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“Fenômeno Dilma não deve se repetir”, diz Bolívar Lamounier sobre poder de Lula na eleição

Em entrevista ao podcast da Rio Bravo, o diretor-presidente da Augurium Consultoria, aponta que o ex-presidente petista permanece um player importante na disputa eleitoral, mas com menor força

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SÃO PAULO – Praticamente fora da disputa eleitoral de 2018 após a condenação em segunda instância na Operação Lava Jato, qual o poder do ex-presidente Lula para as eleições de 2018? Em entrevista ao podcast da Rio Bravo, o cientista político Bolívar Lamounier, diretor-presidente da Augurium Consultoria, aponta que o petista permanece um player importante na disputa eleitoral, ainda que sua força tenha diminuído.

Contudo, avalia, diferentemente dos outros pleitos, as esquerdas e o PT não vão ter uma candidatura forte. Com isso, afirma o analista, “o fenômeno Dilma [Rousseff] não deve se repetir”. “Quer dizer, não é qualquer pessoa que o Lula vai conseguir eleger se ele tiver que tentar transferir votos, então acho que aí há uma diferença importante. Em segundo lugar, como há vários candidatos, nós temos que admitir, pelo menos até maio ou junho, uma margem muito grande de incerteza. É como um caleidoscópio que vai ficar se mexendo, com uma dificuldade muito grande de prever as tendências”.

Em entrevista ao podcast, Bolívar Lamounier ressaltou ainda a necessidade de uma agenda política que contemple não só a economia, mas, também, a segurança pública.

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Confira a entrevista abaixo:

Rio Bravo: O Brasil não é mais governado pelo ex-presidente Lula desde 1º de janeiro de 2011. Pouco mais de cinco anos depois, em 2016, houve o impeachment da presidente Dilma Rousseff numa conjuntura que envolveu a participação maciça da sociedade civil brasileira. Além disso, a Operação Lava Jato, que ainda hoje tem grande apreço da população, avançou em investigações bastante incisivas contra o ex-presidente e seu partido, culminando com a condenação do ex-presidente Lula em primeira e segunda instâncias. Ainda assim, a imagem de Lula resiste. Na sua avaliação, Bolívar, o que explica a resiliência da imagem do ex-presidente Lula no cenário político nacional, que é tão adverso?

Bolívar Lamounier: A imagem dele permanece forte, mas com uma conotação agora negativa. Ele aparece muito mais frequentemente associado a corrupção do que a qualquer outra coisa. Permanece positiva nas camadas de baixa renda, que são gratas a ele pelos programas sociais. Isso se compreende, portanto, ele mantém uma força eleitoral, mas a imagem que nós vemos pela imprensa, pelos jornais, pela televisão é constantemente ligada ao fato de ele ter se tornado réu em diversos processos e já condenado em primeira e segunda instância no primeiro deles. E, evidentemente, há outros aí que, na minha avaliação, são ainda mais fortes e é provável que ele venha a ser condenado também na construção do sítio de Atibaia.

Rio Bravo: Mas a despeito dessa avaliação muitas vezes negativa dos meios de comunicação de massa, as pesquisas eleitorais apontam que Lula, se não for candidato, tem uma força muito grande para interferir em qual vai ser o candidato das esquerdas ou do Partido dos Trabalhadores. Essa força que é atribuída nas pesquisas, ela de fato pode ter um efeito a médio e longo prazo para o país?

Bolívar Lamounier: Pode. É claro que o Lula conquistou um eleitorado fiel, um eleitorado cativo graças, principalmente, ao programa Bolsa Família, à sua origem nordestina — é lá que a força dele está concentrada –, ao modo de falar meio popularesco. Então, tudo isso deu-lhe uma visibilidade muito grande e um eleitorado fiel. Eu acho que 30%, inicialmente, é uma boa estimativa, mais ou menos o voto do PT historicamente. Agora, se de fato ele for ou fosse candidato, eu acho que isso cairia talvez em 20% ou 25%, o suficiente para ir ao segundo turno, mas não com essa força toda.

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Rio Bravo: É exatamente isso que eu ia perguntar. Num cenário tão fragmentado, ter 20% não é muita coisa?

Bolívar Lamounier: É muita coisa. Certamente que, com toda essa fragmentação que nós estamos vendo e mais o fenômeno Bolsonaro — que deve cair bastante, mas eu suponho que chegue lá na frente com pelo menos com uns 15% –, então, neste cenário nós podemos conjecturar que o Lula iria ao segundo turno. Comprovadamente, ele tem uma grande capacidade de transferir votos. O caso da Dilma, por exemplo, é antológico. Por si só, ela não teria nem meio voto, talvez só o dela, entretanto, ele a elegeu, praticamente sozinho.

