Temores do governo com tarifa de Trump são inflação e disparada do dólar, diz jornal

Crise com EUA pressiona câmbio e pode afetar investimentos; exportações aos americanos representam 12% do total

Marina Verenicz

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O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está em alerta com os potenciais impactos econômicos da tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros anunciada nesta semana pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em especial, o temor é de uma nova escalada inflacionária, puxada pela valorização do dólar frente ao real.

Segundo interlocutores do Planalto, ouvidos pela Folha de S. Paulo, o cenário cambial vinha relativamente favorável até o início desta semana. Entre março e abril, por exemplo, o dólar recuou de R$ 5,68 para cerca de R$ 5,40, acompanhando uma trajetória de queda nos índices de preços.

Contudo, logo após o anúncio da sobretaxa americana, o câmbio inverteu a trajetória e saltou R$ 5,62, devolvendo os ganhos recentes. O temor de uma disputa comercial prolongada com os EUA é visto como fator de pressão contínua sobre a moeda.

Fluxo de investimentos

O maior receio do governo, dizem as fontes à Folha, é que a crise se prolongue por meses, provocando saída de capitais de curto prazo e esfriando o apetite de investidores estrangeiros de longo prazo. A percepção de risco pode levar a uma redução no Investimento Direto Estrangeiro (IDE), que ainda sustenta boa parte do balanço de pagamentos brasileiro.

Com menor entrada de dólares, o real tende a se desvalorizar ainda mais, e isso afeta diretamente os preços de alimentos, combustíveis, medicamentos e serviços, elevando a inflação.

Embora as exportações para os EUA representem cerca de 12% de tudo o que o Brasil vende ao exterior, os técnicos do governo lembram que o comércio internacional é quase totalmente dolarizado. Ou seja, a alta da moeda americana encarece todo o sistema de trocas, mesmo com outros parceiros comerciais.

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Balança comercial resiste

Apesar do impacto potencial sobre preços e investimentos, o governo avalia que a balança comercial não deve sofrer um colapso imediato, afirmou o jornal. A taxa de exportação para os EUA, embora relevante, pode ser parcialmente compensada por realocações de destino. Ainda assim, o desgaste político é inevitável, especialmente em um contexto de popularidade em queda e de inflação que já preocupa o eleitorado.

A equipe econômica trabalha agora para conter o impacto e evitar uma nova rodada de aumentos de preços nos próximos meses. A resposta brasileira à tarifa de Trump ainda está em construção, mas fontes do governo indicam, segundo a Folha, que qualquer medida será calibrada para proteger a economia doméstica e preservar o ambiente inflacionário.