Entrevista exclusiva

Há uma rejeição recorde à política que vai se expressar nas urnas, diz diretor do Datafolha

Em entrevista ao InfoMoney, Mauro Paulino diz que grau de incerteza ainda é elevado, mas dificilmente absenteísmo será baixo em outubro

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SÃO PAULO – A pouco mais de oito meses do primeiro turno, a corrida presidencial ainda reflete um misto de indefinição de candidaturas e rejeição recorde ao establishment político. Se, no campo governista, o desempenho fraco dos principais nomes ventilados nas pesquisas de intenção de voto abre espaço para cada vez mais especulações, na esquerda a incerteza acerca do futuro da candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva após condenação unânime em segunda instância abre um risco de fragmentação que antes parecia ser problema quase exclusivo da centro-direita. O eleitor nunca esteve tão descontente com os resultados da política e isso dificilmente poderá ser evitado nas urnas. Essa é a leitura que faz Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha, entrevistado pelo InfoMoney na última sexta-feira (2).

Conforme mostrou o instituto em sua mais recente pesquisa, nunca a possibilidade de absenteísmo nas eleições para o Palácio do Planalto foi tão alta nesta etapa da disputa. Segundo o levantamento divulgado na última quarta-feira (31), a soma de brancos, nulos e indecisos varia de 16% a 36%, a depender do cenário observado. Os percentuais maiores refletem as situações que desconsideram candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que hoje corre crescentes riscos de ser enquadrado na Lei da Ficha Limpa e se ver impedido de participar da disputa que hoje lidera.

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É certo que, dado o grau de incerteza, ainda há espaço para alguma reversão do absenteísmo à medida que as candidaturas se consolidam no xadrez eleitoral. Por outro lado, tudo indica que parcela expressiva dos votos brancos e nulos e ausências permanecerá imune aos esforços de campanhas dos postulantes à sucessão de Michel Temer. Para Paulino, essa é uma das mais claras manifestações do desconforto acumulado do eleitor brasileiro, em um movimento que ganhou contornos inéditos nos protestos de junho de 2013. A despeito da maior calmaria nas ruas, o especialista não vislumbra nenhuma sinalização de trégua.

“É muito raro encontrar um eleitor que não esteja muito revoltado, que não esteja prestando muita atenção ao que está acontecendo. Por não ter manifestações de rua ou uma revolta mais explícita, pode parecer que o eleitor está resignado. Não está. Existe uma tensão acumulada que vai se expressar nas urnas de alguma forma”, observa. Apesar da elevada insatisfação, nenhuma opção palatável ao eleitor até o momento surgiu. Em paralelo com o desconforto em relação aos nomes tradicionais da política, extremos são alvo de rejeição enquanto outsiders enfrentam os desafios de superar a desconfiança e o rótulo do oportunismo.

Para Paulino, as eleições presidenciais deste ano terão como marca a perda de força do marketing político em contraste com um protagonismo maior dos próprios candidatos em suas campanhas, reflexo das novas regras aprovadas pelo Congresso em outubro do ano passado. O especialista também chama atenção para o papel a ser desempenhado pelas redes sociais, que devem trazer maior dinamismo a uma disputa que promete grandes reviravoltas. Ele acredita que, ao contrário de pleitos anteriores, a economia não será tema principal. Desta vez, saúde e segurança pública deverão receber ainda maior espaço na campanha. Confira os destaques da entrevista:

InfoMoney – A última pesquisa apresentou nove cenários distintos de primeiro turno, o que reflete um nível de incerteza ainda grande nessas eleições. Quais são os principais desafios de se trabalhar com pesquisas em um ambiente tão aberto e em um contexto de crescentes questionamentos a esse trabalho ao redor do mundo?