Agora, a eleição de 2018 é muito diferente. Primeiro, as esquerdas e o PT não vão ter uma candidatura forte. O fenômeno Dilma [Rousseff] não deve se repetir. Quer dizer, não é qualquer pessoa que o Lula vai conseguir eleger se ele tiver que tentar transferir votos, então acho que aí há uma diferença importante. Em segundo lugar, como há vários candidatos, nós temos que admitir, pelo menos até maio ou junho, uma margem muito grande de incerteza. É como um caleidoscópio que vai ficar se mexendo, com uma dificuldade muito grande de prever as tendências.

Rio Bravo: Nas últimas eleições, a disputa mais comum na corrida presidencial aconteceu entre PT e PSDB. Você já escreveu a respeito do PSDB e já comentou a atuação do partido em outras entrevistas. Agora, não seria natural que os tucanos fossem favoritos para as próximas eleições presidenciais? Afinal, controla o principal colégio eleitoral do país, tem base no Congresso e ganhou musculatura nas últimas eleições municipais, agora em 2016. Por que isso não aconteceu?

Bolívar Lamounier: A tática seguida pelo Lula e pelos marqueteiros para blindá-lo foi igualar todo mundo por baixo, então eles conseguiram jogar sobre o PSDB — de maneira, a meu ver, completamente falsa — a pecha de que o PSDB também seria um partido corrupto ou tão corrupto quanto qualquer outro. Isto grudou, isto pegou, então a legenda enfrenta também uma dificuldade de hostilidade da opinião pública que acabou se alastrando por todo o sistema político. As delações, as empresas fazendo as delações, a defesa do Lula usando esse instrumento de “somos todos iguais”, isso tudo acabou atingindo o PSDB também.

Agora, eu, apesar de tudo, acho que o PSDB conserva uma força considerável. Eu imagino que ele terá um protagonismo no segundo turno. A diferença mais importante é que desta vez o PSDB vai ter que combater em duas frentes. Quer dizer, vai ter que combater o Lula ou quem o substituir e vai ter que combater o Bolsonaro, que certamente terá uma certa força. O Bolsonaro é um fenômeno novo, um populista. É o que tradicionalmente a gente chama de direita autoritária. Então, digamos, o PSDB vai ter que combater nessas duas frentes, porque elas são igualmente inaceitáveis do ponto de vista dos tucanos. Aí é que nós vamos ter que esperar para ver qual vai ser a estratégia do PSDB. O governador Geraldo Alckmin é um homem que se move devagar, que é de propósito. Ele não vai correndo para fazer caravanas e falar para a imprensa, ele vai deixando o tempo trabalhar a favor dele, que tem muito prestígio em São Paulo. Então, eu imagino que daqui até abril ou maio ele deverá ter chegado também a uns 15%, por aí, então estará a alguns passos de passar ao segundo turno.

Rio Bravo: Numa conjuntura política tão complexa quanto esta de 2018, o que significa a busca por um candidato à Presidência da República que seja um outsider? Isso está mais próximo de ser a falência dos políticos e da política tradicional ou é o movimento natural de quem espera por mudanças imediatamente?

Bolívar Lamounier: Eu acho que as duas coisas acontecem. É frequente no Brasil isto. Você veja, houve um ano em que o Collor apareceu. Era um ilustre desconhecido, com uma bandeira simplista, até um pouco ridícula, de caça aos marajás. Ele ganhou a dianteira por volta de março e abril, manteve a dianteira até o fim e acabou sobrepujando o Lula e o Brizola, chegou na frente dos dois. Não é pouca coisa. Isso é frequente. A Dilma era uma ilustre desconhecida. Então, sempre há essas duas coisas ao mesmo tempo. Uma parte do eleitorado está procurando coisa nova e uma outra parte está com antipatia ou agastada com os políticos tradicionais, este ano muito mais por causa da acusação de corrupção que pesou sobre praticamente todo o Congresso, mas eu acho que as duas forças trabalham ao mesmo tempo.

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Rio Bravo: Mas tanto no caso do Fernando Collor, em 1989, quanto da Dilma Rousseff, em 2010, eles são atores que já faziam parte do sistema político. Em 2018, fala-se em nomes que estão fora desse sistema e que pretendem ingressar nesse ambiente.

Bolívar Lamounier: Sim, exato. 

Rio Bravo: A gente não está vivendo um momento muito mais complexo nesse sentido?

Bolívar Lamounier: Mais complexo. Há de fato uma busca de renovação. Tem gente querendo entrar com alguma ideia de renovação da política. É como eu disse, há os dois movimentos. Há o movimento de busca e renovação e há um movimento de rejeição dos políticos tradicionais.

Rio Bravo: Ainda falando desse tema, uma vez eleito, esse político outsider tem a chance de governar sem lançar mão do chamado presidencialismo de coalizão? Vou além: depois da Lava Jato, as condições para a governança do país foram atualizadas a ponto desse procedimento, presidencialismo de coalização, não ser mais viável?

