Guerra cambial: Brasil não deve esperar por apoio da China, diz especialista

País pede pelo fim das barreiras cambiais chinesas, mas não pode pressionar asiáticos por dependência nas exportações

SÃO PAULO – A presidente Dilma Rousseff desembarcou nesta quarta-feira (28) em Nova Delhi, na Índia, para a reunião dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, na sigla em inglês) com a missão de ampliar a discussão sobre a guerra cambial que os países em desenvolvimento deveriam combater.

Participarão do encontro os presidentes Dmitri Medvedev (Rússia), Hu Jintao (China) e Jacob Zuma (África do Sul) e Pratibha Patil (Índia). Juntos, os cinco países reúnem um quarto do PIB (Produto Interno Bruto) mundial. Neste contexto, a presidente tentará angariar aliados no combate ao “tsunami monetário”, expressão eleita por ela para definir a expressiva entrada de moeda no mercado internacional, notadamente por parte dos EUA e da Europa, que tentam salvar suas economias da crise.

Entre os alvos de Dilma está a potência asiática China, que até o momento vem adotando uma política de controle cambial inabalável. “Eu não entendo que a China vá mudar a política cambial dela. Ela só teria a perder. Ela tem uma estratégia de médio, longo prazo que é ter determinada participação no comercio mundial”, explica o professor Silvio Paixão, da Fipecafi.

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O efeito China
Para o economista Manuel Enriquez Garcia, professor doutor do departamento de economia da FEA/USP e presidente da OEB (Ordem dos Economistas do Brasil), o grande problema está com a moeda chinesa e os efeitos colaterias da grande desvalorização do yuan frente às demais divisas (hoje, um dólar equivale a seis yuans).

“O governo da China usou a moeda, nestes últimos anos, como um elemento adicional para aumentar a competitividade da sua indústria. Segundo o critério dele, não é possível valorizar a moeda, pois teriam mais dificuldades para vender seus produtos no exterior”, explica Garcia.

O presidente da OEB diz ainda que a China vem tentando fazer um processo de valorização da sua moeda, mas a um ritmo muito lento. “Havia uma esperança de que em 2012 e 2013 os fundamentos da balança de pagamentos da China ajudassem nisso, mas não aconteceu’ diz o professor da USP que destaca os números da conta corrente da potência asiática O indicador sofreu uma forte queda no último ano, ficando em US$ 201 bilhões em 2011 frente aos US$ 305 bilhões registrados em 2010.

O desconforto brasileiro
Se o momento é de angariar soldados para a guerra cambial, porque o Brasil não convoca claramente a economia chinesa? “O Brasil tem tomado todos os cuidados com a China, pois do ponto de vista das commodities agrícolas, das exportações desses produtos, seu principal parceiro internacional é a China”, explica Garcia.

Segundo ele, é inviável para o Brasil exigir algo dos chineses com este quadro de dependência das exportações. “Fica difícil pressionar dizendo que o Brasil está sofrendo com a valorização da moeda da China, ou que ela estaria atrapalhando o desenvolvimento econômico brasileiro. O Governo está tendo cautela”, diz.

Ele acredita que a presidente quer angariar opiniões favoráveis à tese cambial do Brasil e levar o problema para ser discutido na OMC (Organização Mundial do Comércio), colocando a China como uma “vilã” protecionista. A partir deste contexto, os mercados não devem esperar grandes mudanças no comportamento chinês na valorização do yuan, mesmo com alguns sinais dados pelo país.

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Vale lembrar que, na véspera, Li Ruogu, presidente do Export-Import Bank of China, defendeu um cessar-fogo global na área cambial e a busca de cooperação após o confronto com os Estados Unidos na OMC sobre quem é o culpado pelas tensões atuais. “Temos de alcançar pelo menos um acordo temporário na comunidade internacional sobre como tratar da questão cambial”, afirmou em entrevista, segundo divulgado na imprensa internacional.

“Não devemos esperar nos próximos meses uma valorização da moeda da China, pois ela está atribuindo a queda da conta corrente ao câmbio. Esse é o ponto de vista deles. De qualquer maneira a taxa de câmbio da China, que é onde está o problema, está muito desvalorizada em relação a todas as moedas. Mesmo tendo havido uma valorização desde 2005, parece que a queda na conta corrente está levando o governo central chinês a parar as valorizações da moeda local” conclui Garcia.