Entrevista para a Folha

Guinada populista poderá levar o Brasil para o “brejo” e dívida ir para a “Lua”, diz Armínio Fraga

Em entrevista para a Folha, ex-presidente do Banco Central destacou que a economia brasileira só voltará a crescer com vigor quando houver clareza sobre as forças políticas que vão liderar o próximo governo

SÃO PAULO – Em entrevista para o jornal Folha de S.Paulo, o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga fez um alerta ao visualizar o cenário para 2018.  De acordo com ele, a economia brasileira só voltará a crescer com vigor quando houver clareza sobre as forças políticas que vão liderar o próximo governo. “Se a mudança na direção da política econômica for mantida, consolida uma coisa muito boa. Pode acontecer o contrário, uma guinada populista e ir tudo para o brejo”, afirmou.

De acordo com ele, os mercados parecem calmos, apesar das incertezas na política e nas dificuldades na economia, porque as condições externas são favoráveis, além da percepção  de que as instituições do país estão funcionando e da guinada na balança de pagamentos. Soma-se a isso que, “apesar da confusão, o governo vem conseguindo manter viva alguma margem para a aprovação de reformas”. 

Desta forma, ele afirma que o mercado embute nas expectativas hoje um 2018 tranquilo. Mas faz um alerta: “tenho receio de esse quase consenso não ser tão firme assim”. Ao ser questionado sobre se o que pode desencadear a tempestade é a política, ele afirma que sim, com destaque para as eleições. Para Armínio, fala-se na ideia de procurar alguém como o presidente da França Emmanuel Macron. “Mas é certo que, mesmo que surja alguém sem o histórico difícil que muitos do mundo político têm, não vai acontecer no Brasil uma guinada tão grande na composição do Congresso. O Brasil velho continuará lá, superbem representado, o que vai dificultar”. Segundo o ex-BC, se o próximo governo não vier com algo muito bem fundamentado na gestão da economia, “pode trazer um problema enorme. A dívida pública, mesmo com todas essas reformas aprovadas, o que não é certo que aconteça, vai estar na Lua, indo para 95% do PIB”.

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Armínio afirmou que não tem muito entusiasmo pelo que está vendo no PSDB, destacando que o “partido está se enrolando todo e vai acabar perdendo a chance”. Sobre Aécio Neves, ele afirmou ter ficado chateado com os diálogos de Joesley Batista com o senador. “Na campanha presidencial de 2014, eu estava animado com a possibilidade de trabalhar com Aécio. Acho que teria sido um bom presidente, mas esse lado mais extremo eu não enxergava. É uma tristeza”. Ao falar sobre Lula, Armínio afirma que, se o petista for candidato, “vai voltar ao mesmo padrão de mentiras e promessas de antes. Ele declarou outro dia que nunca o Brasil precisou tanto do PT quanto hoje. Para quê? Para quebrar de novo? Para enriquecer todos esses que estão aí mamando há tanto tempo? Acho que a campanha vai ser de baixíssimo nível”.