Imprensa internacional

Grupos neonazistas desafiam o mito de democracia racial no Brasil, diz FT

Em reportagem desta terça-feira, o jornal britânico traz uma análise sobre o vácuo político no Brasil e os temores de que grupos ultranacionalistas e neonazistas estejam ganhando forças no País

SÃO PAULO – O mito da democracia de raças no Brasil está sendo desafiado, aponta o Financial Times. Em reportagem desta terça-feira, o jornal britânico traz uma análise sobre o vácuo político no Brasil e os temores de que grupos ultranacionalistas e neonazistas estejam ganhando forças no País. 

O jornal traz uma entrevista com o delegado da Polícia Civil Paulo César Jardim, que ordenou uma série de buscas em casas de supostos neonazistas em dezembro do ano passado, em Porto Alegre (RS). O FT aponta que o latente movimento neonazista do Brasil, “com seu submundo de violência, suásticas e propaganda de ódio”, estava tendo seus membros recrutados por extremistas de direita na Ucrânia para lutar contra rebeldes pró-Rússia na guerra civil ucraniana, que teve início depois da Rússia anexar a Crimeia em 2014. Um movimento de extrema direita ucraniano, chamado Divisão Misantrópica, estava por trás do recrutamento. Agora a política investiga se algum brasileiro chegou a se juntar ao conflito ucraniano. 

“A revelação de que movimentos ultranacionalistas brasileiros estão buscando experiência de combate no exterior é um fenômeno preocupante que chocou o país, que se considera um caldeirão de mistura racial. A ascensão de grupos neonazistas desafia a mito popular de que o racismo não existe no Brasil, pelo menos não na proporção do observado em países como os EUA”, avalia o jornal britânico.

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De acordo com a publicação, embora a extrema-direita ainda seja marginal no Congresso, “políticos ultraconservadores e seus entusiastas vêm preenchendo o vácuo deixado após o impeachment de Dilma Rousseff”.

O jornal cita o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que é chamado pela publicação de congressista de extrema-direita. O ex-capitão do exército brasileiro conquistou as manchetes no ano passado por elogiar um conhecido torturador da era da ditadura, o Coronel Brilhante Ustra, ressalta o FT. “Também no ano passado, um grupo de ultraconservadores invadiu o Congresso e hasteou bandeiras pedindo o retorno do governo militar”, destaca o FT.

“Bolsonaro nega ser neonazista, mas os críticos o acusam de compartilhar muitos pontos de vista do movimento, como o racismo e  intolerância”, continua a publicação. 

Os movimentos neonazistas, aponta o jornal, concentram-se principalmente no sul e sudeste do país, do Rio de Janeiro e São Paulo até o Rio Grande do Sul. 

Além dos imigrantes comuns, a América do Sul era conhecida por ter recebido nazistas fugindo da derrota da Alemanha de Hitler na Segunda Guerra Mundial. Contudo, diz o jornal, os movimentos neonazistas não têm relação com esses indivíduos e, em sua maioria, surgiram de sites que propagam o discurso de ódio na Internet. O Brasil, com 200 milhões de habitantes, tem 150 mil “simpatizantes” envolvidos em movimentos neonazistas, segundo um artigo da antropóloga da Unicamp, Adriana Dias. 

Um dos casos mais marcantes ocorreu em Porto Alegre, em 2005, no 60º aniversário do fim do Holocausto, quando um grupo de neonazistas armados com facas atacou judeus que comemoravam o evento. Em casos mais recentes, os skinheads tiveram como alvo gays na Avenida Paulista. Em 2011, três skinheads foram condenados por tentar matar quatro pessoas, incluindo uma pessoa negra.

Nos últimos anos, a polícia busca adotar uma abordagem mais preventiva contra esses grupos, aponta o jornal. Jardim, inclusive, tenta “convencê-los” de que é “fora de senso” adotar essa abordagem em um país em que há heróis como os jogadores de futebol como Romário, Ronaldinho e Ronaldo. Porém, raramente eles mudam suas convicções.“Esses não são criminosos comuns, eles têm uma ideologia. São pessoas que acreditam em limpeza étnica, em pureza racial”, diz o delegado.