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Guinada à esquerda, impeachment mais longe: por que a “volta” de Lula amedronta o mercado?

Mercado se preocupa com uma guinada à esquerda com o objetivo de ressuscitar o apoio da base; o grande perdedor pode ser o mercado

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SÃO PAULO – Agora que o ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, é ministro-chefe da Casa Civil, o mercado se preocupa com uma possível mudança na política econômica. Expansão do crédito, aumento do gasto público e até o uso das reservas internacionais, tão propagandeadas pelo PT como conquistas econômicas dos 14 anos do partido no poder, estão sendo aventados. O investidor deve se preocupar com este novo quadro?

Segundo o estrategista-chefe do banco Mizuho do Brasil, Luciano Rostagno, o risco é de uma guinada como última cartada para evitar o impeachment, teria dito à Bloomberg. Ele diz que isso eleva a aversão ao risco em relação aos ativos brasileiros. Para Rostagno, caso a guinada se confirme, o dólar pode voltar a R$ 4,00. 

Já de acordo com Daniel Weeks, da Garde Asset, mesmo com as probabilidades cada vez maiores com relação ao impeachment, são preocupantes as medidas que o governo possa tomar e os impactos sobre a sustentabilidade fiscal nos próximos meses. “O atual governo pode deixar o cenário pior do que se imaginava”. 

“O potencial de besteira a ser feito pode ser gigante, com o uso de reservas, baixar os juros à força em um cenário de inflação ainda resiliente. Ainda há várias cascas de banana nas quais se pode escorregar”, afirma Weeks. 

Conforme destacou a economista-chefe da ARX Investimentos, Solange Srour, à Bloomberg, a eventual saída de Alexandre Tombini representaria uma guinada na polítca econômica muito grande, pois sinalizaria que ele não concorda com as mudanças. “Tombini pode, em alguns momentos, ter errado, mas recentemente tem adotado o discurso de que não tem espaço para juros caírem” e “independente de quem entrar, se ele está saindo, não seria uma guinada pequena. Ele pode não ser o bastião da credibilidade, mas se ele está saindo, é que a virada seria forte”, afirma. 

Além disso, os temores sobre o uso das reservas internacionais, hoje em US$ 372 bilhões, seguem no radar dos investidores. Porém, de acordo com informações da Agência Estado, a proposta – que chegou a ser aventada pelo ministro da Casa Civil, Jaques Wagner -, divide alas do próprio governo. A declaração do ministro antecipa uma queda de braço entre as alas política e econômica do governo. “Abrir mão dessas reservas para quê?”, questionou uma fonte graduada da equipe econômica, que defende a necessidade de manter intocável o “seguro financeiro” do País. Segundo Solange Srour, essa incerteza também é negativa: “qualquer uso das reservas seria ruim”.

A LCA Consultores aponta que Lula poderia seguir dois caminhos: um “market friendly” (o que é menos provável) como no primeiro mandato ou abraçaria o discurso de propostas do PT, e um dos determinantes para tanto seria a possibilidade de “esfriamento” ou não das investigações da Lava Jato e da crise política. “No caso da guinada populista pode-se esperar uma nova alta expressiva do câmbio, o recrudescimento da inflação, e uma baixa probabilidade de que a atividade dê mostras de retomada consistente”, afirma.

Além disso, ainda há muitas incertezas sobre um possível cenário pós-impeachment, uma vez que a delação do senador Delcídio do Amaral (sem partido – MS) implica o vice-presidente Michel Temer (PMDB-AL) e atualmente o principal nome da oposição, senador Aécio Neves (PSDB-MG).

“Com isso, há muitas incertezas sobre a sustentação de um eventual novo governo”, afirma Daniel Weeks. “O mercado tem comportamento binário: a pressão sobre real pode ser amenizada se impeachment for destravado; por outro lado, a delação de Delcídio citando Temer e Aécio traz incerteza sobre um novo governo no caso de Dilma deixar o posto”, diz Rostagno.

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Tombini fora?
Outra questão que traz desconfiança ao mercado é a possível saída do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini

Conforme destacou a matéria do Valor Econômico de hoje que trata sobre a possível saída do presidente da autoridade monetária, “a confirmação do ex-presidente Lula no cargo de ministro forte do governo Dilma aponta para mudanças profundas na política econômica. Mudanças com repercussões na área monetária e cambial. A discussão sobre uso de reservas cambiais, liberação de compulsório e a clara intenção de reduzir a taxa de juros seriam algumas ‘guinadas’ preconizadas para esse novo momento”. E este é o grande temor.

Por mais que Lula tenha um bom relacionamento com o ex-presidente do BC, Henrique Meirelles, visto positivamente pelo mercado por conta do seu perfil mais ortodoxo, analistas acreditam que a chance de Meirelles assumir no lugar de Tombini é baixa. Para Daniel Weeks, não seria coerente a entrada de Henrique Meirelles, notoriamente “hawkish”, nesse cenário de guinada econômica à esquerda. “É difícil que ele entre no governo no meio dessa confusão toda, ainda mais se houver populismo por parte do governo”. Segundo o economista, o novo nome seria de alguém que concordasse com baixa de juros “na marra”, uso de reservas, entre outros: “dificilmente seria um bom nome”.

O mercado de juros futuros refletia perfeitamente esta tendência. Às 11h26 (horário de Brasília), o DI para janeiro de 2017 caía 10 pontos-base a 13,78%, mostrando aumento das apostas de cortes na taxa Selic este ano. Por outro lado, o DI para janeiro de 2021 registra ganhos expressivos de 17 pontos-base a 14,85%. No caso da parte mais longa da curva, a alta reflete como investidores estão cobrando mais pelo risco de calote do País, que fica maior com uma política econômica heterodoxa voltada à expansão do crédito.  

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