Haddad: fogo amigo do PT “atrapalha”, e  esquerda deveria promover “novas lideranças”

Desde o início do governo Lula, ministro da Fazenda vem sendo alvo de críticas de correntes do PT, inclusive da presidente do partido, Gleisi Hoffmann, por suposta austeridade fiscal excessiva

Fábio Matos

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), em entrevista concedida à rede EBC (Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

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O ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), admitiu, nesta segunda-feira (15), que as críticas feitas por setores do PT à equipe econômica do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) causam “ruídos absolutamente desnecessários” e, muitas vezes, prejudicam o andamento dos projetos de interesse do Executivo no Congresso Nacional.

Desde que assumiu o comando da Fazenda, Haddad já foi alvo de críticas de lideranças petistas, insatisfeitas com o que classificam como austeridade fiscal excessiva do governo. A maioria dos ataques ocorreu após a aprovação do novo arcabouço fiscal, no ano passado.

Considerada adversária interna de Haddad no PT, a presidente nacional do partido, Gleisi Hoffmann, é a liderança que mais tem vocalizado as críticas à política econômica do governo Lula. Por outro lado, o ministro conta com o apoio do ex-deputado federal e ex-chefe da Casa Civil José Dirceu – que também já foi presidente do PT.

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“Esse tipo de coisa que acontece em bastidor atrapalha mesmo, e não é pouco. Às vezes, você gera ruídos absolutamente desnecessários que atrasam a agenda em duas, três semanas”, reconheceu Haddad, em entrevista ao programa Estúdio i, da GloboNews.

“Quando tem debate público, eu não tenho problema. Vejo com bons olhos quando alguém do PT diverge da Fazenda ou questiona uma decisão. É do jogo, eu gosto de pertencer a um partido que tem opinião”, explicou o ministro. “Atrapalha quando é um jogo meio cifrado, não fica claro quem está falando.”

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Renovação do PT e da esquerda

Na entrevista, o ministro da Fazenda afirmou que o PT e a esquerda brasileira deveriam concentrar suas forças em promover novas lideranças políticas, já pensando no que vem sendo chamado de “pós-Lula”. O atual presidente da República, que está em seu terceiro mandato, é o candidato natural do PT à reeleição, em 2026, mas, caso se reeleja, não poderá concorrer novamente em 2030.

“Independentemente dessa coisa da Presidência, que é algo muito particular, o papel dos partidos que estão no governo é promover novos nomes, é promover gente nova, com cabeça nova, arejada, preparada, aguerrida, com vontade de colaborar com o país. Eu sempre dou muito valor para que se abram oportunidades”, disse Haddad.

“Penso que temos de dar oportunidade para que novas lideranças surjam e para que novas pessoas possam colaborar. Nosso campo está precisando de novidades. E, naturalmente, essas pessoas vão saber se colocar e os nomes vão aparecer”, prosseguiu o ministro.

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Questionado sobre a força do espectro político mais ligado ao bolsonarismo, Fernando Haddad disse que, em um quadro de polarização cristalizada como o atual, “não tem ninguém imbatível”, nem mesmo Lula.

“Isso, para mim, está claro. Uma nova força se organizou no país, completamente diferente do tucanato. Uma força mais extremista e com capacidade de comunicação, com um viés de pautas que emocionam as pessoas e causam temor nas famílias. Eles trabalham muito o lado do medo nas pessoas e criam assombrações, que ajudam eleitoralmente”, concluiu.

Fábio Matos

Jornalista formado pela Cásper Líbero, é pós-graduado em marketing político e propaganda eleitoral pela USP. Trabalhou no site da ESPN, pelo qual foi à China para cobrir a Olimpíada de Pequim, em 2008. Teve passagens por Metrópoles, O Antagonista, iG e Terra, cobrindo política e economia. Como assessor de imprensa, atuou na Câmara dos Deputados e no Ministério da Cultura. É autor dos livros “Dias: a Vida do Maior Jogador do São Paulo nos Anos 1960” e “20 Jogos Eternos do São Paulo”