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SÃO PAULO – O grande recado das urnas nestas eleições presidenciais, segundo economista Guilherme Leite da Silva Dias, Professor Titular do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo, foi o desejo da sociedade de uma mudança na concepção dos objetivos do Estado Brasileiro.
Para o professor, apesar da consolidação do processo democrático conduzido com sucesso pelo atual presidente Fernando Henrique Cardoso, a expressiva derrota da situação indicou a urgência de uma atuação do Estado na questão distributiva, uma vez que mesmo com os ganhos advindos da estabilização econômica, o Brasil segue com uma das piores distribuições de renda do mundo.
Principal meta de FHC foi a consolidação da democracia
Segundo o economista, a principal meta de FHC, após a implementação com sucesso da estabilização da economia, foi a consolidação democrática do país. Para isto, o então sociólogo de esquerda organizou uma aliança com a direita, encabeçada pelo PFL, para garantir a governabilidade do país.
No entanto, ao mesmo tempo que uma coalizão de centro direita criou um ambiente estável para o governo, ela inviabilizou avanços sociais que se estendessem além da pauta de reformas inerentes ao processo de estabilização. A própria sustentabilidade do acordo com o PFL acarretou a adoção de uma política econômica conservadora, encarnada pelo Ministro da Fazenda, Pedro Malan.
Desta forma, visando a consolidação da democracia no país, o presidente Fernando Henrique, apesar de sua formação de esquerda, optou por não romper sua aliança de apoio, conduzindo transformações lentas na concepção de Estado ao longo de seus dois mandatos.
Evolução da concepção de Estado refletiu-se na estrutura de gastos
A despeito da aliança de direita, uma das principais medidas adotadas pelo governo Fernando Henrique foi a gradativa alteração da estrutura de gastos do Estado.
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O desmonte da herança Getulista permitiu uma expressiva redução dos investimentos do governo no setor produtivo, reservado para as autoridades públicas o papel de regulador do funcionamento da economia e não de capitalista.
Além disto, ainda segundo Guilherme Dias, o fim do Estado Intervencionista, permitiu, descontado os efeitos do pagamento de juros, maiores investimentos sociais, colocando em primeiro plano uma concepção social-democrata de Estado.
Resultado das urnas demonstra urgência da questão distributiva
Para o Prof. Guilherme Dias, o principal recado das urnas, além da fraqueza apresentada pelas outras candidaturas, é a urgência de o Estado assumir uma posição ativa na questão distributiva, que deve inclusive nortear o objetivo dos próximos governos.
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Uma das principais transformações desta mudança na concepção dos objetivos do Estado é a adoção de uma agenda interna, diferente da atual, atrelada à agenda internacional, que ficou conhecida ao longo da década de 90 como Consenso de Washington.
Na visão de Guilherme Dias, a grande questão que se coloca para o futuro presidente é de caráter estrutural, embora sem deixar de levar em consideração as restrições externas da economia brasileira, bem como a importância na atualidade dos grandes fluxos de capital internacional.
Mudanças estruturais requerem novo posicionamento das elites
O grande desdobramento de mudanças estruturais na economia brasileira, cuja distribuição de renda extremamente concentrada representa um forte empecilho ao desenvolvimento econômico, é o estabelecimento de um novo posicionamento das elites com o país.
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Segundo o economista da USP, é imperativo o aparecimento de uma relação de maior solidariedade das elites, superando sua tradicional concepção egocêntrica do país. Um exemplo prático do que seria esta transformação é a reforma da previdência, que envolve o fim dos privilégios de classes mais favorecidas, como os funcionários públicos, em prol de todo a sociedade.
Incapacidade de mudança pode levar a cenário de ruptura
O pior desfecho das atuais mudanças em andamento no país, para o professor titular do departamento de economia da USP, será a incapacidade do governo Lula em começar a sinalizar uma preocupação do Estado com a questão da distribuição de renda, satisfazendo as esperança de seus eleitores.
O economista acredita ainda que uma crise econômica de graves proporções, desencadeada pela inabilidade de Lula, poderia levar ao recrudescimento de conflitos sociais, acarretando em um cenário de instabilidade similar ao da Venezuela ou mesmo Colômbia, culminando na existência de um Estado Paralelo, governado pelo crime organizado.
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Estaremos em breve publicando a íntegra da entrevista com o economista.