% a 30%); nos demais, o tucano empata tecnicamente com Ciro (34% a 32% a seu favor) e Bolsonaro (35% a 33% a seu favor).

Em meio às grandes possibilidades de Lula ficar fora da disputa, é pouco provável que aconteça uma aglutinação da esquerda em torno de uma única candidatura. A explicação se dá pela migração de votos nos cenários sem o ex-presidente: pouco mais da metade se divide majoritariamente entre Marina Silva e Ciro Gomes, enquanto a outra parte vai para o grupo de votos brancos e nulos. Sem Lula, esse elitorado fica órfão, o que abre a possibilidade para candidatos de esquerda buscarem esse espaço. Além disso, não há movimentos claros do PT de desistência de uma candidatura presidencial neste momento.

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A pesquisa Datafolha manteve a perspectiva de um cenário ainda embaralhado, com nove situações de intenção de voto, todas diferentes dos investigados no último levantamento. De um lado, Lula foi pouco abalado pelo julgamento da semana passada, enquanto, do outro, testou-se a reação de Bolsonaro às reportagens recentes. Embora as situações sejam diferentes e dificultem uma comparação mais fiel, o deputado perdeu algo entre 1 e 3 pontos percentuais, ao passo que o ex-presidente recuou 2 pontos no cenário mais provável dentre os que consideram sua candidatura, que também inclui Marina Silva.

No mais, Lula mantém a dianteira, mas seu potencial de transferência de votos piorou entre uma pesquisa e outra. Isso, ao mesmo tempo em que reforça a estratégia do PT para manter o ex-presidente como candidato até quando for possível, também incentiva a multiplicidade de candidaturas na esquerda e prejudica a formação de alianças para a eleição.

Como a força do campo de centro se concentra em recursos e tempo de televisão, o que apenas terá efeito durante o período de campanhas, é improvável que haja fato no curto prazo que possa levar um nome possivelmente representante da base governista a um patamar de intenção de votos mais confortável. Enquanto isso, o desempenho pouco animador de Geraldo Alckmin continuará fomentando candidaturas alternativas, tanto dentro da política (Rodrigo Maia e Henrique Meirelles), como de fora (Luciano Huck e até Joaquim Barbosa).

Leopoldo Vieira (Idealpolitik)
Com Geraldo Alckmin estacionado, ainda tecnicamente empatado com João Doria e com Luciano Huck, crescem as especulações sobre alternativas enquanto o apresentador volta a empolgar players da centro-direita. Se passasse “por milagre” ao segundo turno, o tucano estaria empatado com Jair Bolsonaro, ao passo que os demais derrotariam o deputado. Esse cenário, inclusive, reforça a percepção de que não existe “voto útil anti-extremista” suficiente a favor do tucano neste cenário. Parece que terão de trocar de nome, já que Lula segue liderando com mais de 1/3 dos votos.

Na esquerda, a combinação de uma taxa de 2% de intenções de voto para Jaques Wagner e o aumento da rejeição a um nome indicado por Lula (53%) faz de eventual candidatura do ex-governador baiano uma aventura, assim como o nome de Guilherme Boulos pelo PSOL, com no máximo 1% dos votos, ou o de Manuela D’Ávila, com até 3%.

A despeito da baixíssima pontuação na pesquisa, o nome de Henrique Meirelles pode ganhar força em um sistema de fiador de outsider partindo do governismo, a depender do êxito da ala política da base do governo em bancar a aprovação da reforma da Previdência. Como nome solo, o ministro segue inviável.

Para Lula, o xis da questão seria no campo político, mesmo em meio ao risco de prisão. Se tentar fazer acenos ao mercado e fizer um discurso de pacificação, pode conseguir uma nova colocação no tabuleiro em um momento em que a direita ainda patina. Por outro lado, caso insista na radicalização, atendendo à demanda de setores que querem disputar seu apoio após a interdição, o desfecho não tende a ser favorável.