Ajuste em risco?

Eurasia vê chance de 40% do ajuste fiscal dar errado – e boa parte do risco se deve ao PT

Para a consultoria de risco político, o risco para o ajuste fiscal de Dilma reside no PT e não em qualquer outro partido; segundo analistas, a influência de Levy na administração permanece intacta, apesar dos rumores de sua possível saída

SÃO PAULO – Em relatório, a consultoria de risco político Eurasia Group realizou uma análise sobre a continuidade do ministro da Fazenda Joaquim Levy e sobre o processo de ajuste fiscal.

De acordo com os analistas João Augusto de Castro Neves, Christopher Garman e Cameron Combs, que assinam o relatório, a influência de Levy na administração permanece intacta, apesar dos rumores de sua possível saída. Para eles, é improvável que Levy deixe o governo e ele continuará com a sua influência política.

Por outro lado, as tensões entre o governo Dilma Rousseff e o PT em relação ao ajuste fiscal continuarão elevadas, com o partido tentando recuperar o terreno perdido para as eleições locais do ano que vem. Assim, a chance do ajuste dar errado é de cerca de 40%, avaliam os analistas, também atribuindo a probabilidade de que ele não dê certo em meio às investigações de corrupção.

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O cenário principal, contudo, é de que o governo irá entregar um ajuste fiscal significativo este ano, em parte, movendo as medidas de austeridade para o Congresso nas próximas semanas.

Semana crucial
Esta semana é crucial para o ajuste fiscal da presidente, afirma a Eurasia, ressaltando não somente a votação das três medidas provisórias que fazem parte do pacote de austeridade, mas a especulação sobre a posição do ministro da Fazenda. Os analistas lembram o descontentamento de Levy e a sinalização que ele deu ao não comparecer ao evento do contingenciamento.

Ao mesmo tempo, há rumores (conforme aponta matéria do jornal Valor Econômico) de que Lula estaria se movimentando para que Levy se demitisse e colocasse Nelson Barbosa, atual ministro do Planejamento e com laços mais estreitos com o PT, em seu lugar.

“Embora improvável para descarrilar o ajuste fiscal, o ambiente atual valida a nossa avaliação de longa data que o risco real para os planos de austeridade de Dilma existe dentro do PT, não dentro do PMDB ou da coalizão mais ampla do partido”, avaliam os analistas.

O PT, ressaltam, responde à crise se movendo para a esquerda, o que é algo semelhante ao que aconteceu durante os primeiros dois anos do presidente Lula no cargo, entre 2003 e 2004, quando alas dentro do partido criticaram as políticas econômicas mais duras do governo.

Agora, contudo, “não há total desacordo entre a administração e o partido sobre ajuste fiscal, apenas diferentes pontos de vista sobre como implementá-lo. O panorama desolador do PT para as eleições municipais de 2016, por exemplo, está impulsionando alguns líderes do partido para apoiar uma estratégia que se baseia mais em impostos, em vez de cortes nas despesas”, afirmam, o que explica parcialmente o aumento maior que o esperado imposto sobre os lucros dos bancos (CSLL).

“A pressão adicional para medidas semelhantes empresas voltadas para pessoas com rendimentos elevados continuarão potencialmente em forma de impostos sobre heranças, grandes fortunas, e dos juros sobre o capital próprio (JCP)”.

Eles não esperam que a pressão dentro do PT mine os esforços para o ajuste. No entanto, o maior risco de quebrar esse equilíbrio decorreria do escândalo de corrupção na Petrobras investigado pela Operação Lava Jato. “Se as investigações continuam a chegar mais perto do PT, será mais difícil será para Rousseff para manter o partido em meio à sua coalizão já frágil”.

Já no Congresso, a avaliação é de que o governo consiga passar as MPs 664, 665 e 668 (a última menos controversa, sobre aumento dos impostos sobre as importações), mesmo que seja por uma margem de votação “bastante apertada”.