Desconfiança com Dilma

FHC: “depois de infâmias, fica difícil crer que o diálogo proposto não seja manipulação”

Ex-presidente da república falou em tom crítico sobre a presidente Dilma Rousseff e sua disposição para dialogar: "confiança é como um vaso de cristal, uma pequena rachadura danifica a peça inteira"

SÃO PAULO – Uma semana após as eleições, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escreveu, em artigo divulgado em diversos jornais, sobre a sua posição após a vitória de Dilma Rousseff. FHC ressaltou que deve-se respeitar o resultado das eleições mas que, “diante do apelo ao diálogo da candidata eleita, devemos [a oposição] responder com desconfiança”. 

Segundo o ex-presidente, em uma democracia não cabe às oposições senão aceitar o resultado das urnas, mas nem por isso deve-se calar sobre o como se conseguiu vencer, fazendo críticas à desconstrução de Marina Silva e Aécio Neves durante a campanha, nem sobre porque se perdeu. Ele acusou Dilma de ter protagonizado uma campanha de “má-fé”. 

“Os resultados eleitorais mostram que aprovação ao atual governo apenas roçou um pouco acima da metade dos votos. Ainda que a vitória se desse por 80% ou 90% deles, embora o respeito à decisão devesse ser idêntico ao que se tem hoje com a escassa maioria obtida pelo lulopetismo, nem por isso os críticos deveriam calar-se”, afirma o ex-presidente. 

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E ele ainda falou: “depois de uma campanha de infâmias, fica difícil crer que o diálogo proposto não seja manipulação. Só o tempo poderá restabelecer a confiança, se houver mudança real de comportamento”.

FHC também falou sobre críticas do PT a ele próprio, em tom de desabafo: “até eu, que nem candidato era, fui sistematicamente atacado pelo PT, como se tivesse ‘quebrado’ o Brasil três vezes (quando como ministro da Fazenda ajudei o país a sair da moratória), como se tivesse deixado a Presidência com a economia corroída pela inflação (como se não fôssemos eu e minha equipe os autores do Plano Real que a reduziu de 900% ao ano para um dígito), como se os 12% de inflação em 2002 fossem responsabilidade de meu governo (quando se deveram ao temor de eventuais desmandos de Lula e do PT)”. 

E, para ele, uma das principais bandeiras da oposição deve ser o protesto contra a estratégia da “deconstrução do adversário”. 

“O vale tudo na politica não é compatível com a legitimidade democrática do voto. Marina, de lutadora popular e mulher de visão e princípios, foi transformada em porta-bandeira do capital financeiro, o que não é somente falso, mas inescrupuloso. Aécio, que milita há trinta anos na política, governou Minas duas vezes com excelente aprovação popular, presidiu a Câmara e é senador, foi reduzido a playboy, farrista contumaz e ‘candidato dos ricos'”. 

E, segundo ele, diante do apelo ao diálogo da candidata eleita, deve-se responder com desconfiança: “primeiro mostre que não será leniente com a corrupção. Deixe que os mais poderosos e próximos (ministros, aliados ou grandes líderes) respondam pelas acusações. Que se os julgue, antes de condenar, mas que não se obstruam os procedimentos investigatórios e legais (Lula tentou postergar a decisão do STF sobre o mensalão o quanto pôde). Que primeiro a reeleita se comprometa com o tipo de reforma política que deseja e esclareça melhor o sentido da ‘consulta popular’ a que se refere (plebiscito ou referendo?). Que se debata, sim, na sociedade civil e no Congresso, mas que se explicite o que ela entende por reforma política. Do mesmo modo, que tome as medidas econômicas para vermos em que rumo irá o seu governo”.

Assim, ressalta, só se pode confiar em quem demonstra com fatos a sinceridade de seus propósitos e que, depois de uma campanha de infâmias, fica difícil crer que o diálogo proposto não seja manipulação. 

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“A confiança é como um vaso de cristal, uma pequena rachadura danifica a peça inteira”, conclui.