Mauro Paulino – O desafio é enorme, porque, mesmo fazendo novos cenários e tentando contemplar as mais diversas situações, não conseguimos contemplar tudo. Por exemplo, tivemos que optar por Jaques Wagner e excluir Fernando Haddad, pelo PT. O que fazemos é usar um critério jornalístico. Alguns podem não concordar, mas é o que é possível fazer em meio a tanta indefinição. Nove cenários é muita coisa para apresentar a um entrevistado que não está pensando tanto em eleição. Na verdade, poucos estão preocupados com eleição neste momento, acabamos impondo um problema aos entrevistados. De qualquer forma, os dados são consistentes. É preciso levar em conta que o cenário é muito indefinido e o que tentamos é dar um panorama aproximado do que pensa o eleitor neste momento.

IM – Outro destaque da pesquisa foi o percentual recorde de brancos e nulos. Até que ponto isso pode ser revertido até o dia da eleição, sobretudo em um cenário de eventual ausência de Lula na disputa, quando tal fenômeno se observa de modo ainda mais expressivo? Do ponto de vista democrático, de representatividade, quais são os impactos de um elevado absenteísmo?

MP – Comparando com pesquisas feitas no mesmo período [de outros processos eleitorais], o número de eleitores sem candidato neste momento nunca foi tão grande. E quando o nome de Lula não está presente, o absenteísmo cresce e chega a 1/3 dos eleitores, taxa altíssima em pergunta estimulada. É uma taxa próxima do que se apresenta nas perguntas espontâneas. Isso reforça a crise de representação que vivemos já há alguns anos. Há vários indicadores na série de pesquisa que fazemos que mostram que os eleitores não se sentem representados pela oferta de candidatos e partidos. As pesquisas estão mostrando que a maioria dos eleitores se sente desamparada politicamente, em um ambiente que existe um alto grau de desesperança, desalento, desconfiança e revolta em relação ao fazer política. A forma como a política se apresenta tem desagradado profundamente os eleitores.

IM – Mas, levando em consideração sua experiência com pesquisas eleitorais, quais podem ser as expectativas em relação a uma reversão do absenteísmo hoje visto até o final do processo?

MP – Certamente deve cair, porque também é um momento de muita indefinição que não ocorria nessa época em outras eleições. De alguma forma, as candidaturas sempre estavam colocadas ou pelo menos sinalizadas com mais segurança. Mas, por ser um recorde, quando olhamos para trás e comparamos, o que podemos prever é que é muito possível que o “não voto” seja maior do que em eleições anteriores. Não vejo muita perspectiva de que o cenário, o dia a dia das pessoas, as dificuldades que elas vêm enfrentando e esse vácuo político se resolvam até o dia das eleições. É claro que há uma melhora na economia, as pessoas começam a sentir isso, mas o pessimismo ainda é majoritário. Muitas candidaturas, principalmente as de centro ainda vão se colocar e os eleitores irão tomar conhecimento disso. Se, de fato, a economia melhorar e houver candidatos que consigam passar alguma credibilidade maior do que os políticos atuais, se houver alguma novidade ou alguma mudança de discurso, isso pode se reverter. A questão é se há ambiente para isso aconteça.

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IM – Ao mesmo tempo, é difícil que seja uma figura apoiada enfaticamente pelo presidente Michel Temer, tendo em vista sua elevada impopularidade. Há uma melhora na percepção acerca da economia, mas a avaliação do governo não acompanha o movimento…

MP – Sem dúvida. Aquele que atrelar sua imagem à imagem do presidente Temer tende mais a perder do que a ganhar. Isso é certo. Percebemos que, apesar de o pessimismo em relação à economia ter diminuído, a avaliação do governo Temer permanece no mesmo patamar dos últimos meses, com 70% de reprovação. Como candidato a presidente, ele tem 60% de rejeição. Não me parece que haja perspectiva de que o apoio de Temer possa beneficiar algum candidato.

IM – O deputado Jair Bolsonaro parou de crescer na última pesquisa presidencial. No cenário de primeiro turno, ele segue na dianteira quando Lula não participa, mas, no segundo turno, perde para todos os adversários. O que isso significa? Há uma tendência à rejeição a extremos nesta disputa?