Bolívar Lamounier: Não, isso é inevitável. O que nós chamamos de presidencialismo de coalizão é apenas uma forma confusa de dizer que nenhum partido tem maioria. Se nenhum partido tem maioria… Muito longe disso, o maior partido, em geral, tem 20% das cadeiras. Então, se o maior partido tem 20% das cadeiras, ele tem que se aliar a outros três, quatro ou cinco partidos e é por isso que a gente fala em coalizão, mas onde não há um partido majoritário necessariamente há uma coalizão.

Do contrário, o Executivo estaria em minoria, o que é inviável. Ou seja, isto vai continuar a existir. Existindo isso, haverá uma pressão muito grande, o “dá lá, toma cá”, o clientelismo e até mesmo a corrupção, O presidente, para evitar isto, acho que só tem um caminho, que é ter uma agenda, um programa de governo, uma equipe de governo de alto calibre, de alta categoria. E é por isso, nos últimos anos, que o presidencialismo de coalizão se transformou num verdadeiro desastre, porque Dilma Rousseff tinha a coalizão, mas não tinha programa, não tinha competência, não tinha estatura para ocupar a Presidência da República.

O Temer, evidentemente, tem muito mais que ela, mas ele pegou uma batata quente, pegou um abacaxi tremendo, um déficit orçamentário pavoroso, um país em recessão, então ele teve que se concentrar em trabalhar no miudinho ali no Congresso, no varejo, e não teve tempo, não teve nem condições de lançar uma agenda nova para o país. A diferença, portanto, que vejo, o nó da questão, é: entre os candidatos que estão postos, qual, indo ao segundo turno, terá condições de montar uma agenda e uma equipe ministerial que lhe dê credibilidade?

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Rio Bravo: Na sua avaliação, também nesse cenário pós-Lava Jato, qual será o tema mais relevante da agenda eleitoral? Corrupção ou recuperação da economia?

Bolívar Lamounier: Sem dúvida, a recuperação, porque a corrupção já está, vamos dizer, de alguma forma equacionada. Os inquéritos estão em andamento, já existem os procedimentos, já existem precedentes. Agora, a recuperação da economia ainda é muito lenta. É um pouco ousado falar que a economia está se recuperando com 1% de crescimento, uma coisa assim. Muito longe disso. Ainda que fossem 2,5% ou 3% de crescimento, isto para o Brasil é muito pouco, então nós temos aí um trabalho muito grande a ser feito e, portanto, a parte econômica é decisiva. A outra, evidentemente, é a segurança. Nós estamos vendo o Rio de Janeiro numa situação apavorante. É claro que o Brasil inteiro está de olho no Rio de Janeiro. Há violência por toda a parte, mas no Rio ela se tornou de tal maneira explosiva e visível para o Brasil inteiro que o candidato terá que tratar desse assunto com mais seriedade.

E mesmo na área econômica, acho que os governos Dilma e Lula sentaram no sofá, se acomodaram e não fizeram nada relevante. Na área da infraestrutura, por exemplo, não se fez nada. Na área de criar condições para a pequena e média empresa, não se fez nada. Quer dizer, uma agenda econômica de profundidade envolve muitos outros fatores. Então, há vários pontos importantíssimos na agenda e o candidato que quiser ir ao segundo turno com uma aura de vencedor, de quem pode realmente governar, terá que colocar claramente essas questões e reunir em torno de si pessoas de calibre,  pessoas de prestígio, que inspirem na sociedade a confiança de que eles têm capacidade de resolver esses problemas.

Rio Bravo: O quanto a discussão a respeito da segurança pública toca no dia a dia do cidadão comum hoje no Brasil, pensando além dos grandes centros?

Bolívar Lamounier: Além do desemprego, é o que mais toca. O desemprego toca, evidentemente, porque se você está desempregado, você não tem renda. Às vezes numa família inteira não tem ninguém trabalhando. Então, o desemprego é o que toca mais de perto. Agora, depois dele é a segurança. Nós estamos num país em que mal se pode ir na rua. É uma situação catastrófica, portanto, nós vamos ter que olhar toda essa pauta, vamos ter que equacioná-la e eu diria agora, no primeiro semestre. Não podemos deixar para o ano que vem.

Rio Bravo: Uma última pergunta, Bolívar. Nas últimas eleições também tem crescido bastante o número de pessoas que não vão às urnas. Ou seja, os brasileiros têm desistido de votar embora o voto seja obrigatório no país. Isso tende a aumentar agora em 2018? Ou você acredita que a população vai participar bastante do processo eleitoral, tendo em vista os últimos acontecimentos?

Bolívar Lamounier: Acho que deve aumentar um pouco, porque no momento há uma antipolítica, uma hostilidade à política, mas na reta final o cidadão acaba se interessando e a quebra, a perda de votos não é tão grande quanto as pessoas dizem. O voto é obrigatório em teoria, mas na prática quase não é. Não acontece nada sério com você se você não votar. Antigamente, você não podia tirar o passaporte, não podia tirar documento. Hoje, não tem nada disso, você paga uma multa simbólica, então o voto é quase totalmente livre já. Deve aumentar um pouco o não-voto, o não-comparecimento, mas não espero nada impressionante.