Expert Session

“É fácil descobrir o que os governos precisam fazer, o difícil é conseguir realizar”, diz Tony Blair

Ex-primeiro-ministro do Reino Unido falou na Expert sobre sua visão para o mundo pós-Covid e as dificuldades de governos tomarem as melhores decisões

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SÃO PAULO – Primeiro-ministro do Reino Unido entre 1997 e 2007, Tony Blair hoje usa o que aprendeu nesses dez anos no comando do país para ajudar a aconselhar outras nações em seus desenvolvimentos aliando crescimento e utilização melhor de recursos.

Durante o painel “O mundo e seu futuro”, que encerrou o primeiro dia da Expert XP 2020, o britânico falou sobre este trabalho e sua visão para o mundo em que vivemos hoje e, segundo ele, um dos grandes desafios para o sucesso de um país é a qualidade de seu governo.

“Hoje você pode ter dois países lado a lado, com as mesmas populações, os mesmos recursos, o mesmo potencial. Um tem sucesso e o outro falha. A diferença está na qualidade do governo”, disse Blair no painel comandado por Fernando Ferreira, estrategista-chefe da XP Investimentos.

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Sobre os países emergentes e suas dificuldades, ele ressalta a dificuldade de se conseguir fazer o que é preciso, já que isso envolve uma estratégia que entenda também a dinâmica política.

“É fácil descobrir o que os governos precisam fazer, o difícil é conseguir realizar. Porque existem muitos interesses por trás de como será feito”, afirma.

Assista a um trecho da entrevista em inglês:

Blair citou ainda uma série de coisas que precisam ser feitas em nações em desenvolvimento, como eliminar a corrupção, ter regras previsíveis para investidores, ter um ambiente em que os negócios podem crescer, educar a população de forma correta, ter um setor público eficiente e não super inflado e garantir que as oportunidades sejam igualmente distribuídas.

Segundo ele, tratar com os governos e falar o que eles precisam fazer não é algo difícil, mas o problema está em encontrar a melhor estratégica política para realizar tudo isso.

“Nós tentamos dar aos governo políticos uma estratégia política. Não somos partidários, a maior parte do nosso trabalho tem a ver com eficiência”, destaca.

“As maiores dificuldades hoje não são ideológicas. Existe muita ideologia na política, e isso costuma ser uma distração, mas o problema real, que precisa de uma solução prática, é que você necessita de uma estratégia política para atingir estas conquistas”, diz Blair.

Durante a conversa, ele ainda destacou o papel do desenvolvimento da ciência e tecnologia como fundamentais para um mundo melhor, e que isso dependerá muito de quão igualitária forem as oportunidades.

Sobre os impactos da pandemia, Blair acredita que tudo que já existia no mundo antes desta situação irá se manter, mas será maior e mais acelerado. Um exemplo disso são as desigualdades e problemas econômicos.

Segundo ele, muitos países agora enfrentam dificuldades por conta do lockdown e isso é uma mostra de problemas que precisarão ser trabalhados no futuro.

“Será um tempo com grande incerteza, teremos que garantir qualquer coisa que mude o jogo na Covid, seja uma vacina ou um remédio, seja bem distribuído e que não fique apenas com os países desenvolvidos”, afirma.

Blair diz que é preciso “trabalhar em como iremos crescer de forma sustentável”, lidando com questões ambientais, revendo o modo de consumo, entre muitas outras mudanças.

Citando a África, onde seu Instituto atua de forma mais forte, ele explica que em 30 anos a expectativa é que a população dobre e que isso trará desenvolvimento, construção de usinas de energia, rodovias, fábricas.

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“O desafio é como uma região como essa, que precisa se desenvolver, irá fazer isso de forma sustentável”, afirma ele ressaltando o investimento em ciência e tecnologia, buscando baratear o que hoje é muito caro.

“Mesmo os países desenvolvidos, se continuarem a crescer e não controlarem suas emissões de CO², isso irá afetar toda a humanidade”, explica.

E isso traz de volta para os impactos da pandemia, que, segundo ele, tem maior impacto sobre os mais pobres. “Um dos meus pontos com a tecnologia é que ela traz uma grande oportunidade […] E é preciso ter uma política que novamente foque nas questões práticas”, diz Blair voltando a apontar as dificuldades políticas de adotar as melhores decisões para cada país.

China e Brexit

Blair ainda falou sobre como enxerga a relação que o mundo tem com a China, especialmente por conta do forte crescimento do país asiático e a potencia cada vez maior que ele se torna.

Segundo ele, o termo “guerra fria” para falar dos problemas entre China e Estados Unidos não é algo que funcione, já que é uma situação e escala bem diferente do que aconteceu com a queda da União Soviética.

“A China é um país, uma nação antiga, e que será uma potencia mundial, não importa o que aconteça […] O seu crescimento como potencia é inevitável e justificável”, afirma ele alertando que, diferente do que muita gente projetou nos últimos anos, o governo chinês tem adotado posições cada vez mais rígidas

Para Blair, as grandes potencias globais serão confrontadas sobre a China e como ter relações com o país, que hoje é a segunda maior economia do mundo. “Temos que ter uma posição mais estratégica, uma visão mais estratégica, não só de reação [ao que a China faz]”, explica.

“Temos que aceitar que este será um regime rígido, que será difícil de lidar”, diz Blair apontando que não importa quem vencer as eleições nos EUA, terá que pensar nisso. “Será um período bastante turbulento”.

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Por fim, Blair também comentou sobre o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia), ressaltando que ainda existe um risco da separação acontecer sem um acordo. Apesar do Brexit já ter ocorrido, ainda existe uma fase de transição para que os dois blocos acertem os melhores termos para a convivência e negócios daqui para frente.

O ex-premiê foi duramente contra a separação, mas diz que agora, para o longo prazo, é preciso tirar o melhor de tudo isso. Segundo ele, duas coisas precisam ser feitas agora: estimular a economia britânica de diferentes formas e também trabalhar a relação que será com a União Europeia.

“Podemos mudar nossa relação legal e jurídica [com a Europa], mas não a geografia”, conclui ele sobre a necessidade de se manter bons negócios com os países do bloco europeu.

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