MP – Sim. Em geral, os extremos recebem mais rejeição. Bolsonaro, na verdade, é uma marca. Ele conseguiu estabelecer uma marca muito forte em relação à segurança pública, que agrada parte significativa do eleitorado, muito convicta e fiel a ela. Por outro lado, ele é muito rejeitado por outro segmento significativo. O que explica o fenômeno Bolsonaro é também algo que a população expressa de forma muito contundente neste momento: o medo de sair às ruas, de sofrer violência. A segurança pública é, talvez junto com a saúde, tema que vai protagonizar as eleições deste ano. Talvez a economia não seja tão protagonista como foi em eleições anteriores e perca espaço para esses dois temas. Nesse ambiente, Bolsonaro acaba se beneficiando.

IM – Se essa é uma demanda prioritária da população, por que outros candidatos deram tão pouca atenção a ela até agora?

MP – Bolsonaro já tomou conta do segmento que adere às ideias mais radicais. Se algum candidato tentar esse caminho, possivelmente não vai poder fazê-lo da forma como o deputado faz. É algo bastante delicado e os candidatos vão ter que, de alguma forma, conseguir criar soluções e propostas que sejam inteligíveis, captadas pela maioria da população, mas que também se contraponham às ideias extremadas de Bolsonaro. Isso ocorre em um ambiente em que, de todas as eleições pós-ditadura, esta é a que os candidatos vão enfrentar um eleitorado mais refratário, mais predisposto a negar qualquer discurso político. Há uma rejeição recorde à política em geral, seja de esquerda, direita ou centro. A imagem da atuação política no Brasil está muito prejudicada.

IM – Sabemos que existirão outras variáveis relevantes para o resultado destas eleições, como alianças, tempo de televisão, capilaridade dos partidos, mas, no campo das narrativas, a economia, apesar de sua relevância, não será o grande tema. Nesta eleição, teremos que adaptar a máxima do marketeiro James Carville para algo como “é a segurança, estúpido”?

MP – Segurança e saúde, eu diria. É claro que a economia sempre está presente, especialmente a questão do desemprego, que preocupa muito e atinge diretamente a estabilidade das famílias. Isso sempre vai aparecer. Mas certamente as grandes questões hoje não se referem à economia, mas a esses dois pontos.

IM – Na mesma semana em que foi divulgada a pesquisa Datafolha, o instituto Ipsos apresentou levantamento, com base em coleta anterior ao julgamento do ex-presidente Lula. O estudo identificou uma queda na desaprovação da maior parte das figuras da classe política. Conversamos com Danilo Cersosimo, que disse que tal movimento chega a ser normal nesta época do ano, mas ele acreditava em uma espécie de resignação do eleitor. O senhor tem percepção semelhante, com base nos recentes levantamentos do Datafolha?

MP – Não vejo resignação. Eu tenho o hábito de ouvir aleatoriamente as gravações das entrevistas feitas em diversas regiões do país e é muito raro encontrar um eleitor que não esteja muito revoltado, que não esteja prestando muita atenção ao que está acontecendo. Pode parecer que, por não ter manifestações de rua, o eleitor esteja resignado, desinteressado. Não está. Existe um acúmulo de insatisfação muito grande, e as pessoas acompanham o noticiário, estão acompanhando todas essas questões ligadas a corrupção e estão se manifestando através das pesquisas. Essa taxa de eleitores que votariam em branco ou nulo se a eleição fosse hoje é uma manifestação de protesto, uma demonstração de que a classe política não está atendendo aos anseios da população. Acho que existe uma tensão acumulada que vai se expressar nas urnas de alguma forma.

