Bagunça parte II

Forbes revisita cenário e diz que bagunça no Brasil está ainda maior: “escorregando na casca de banana”

"Única coisa que impede o Brasil de assumir o título de país mais caótico e corrupto na América do Sul é a Venezuela, que é basicamente um estado falido", diz colunista da revista americana

SÃO PAULO – Em janeiro, quando o mercado estava bastante otimista sobre as perspectivas para o Brasil e com o cenário (relativamente) mais ameno na política, o colunista da Forbes Kenneth Rapoza afirmou: “o Brasil ainda é uma completa bagunça”. Ele disse ainda que o “país está na lama, bem no fundo do poço”.

E nessa terça-feira, em uma análise sobre a atual crise política, o colunista confirmou a sua visão e, inclusive, fez uma segunda parte do seu artigo para a publicação americana.

“Alguns nomes do mundo dos negócios me disseram que não queriam que eu tivesse escrito isso. Eles estavam tentando convencer os americanos que estava havendo uma virada (…) Eles pensavam que as coisas estavam prestes a decolar. As reformas econômicas estavam chegando. O sentimento estava melhorando. Os maus estão indo para a prisão”, ressalta o colunista.

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“É verdade. O Brasil está prestes a decolar. Assim como o Brasil é o perene ‘pais do futuro'”, destaca Rapoza, fazendo uma referência irônica à capa da The Economist de 2009 em que mostrava o Cristo Redentor decolando e otimismo com a economia nacional. 

De acordo com o colunista da Forbes, no último ano e meio, “cada vez que o Brasil se mostra preparado para a decolagem, a partida fracassa. Quando conseguiam levá-lo ao ar, ia toda a Coreia do Norte em cima deles e falava: para cima! Então … [o Brasil ia] para baixo”. 

“O Brasil está pegando fogo novamente. Agora não parece mais o país do futuro”, afirma. Rapoza faz as mesmas referências utilizadas no artigo de janeiro ao apontar que, em meados dos anos 2000, o Brasil tinha sido o país do futuro. Porém, “hoje em dia, o Brasil parece mais a república da banana do futuro. Nada é sagrado. Ninguém está a salvo da supervisão judicial na maior investigação de corrupção nas Américas. Na verdade, a única coisa que impede o Brasil de assumir o título de país mais caótico e corrupto na América do Sul é a Venezuela, que é basicamente um estado falido”, afirma a coluna. 

De acordo com Rapoza, o Brasil está “suportando” esse cenário. “[O País] Vai sair disso eventualmente. Nós continuamos ouvindo que a Lava Jato está acabando. Mas então, aparece uma nova revelação dos investigadores sobre algo diferente. O fio comum é que os políticos estão se comportando mal, com a ajuda do setor privado”.

Rapoza ainda traça um paralelo entre os EUA e o Brasil. Ele diz que, ao contrário dos EUA, onde vazamentos sobre as investigações sobre a Rússia são baseados em fontes anônimas, os vazamentos do Brasil são baseados em imagens e áudios entregues por fontes identificáveis. “Você pode ouvir essas pessoas falando com suas próprias palavras. Você pode ver sacos de dinheiro sendo entregues. Não é uma narrativa de mídia. É a verdade. Algo está podre lá embaixo”, aponta.

Neste sentido, ele reforça que o Brasil ainda é uma bagunça completa e “está em uma bagunça ainda maior agora” na comparação com o seu texto anterior, de janeiro. E aponta: passamos do escândalo de contratos superfaturados na Petrobras para o escândalo do BNDES, destacando o forte portfólio de empréstimos que a companhia fez. Esses empréstimos incluíram os pivôs da atual crise política, Joesley e Wesley Batista, donos da JBS. 

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“Vazamentos para a imprensa, conversas gravadas, vingança política: tudo isso revelado numa base semanal, se não diariamente, no Brasil. É algo imprevisível”, aponta.

O escândalo ainda está tomando sua forma na economia, diz o colunista – ele aponta que o desemprego está superior a 12% e piorará. “Se você tem mais de 50 anos e está desempregado no Brasil, boa sorte para você. As notícias sobre o Brasil na semana passada são em sua maioria ruins”.

Neste cenário de crise política, Rapoza afirma ser improvável que Temer sofra impeachment. Porém, se o PSDB deixar a base do governo, um processo do gênero pode acontecer e o presidente não teria outra opção a não ser a renúncia. “É pouco provável que o TSE se dedique a agira com pressa. As eleições estão agendadas para outubro de 2018. O julgamento do Tribunal eleitoral começa em 6 de junho”, reforça.

Eleições no radar

Rapoza também aponta quais seriam os candidatos nas próximas eleições. O implicado Lula aparece como líder nas pesquisas. Entre outros nomes, estariam no radar Marina Silva, Fernando Henrique Cardoso, Geraldo Alckmin e “talvez o recém-chegado” João Doria. “Alguns também mencionaram o congressista Jair Bolsonaro”, afirma a publicação, que o coloca como um “conservador da velha guarda”. 

Enquanto essas discussões acontecem na política, a Petrobras continua se enxugando, aponta a publicação. “Ela está vendendo ativos para se desalavancar. Os estrangeiros estão comprando, muitas vezes a preços acessíveis”, diz o colunista.

Caminhando para a conclusão, Rapoza aponta que, nos dias em que Lula era presidente e o Brasil estava na capa do The Economist, o país estava investindo no futuro. Buscava-se a criação de uma indústria de navegação completa para ajudar a Petrobras e outras companhia a tirar toda a nova riqueza de petróleo do mar. “O Rio seria a nova Noruega. Que sonho!”, ironiza a publicação. 

Porém, ele afirma que, “como o Brasil escorrega em suas próprias cascas de banana, companhias fraudulentas como a Sete Brasil (em recuperação judicial) criadas no governo Lula e outras pertencentes ao ex-bilionário Eike Batista e financiadas pelo BNDES faliram”. Rapoza ressalta que, das 40 empresas de construção de navios marítimos no Brasil que desejavam se beneficiar deste novo futuro, 12 não são mais operacionais.

E conclui: após a eclosão da mais nova crise política com a delação da JBS, mais surpresas devem estar por vir.