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Guido Mantega completa 8 anos na Fazenda com poucos motivos para comemorar

Ministro iguala marca de Pedro Malan, mas recebe alguns "presentes de grego": rebaixamento de rating e cenário mais adverso para economia brasileira

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SÃO PAULO – Quando a agência Standard & Poor’s anunciou o rebaixamento do rating do Brasil de BBB para BBB-, na última segunda-feira (24) muitas coisas devem ter passado pela cabeça do atual ministro da fazenda, Guido Mantega. O ministro, que completa nesta quinta-feira (27) oito anos à frente de um dos cargos mais importantes do Brasil, certamente não gostaria de receber mais um tão emblemático “presente de grego”.

Mantega pode ter se lembrado da sensação que teve quando, em abril de 2008 a mesma agência de classificação de risco elevou o rating do País e o conferiu o grau de investimento, conquista esta bastante comemorada pelo governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Naquele período, às vésperas de estourar a crise do subprime nos EUA, o Brasil “navegava” em melhores ventos, principalmente vindos da China, que demandava por commodities para sustentar seu crescimento desenfreado. E o período de crise mundial teve um saldo positivo para o País, que se saiu relativamente bem dela, pegando apenas um “resfriado” enquanto os desenvolvidos ainda estavam doentes. 

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Atualmente, o que vemos é um quadro bastante diferente, pintado com cores bem mais escuras. Enquanto a economia brasileira aponta para um cenário de desaceleração e sofre com grande fluxo de saída de capitais devido à política de normalização de estímulos nos EUA – tornando o dinheiro mais barato no mundo -, a China começa a mostrar uma nova cara para o seu perfil de crescimento econômico, devendo demandar assim por menos commodities brasileiras.

Porém, o que reforça o sentimento negativo com o Brasil são mais as questões internas do que as externas, em decorrência dos desajustes no campo fiscal, enquanto foram reveladas as manobras para o governo fechar as contas através da contabilidade criativa. O PIB desacelerou, os estrangeiros deixaram o Brasil um pouco de lado como o destino preferido. Para completar o quadro, os riscos de um racionamento de energia batem à porta do País, o que pode desacelerar a economia em até cerca de 1,6 ponto percentual caso realmente ocorra, segundo o Barclays. 

Perfil
Este quadro bastante complicado deve estragar a festa do ministro que, ao completar 8 anos no cargo, se iguala a marca de Pedro Malan, que esteve no mesmo cargo que Mantega durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, entre 1º de janeiro de 1995 e 1º de janeiro de 2003.  

O economista de 64 anos, nascido na cidade italiana de Gênova, é formado em economia pela USP (Universidade de São Paulo) e possui doutorado e especialização em sociologia. O pai do ministro, Giuseppe Mantega, foi soldado e oficial do Exército da Itália de Benito Mussolini e migrou para São Paulo em 1951, com todas as suas economias. Guido e a mãe só embarcaram em território brasileiro um ano depois.

Graças a uma indústria de móveis e vidro, a família Mantega prosperou, possibilitando viagens constantes à terra natal. Giuseppe queria que Guido seguisse seus passos, mas o atual ministro tinha outras intenções. Ingressou na FEA (Faculdade de Economia e Administração) em 1966 e formou-se cinco anos mais tarde, também cursando Ciências Sociais durante o período. 

Mantega participou do forte movimento estudantil em tempos de ditadura e ingressou no POC (Partido Operário Comunista), que era contrário à luta armada com o codinome Cláudio. Quando parte do partido aderiu à luta armada, Guido (ou Cláudio) deixou o POC.

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Depois, o estudante fez mestrado e doutorado. Trabalhou no Cebrap, de Fernando Henrique Cardoso e, no começo dos anos 1980, aproximou-se do grupo fundador do Partido dos Trabalhadores. Aos 33 anos, recebeu nota 10 por sua tese de doutorado “Raízes e formação da economia política brasileira (a fase estagnacionista)”.

Mantega chegou a lecionar na FGV (Fundação Getulio Vargas) e foi assessor de Paul Singer na secretaria do planejamento na gestão de Luiza Erundina como prefeita de São Paulo. Depois, se tornou assessor econômico de Lula entre 1993 e 2002 e foi um dos coordenadores do programa econômico do PT para a candidatura de Lula à presidência. 

Com a vitória de Lula, Mantega assumiu a pasta do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão e ficou por lá até novembro de 2004, sendo depois transferido para a presidência do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), após a saída de Carlos Lessa. 

Quando denúncias de corrupção enfraqueceram o então ministro da fazenda Antonio Palocci, o nome de Guido Mantega tomou corpo para substituí-lo, o que ocorreu em 27 de março de 2006. À frente do ministério, o Brasil viveu períodos bastante diversos. No seu primeiro ano, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) registrou o seu menor patamar em toda a gestão do PT à frente do governo federal (3,14% no ano), enquanto o saldo comercial teve o maior patamar da história. Os anos de 2007, 2008 e 2010 foram anos de fortes aumentos do PIB (Produto Interno Bruto), com a alta daquele último ano sendo a maior em 24 períodos, de 7,5%.

Atualmente, o cenário que se desenha é bem diferente, com inflação pressionada e balanço comercial em queda, além da forte pressão sobre o ministro em meio às denúncias de contabilidade criativa, além da desaceleração da economia brasileira. O rebaixamento da nota de crédito brasileira parece ter sido apenas a “cereja do bolo” em um cenário já complicado, em que a “The Economist” pediu, ironicamente, para que Mantega continuasse no ministério, enquanto o Financial Times afirmou que demiti-lo faria mil maravilhas para a economia brasileira.

Mantega pode sim ter o que comemorar: a contabilidade criativa parece ter se afastado das contas do governo e há expectativas de recuperação da atividade econômica. Porém, os desafios que devem trilhar Mantega até o final do mandato – provavelmente ele deverá ficar até o final do governo Dilma no seu cargo e se tornar o ministro da fazenda que mais ficou no cargo desde a instauração da República – são muitos.