IM – Outra indicação da última pesquisa Datafolha foi a manutenção das intenções de voto do ex-presidente Lula após o julgamento em Porto Alegre. Em uma entrevista logo após o episódio, o senhor chegou a dizer que, se o ex-presidente concorresse sub judice, ele seria o maior beneficiário da situação. Por outro lado, o levantamento recente mostrou um nível de desconhecimento significativo sobre o julgamento. Isso pode pressionar o ex-presidente nas próximas pesquisas?

MP – Essa declaração que dei ao Valor [Econômico] foi baseada no histórico, na forma como a população reagiu à imagem do Lula em momentos semelhantes. Por exemplo, durante o auge do noticiário sobre o ‘mensalão’, Lula perdeu prestígio e depois acabou recuperando. Mais recentemente, na condução coercitiva e no depoimento, que foram amplamente divulgados, ele ganhou popularidade. Essa resistência que Lula apresenta perante a opinião pública, baseada na lembrança que as pessoas têm de seu governo, principalmente os menos favorecidos, me faz crer que, com a eventual prisão ou mesmo mais pessoas tomando conhecimento da condenação, ele tem tendência a ser beneficiado. Mas isso com base no que já aconteceu. É claro que agora há um dado concreto, que é a condenação. Vamos ver como a população reage a partir do momento em que todos tiverem conhecimento disso. Mas, pelo passado, pelo que já registramos, me parece que o mais provável é que ele saia ganhando. É possível que haja uma disseminação da percepção de que ele vem sendo vítima de perseguição. Mas isso, claro, a ser confirmado por próximas pesquisas após os fatos acontecerem. Isso é só uma ilação a partir do que acompanhamos.

IM – Como o senhor tem observado a avaliação do eleitorado sobre o Judiciário, que seria a outra ponta neste caso? Existe uma queda na confiança que ajudaria Lula na construção desse discurso?

MP – No ano passado, investigamos alguns aspectos da imagem do Judiciário, e, assim como praticamente todas as instituições que investigamos, ele também está sendo mal avaliado, vem piorando sua imagem. Há uma taxa próxima de 90%, quase a totalidade da população, que percebe que o Judiciário beneficia mais os ricos e prejudica os pobres. Diante dessa crise que vivemos de negação das instituições, o Judiciário também está incluído. É interessante que essa pesquisa mostrou que a instituição com mais prestígio e mais bem avaliada neste momento são as Forças Armadas, também justificado por esse medo que a população tem de sair às ruas. Para se ter uma ideia, metade da população brasileira identifica a presença de facções criminosas nas regiões de suas residências.

IM – E as Forças Armadas têm uma aprovação distinta das polícias.

MP – Certamente. As Forças Armadas têm uma percepção melhor. Algumas pesquisas que fizemos mostram as proporções iguais de pessoas que têm mais medo da polícia do que dos bandidos e mais medo dos bandidos do que da polícia. Isso divide a população. Na periferia, há uma taxa muito alta de pessoas que temem serem acusadas de algo que não fizeram, que é uma prática frequente da polícia, principalmente nessas regiões. O eleitorado, especialmente os mais desfavorecidos, que têm uma renda familiar abaixo de três salários mínimos e representam cerca de 70% da população, acaba sentindo a violência tanto do lado policial, quanto do lado da criminalidade.

IM – No cenário de transferência de votos, vimos uma queda na capacidade do ex-presidente Lula em comparação com a pesquisa anterior. 53% é um patamar elevado de rejeição, ao mesmo tempo 27% correspondem a um bom percentual para ida ao segundo turno em um ambiente fragmentado. A tendência é haver uma melhora nessas condições para nomes de esquerda, como Jaques Wagner ou até Ciro Gomes? E quais seriam os efeitos de eventual prisão de Lula sobre sua capacidade de transferir votos?

