Reajuste, petrolão...

Graça completa 3 anos no comando da Petrobras – com mais problemas do que poderia imaginar

Com cargo ameaçado e enfraquecida pelo escândalo de corrupção deflagrado pela Lava Jato, a presidente da companhia soma 3 anos no comando entre problemas para conquistar transparência no reajuste de combustíveis, dívida alta e queda do preço do petróleo

SÃO PAULO – Em meio ao esquema de corrupção que mancha a história da Petrobras (PETR3;PETR4), a presidente da companhia, Graça Foster, tem pouco para comemorar o seu aniversário de três anos no comando da empresa.

Mais ainda, ela se encontra no “olho do furacão” e seu nome é contestado, em um ambiente bem diferente do que se encontrava em 23 de janeiro de 2012, quando a sua escolha impulsionou as ações da companhia, por ser um quadro técnico e uma funcionária de carreira em meio a tantos quadros políticos que passaram por lá.

Apesar de seu nome não estar diretamente envolvido nos esquemas de corrupção que atingem o “coração” da Petrobras, depoimentos de que a presidente tinha conhecimento de irregularidades na empresa, como os feitos pela ex-funcionária Venina Velosa (ex-gerente de abastecimento), enfraqueceram o seu nome como aquela que poderia atravessar a difícil situação da empresa. 

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Entre as perspectivas e a realidade, muita coisa se passou: a primeira mulher a comandar a então maior companhia do País entrou na presidência com a missão de cortar custos e aumentar a credibilidade da empresa e representou uma grande mudança frente ao estilo do seu antecessor, José Sérgio Gabrielli.

Com estilo firme, e semelhante ao da presidente Dilma Rousseff (de quem é amiga), Graça tinha grandes desafios a enfrentar, como buscar soluções rápidas para aumentar a produção do pré-sal – um dos grandes anúncios do governo Lula e que estava apenas engatinhando – e acelerar as licitações. Mas ela mal poderia imaginar que os seus desafios seriam muito maiores. 

Um dos problemas que a executiva de 63 anos tinha que enfrentar vinha do próprio Conselho de Administração, a começar pelo seu presidente: o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Mesmo com Graça Foster na presidência e “forçando” um aumento dos preços da gasolina e a busca de uma política mais transparente para aliviar o caixa da companhia, Mantega teria impedido que isso acontecesse, para segurar a inflação. 

Para retomar um pouco este assunto, vale lembrar de outubro de 2013. Mesmo com os números do terceiro trimestre daquele ano não saindo bons, uma frase de Graça chamou a atenção: a Diretoria Executiva deliberou e apresentou ao Conselho de Administração uma metodologia de precificação a ser raticada pela Companhia, através da qual se tenha maior previsibilidade do alinhamento dos preços domésticos do diesel e da gasolina aos preços internacionais”.

Isso aumentou as perspectivas de que a companhia fosse adotar uma política mais transparente de preços e, com isso, não registrasse tantas perdas ao importar combustíveis (dada a diferença na época entre o quanto o petróleo era comprado lá fora e quanto era vendido aqui), além de indicar que a companhia receberia finalmente o tratamento de uma empresa, sem uso político para tanto. 

Contudo, não foi isso o que se viu: a definição de uma fórmula de reajuste da gasolina e do diesel para reforçar o caixa da Petrobras causou desconforto entre a companhia e o então ministro da Fazenda.

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A Petrobras, na avaliação de assessores presidenciais, teria pressionado publicamente o governo para aprovar a proposta de reajuste o quanto antes, quando ainda não havia autorização final para o modelo sugerido pela diretoria da companhia. Com isso, ficou claro que nem mesmo a boa vontade de Graça em aumentar a transparência da empresa iria resolver. Mas isso não foi o pior.

Em meio ao aumento da dívida da companhia, Graça Foster conseguiu aumentar a produção da empresa em seu “reinado”, mas nada que superasse a meta estabelecida. A Petrobras esclareceu que, em 2014, a sua produção ficaria abaixo da meta de aumento de 7,5% na comparação com 2013, mas que ela iria engrenar.

