Análise

Esqueça a nova denúncia de Janot: veja o que mais pode preocupar Michel Temer

Se o procurador-geral não preocupa o presidente, o que pode oferecer risco ao peemedebista neste momento?

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SÃO PAULO – Conforme esperado, o procurador-geral Rodrigo Janot apresentou uma nova denúncia contra o presidente Michel Temer, pelos crimes de organização criminosa e obstrução à Justiça, com base em delações como as dos executivos do grupo J&F e do corretor de valores Lúcio Funaro. O que poderia ser motivo de preocupação para o peemedebista, contudo, é mais visto como mera “marolinha”.

Desde que anunciou a revisão do acordo de delação premiada firmado com os irmãos Joesley e Wesley Batista e lançou suspeitas sobre a participação do ex-procurador Marcelo Miller no processo de negociação, Janot perdeu forças. Por mais que a peça possa ter peso jurídico, politicamente ela já nasce comprometida.

A decisão unânime do pleno do Supremo Tribunal Federal por rejeitar o pedido da defesa do presidente para considerar o procurador-geral suspeito para investigá-lo e processá-lo, por outro lado, evitou prejuízos ainda maiores. Além disso, a medida evitou turbulências ainda maiores sobre outros acordos de delação firmados e processos em curso.

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De qualquer forma, o estrago político ao PGR já está feito. Bom para Michel Temer — e para o mundo político, se é que se pode fazer tal generalização. Sentindo o cheiro de perda de poder de Janot, deputados e senadores avançaram casas no tabuleiro político. A criação da CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) da JBS é o exemplo mais claro nesse sentido, juntamente com a ofensiva capitaneada por Renan Calheiros (PMDB-AL) contra os supersalários.

Com isso, as expectativas são de que os deputados pouco se preocupem com o mérito da questão, independentemente da consistência que a denúncia possa ter. É um julgamento político, que muito provavelmente Temer já venceu. Novos acordos e concessões pontuais serão necessários? Sim. Mas nada fora do habitual em Brasília.

Se Janot não preocupa Temer, o que pode oferecer risco ao peemedebista neste momento?

Há pouco menos de uma semana, a Polícia Federal prendia novamente o ex-ministro Geddel Vieira Lima, após a descoberta de um apartamento usado como bunker, com R$ 51 milhões em dinheiro vivo, mantido entre malas e caixas de papelão. Se Eduardo Cunha preso já poderia proporcionar crises ao governo, as expectativas são de que o poder de fogo de Geddel possa ser ainda maior, sobretudo levando-se em consideração que se trata de um político ainda mais próximo ao presidente e emocionalmente instável.

“Geddel é uma pessoa muito próxima ao presidente. É uma pessoa que está com ele há muitos anos, caminha com ele há bastante tempo, foi escolhido por ele para ser o ministro da articulação político. Quando houve a prisão de Eduardo Cunha e imbróglio, lembro-me que se dizia que Temer tinha medo da delação do deputado. O discurso do Planalto sempre foi: ‘não, o presidente não é tão próximo a Eduardo assim. O grupo do presidente é Geddel, Moreira, Padilha’“, explicou o analista político Paulo Gama, da XP Investimentos, no último programa Conexão Brasília, transmitido pela InfoMoneyTV na sexta-feira (8).

“É uma pessoa emocionalmente instável, como vimos nos depoimentos da última vez em que foi preso. É uma pessoa que leva medo, sim, ao Planalto. Uma delação não é uma coisa que sai em dez ou quinze dias, mas acho que, em um horizonte mais longo, se ele permanecer preso… Há medo no Planalto de que Geddel preso por muito tempo não consiga se segurar. Eles não têm, desta vez, a desculpa de dizer que é uma pessoa de fora do círculo do presidente”, complementou o especialista.

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“Geddel mostra toda sua instabilidade emocional no último depoimento que prestou. Uma coisa é quando você prende José Dirceu, que você sabe que o sujeito não vai falar de coisa alguma. Outra coisa é quando pega o [Antonio] Palocci”, observou o internacionalista Pedro Costa Júnior, professor das Faculdades Rio Branco.

A despeito do novo fantasma que já vem enfraquecido na figura de Rodrigo Janot, em seus últimos dias à frente da Procuradoria-Geral da República, outros fatores podem provocar instabilidade ao governo Temer e atrapalhar a agenda de reformas que ele tenta reconduzir após os estragos do Friboigate.