MP – Seja qual for o nome que substitua Lula, vai precisar de tempo para se tornar conhecido e para que as pessoas que gostam de Lula saibam que é esse candidato que ele apoia. Ao mesmo tempo, ele precisa demonstrar que tem capacidade, poder político e carisma para fazer as coisas que as pessoas acham que Lula pode fazer. É necessário tempo e espaço, principalmente na TV, para demonstrar isso. Nesse sentido, as entrevistas, os debates e principalmente o início da campanha na TV vai ser muito importante. As redes sociais também ganham muita força neste momento. A velocidade entre troca de informações proporcionada por elas faz com que as mudanças se tornem mais rápidas. Essas informações podem ser transmitidas de forma mais rápida, mas também podem ser combatidas de forma mais rápida. Vai ser uma eleição muito interessante para vermos até que ponto as redes sociais vão interferir na escolha dos candidatos. Tenho a impressão que deve ser uma eleição com mais alternativas, com mais mudanças durante o processo do que a de 2014, que já foi muito movimentada, com a morte de Eduardo Campos, a entrada de Marina Silva, seu crescimento, depois sua queda e a ascensão de Aécio Neves. Acho que essa eleição vai ter ainda mais reviravoltas que a anterior.

IM – Para muitos analistas o principal risco para o centro governista seria a fragmentação de candidaturas. Um nome como Geraldo Alckmin pode não ser capaz de angariar apoio de toda a coalizão, também em função de sua baixa pontuação nas pesquisas eleitorais. Como o senhor observa as movimentações nesse grupo político? Ainda há espaço para uma espécie de “repescagem de outsiders” até abril, quando fecha a janela para filiações e transferências partidárias?

MP – Uma grande parte do eleitorado, eu diria pelo menos 1/3, rejeita Lula, a esquerda, e não se satisfaz com Bolsonaro. Há espaço de crescimento para candidatos do centro. No caso de Alckmin, o problema não é ser conhecido. O que o atrapalha é uma rejeição à sua imagem fora de São Paulo e também uma lembrança negativa que a população tem do governo Fernando Henrique. Quando perguntamos o potencial de transferência de votos, o ex-presidente tem apenas algo em torno de 10% ou 12% de eleitores que votariam com certeza em um candidato apoiado por ele. Então, por estar no PSDB, Alckmin tem o desafio de reverter essa imagem negativa de governos anteriores e sua própria imagem negativa fora de São Paulo. Do lado dos outsides, no caso de Luciano Huck, que teve 3% na pesquisa de setembro e agora chega a 6% ou 8% dependendo do cenário, será preciso demonstrar capacidade de governar. Ele é muito conhecido como apresentador de TV, e boa parte da população vê com desconfiança [a possível candidatura], talvez como um oportunismo. Problema de comunicação não vai ter, mas ele precisa ter propostas concretas e capacidade de demonstrar que pode ser um bom administrador. Boa parte da população vê com desconfiança um apresentador de TV sair como candidato. Podemos nos lembrar de Silvio Santos, que é o mais conhecido de todos, e que, em 1989, chegou a 18% e acabou não emplacando a candidatura. Não basta ser conhecido, é preciso demonstrar capacidade administrativa.

IM – No caso de Alckmin, há um incômodo nos bastidores com a pontuação considerada baixa, sobretudo em São Paulo. Seria natural que ele alcançasse um patamar mais expressivo em seu Estado mais rapidamente ou essa será uma batalha igual à travada em todo o Brasil?

MP – Acho que, para os próximos meses, ele vai ter dificuldade. Há algum tempo ele vem estagnado nesse patamar. Se a gente lembrar da eleição presidencial em que participou, em 2006, ele teve dificuldades para chegar ao segundo turno. Mesmo após o início da campanha eleitoral na TV, foi crescendo cerca de um ponto a cada pesquisa até conseguir evitar a vitória de Lula no primeiro turno. Mas aí, ao chegar ao segundo turno, teve menos votos do que teve no primeiro turno, algo inédito. Agora, por outro lado, ele vai ter bastante tempo na TV e um discurso e atuação na segurança pública também bastante conhecidos, que é algo que acho que vai fazer diferença nessa eleição. Claro, ele deve sair desse patamar. A questão é até que ponto ele consegue chegar a partir do início da campanha na TV. Como até lá ele terá bastante dificuldade, também haverá a dificuldade de manter a candidatura dentro do partido, porque seu potencial de crescimento se dará mais a partir de meados de agosto, quando começar a campanha.