Ao mesmo tempo, sem uma política transparente de reajustes e sofrendo desde 2010 até o final de 2014 em meio à grande diferença entre os preços de combustíveis importados e os cobrados no mercado, a companhia sofria com a alta dívida, apesar dos programas de cortes de custos darem alguns resultados para reduzir custos.

Além disso, o leilão do campo de Libra, realizado em outubro de 2013 e que era visto com tanta expectativa, não foi bem visto pelo mercado, uma vez que pressionaria ainda mais a companhia, uma vez que ela participa com pelo menos 30% de cada um dos campos de exploração de petróleo. 

E veio a Lava Jato…
Se a companhia sofria com a alta dívida, tendo até que mudar alguns planos e reduzir os contratos com fornecedoras, a situação piorou quando, em março de 2014, a Operação Lava Jato foi deflagrada e o esquema de corrupção ganhou forma, com 23 empreiteiras tendo contratos barrados com a estatal com as denúncias feitas principalmente pelo ex-diretor de abastecimento Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Youssef. 

Costa afirmou em delações premiadas que os contratos da Petrobras eram encarecidos, em média, em 3% e a divisão desse excedente era de 2% para o PT nos contratos da diretoria de serviços, e 1% para o PP , nos contratos da diretoria de abastecimento. O ex-diretor da estatal afirmou que as indicações para diretores da Petrobras sempre foram políticas, mesmo antes dos governos do PT.

A situação ficou ainda mais delicada quando, em entrevistas, a ex-gerente da Petrobras Venina Velosa da Fonseca disse ter informado pessoalmente à presidente da estatal Graça Foster sobre as irregularidades em diversos contratos da companhia antes mesmo dela presidir a estatal. Venina disse ter percebido as irregularidades em 2008 e que, desde então, reportou problemas aos superiores, entre eles o gerente-executivo, diretores e a atual presidente. Mas Graça Foster não teria agido em nenhum momento. Graça se defendeu e disse que não houve nenhuma denúncia direta de Venina. Porém, ela ficou ainda mais enfraquecida para continuar no cargo. 

Em meio a esse cenário, a oposição ao governo Dilma se moveu e apresentou uma queixa-crime contra Graça por falso testemunho. O argumento do deputado Onix Lorenzoni (DEM-RS) era que Graça Foster, em depoimento na CPMI no dia 11 de junho, negou conhecimento do pagamento de propinas a funcionários da Petrobras, mas confirmou, no último dia 17 de novembro, que a estatal sabia do caso desde março. Segundo ela, após o relato sobre a propina, a SBM foi afastada das licitações da estatal. 

Assim, os problemas se somaram e tornaram a possível saída de Graça Foster, que antes seria uma má notícia para o mercado, em uma boa notícia. Rumores de que o CEO (Chief Executive Officer) da Vale (VALE3;VALE5) Murilo Ferreira foi convidado para presidir a estatal (depois negados) e, mais tarde, que o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles poderia ser o novo comandante da empresa fizeram as ações da companhia disparar. 

Com estes rumores no mercado, o ministro de Minas e Energia Eduardo Braga garantiu que ela continuará no comando da empresa. “Não há nenhuma prova que possa sequer insinuar qualquer tipo de envolvimento da doutora Graça com os mal feitos que aconteceram”, afirmou Braga em entrevista à Globo News no último dia 15. Ao ser perguntado se será sob o comando de Graça que vai ser feita a limpeza da Petrobras, Braga afirmou que crê que ela é a pessoa adequada, porque é competente e “conhece o sistema Petrobras como poucos. Com uma diretoria cada vez mais técnica e com uma gestão e uma governança cada vez mais transparentes que a Petrobras ganhará credibilidade”.

Porém, há de se reconhecer que a presidente da Petrobras está muito longe de ser uma unanimidade, até dentro do governo. E a expectativa maior do mercado é de que – sem um desdobramento fácil para a empresa com as denúncias da Lava Jato e o cenário complicado com a forte queda dos preços de petróleo – a mudança no “status quo” da companhia seja com a saída dela. 

Três anos se passaram. E, se Graça Foster poderia pensar que não seria fácil ser presidente da Petrobras, também não deve ter pensado que seria tão difícil.