IM – E ainda existe o desafio de construir uma base em São Paulo para sua sucessão, seja com o vice-governador Márcio França, seja com um nome tucano, como João Doria.

MP – Márcio França é bastante desconhecido, vai precisar de um trabalho de divulgação bastante forte, enquanto João Doria enfrenta uma rejeição alta na administração paulistana. Há vários obstáculos que o PSDB vai precisar superar. De qualquer forma, é um partido que tem bastante tempo, uma base muito forte e consegue fazer campanha com bastante visibilidade. Então, qualquer candidato que saia pelo partido, seja pelo governo do Estado, seja para presidente, sempre tem muita chance de crescer.

IM – No ano passado, o Congresso aprovou e o presidente Michel Temer sancionou mudanças nas regras eleitorais (sobretudo financiamento de campanha, fundo partidário e cláusula de desempenho). Como o senhor observa os efeitos da reforma política sobre as estratégias dos partidos e dos próprios candidatos para as eleições? Considerando a questão do risco da fragmentação, em caso de eventual aglutinação do centro, a chance de êxito cresce ainda mais, em função da combinação de maior tempo de TV e recursos mais escassos para campanhas? Isso daria um peso maior ainda às coalizões nas eleições?

MP – Creio que sim. Agora, isso faz com que os debates, as entrevistas, as aparições fora do horário eleitoral e as redes sociais ganhem importância. O poder de convencimento se torna ainda mais importante. Acho que deve ser uma campanha com menos poder para o marketing político e mais para as candidaturas. Fazendo um paralelo, é mais ou menos como na Fórmula 1: os carros perdem potência por algum tipo de regra, e a habilidade do piloto ganha importância. Acho que vai ser mais ou menos isso que vai acontecer nessa eleição.

IM – Em meio a todas essas incertezas com relação à candidatura do campo governista, como a reforma da Previdência dialoga com o quadro eleitoral e como o senhor observa o tema sendo tratado durante o processo?

MP – Acho que o tema Previdência vai sumir da discussão, principalmente se não houver votação. É um tema muito delicado, porque há rejeição, um reflexo da falta de discussão. O tema foi debatido internamente e a população ficou à margem, apenas sabendo das possibilidades das decisões. Há ainda uma preocupação muito grande com uma perda de direitos. Grande parte do eleitorado já se sente prejudicado por perder oportunidades que identificam com a Era Lula, como acesso a bens de consumo e educação. A reforma da Previdência entra nesse pacote. A imagem que se tem é que é algo que vai tirar direitos dos mais pobres. Então, qualquer candidato que tente defendê-la corre um sério risco de sofrer desgaste. Isso não vai aparecer nas campanhas. Os candidatos terão de ser provados em relação a esse tema.

IM – O que o eleitor deve monitorar daqui para frente?

MP – Temos que acompanhar como se desenrola a rejeição aos políticos, que vem crescendo desde junho de 2013. Aquele foi um marco que acabou até tirando alguns da política, o exemplo maior foi Sérgio Cabral. Todos os governantes naquele momento sofreram desgaste forte, foi um momento em que a avaliação de Dilma despencou, e, a partir de então, o vácuo político cresceu. Acho que esse desgaste chega ao auge nessa eleição. É uma eleição histórica nesse sentido, de a classe política tentar recuperar um pouco do prestígio perdido, fazer com que haja alguma renovação que faça com que a população passe a acreditar um pouco mais nas ações políticas. Pensando no bem da democracia, no bem do Brasil, acho que todos os candidatos neste ano têm a responsabilidade de mostrar que são capazes de recuperar a confiança dos eleitores.