Entre elogios e críticas, consenso é que Brasil só irá decolar com reformas

Em evento em SP, especialistas apontam necessidade de reforma fiscal e educação para que essa não seja melhor fase do País

SÃO PAULO – O presente do Brasil é uma fase melhor que o seu futuro? Foi essa a pergunta que especialistas tentaram responder nesta terça-feira (9) no Brazil Summit, realizado em São Paulo.

Houve certa divergência entre os participantes sobre a sustentabilidade do forte crescimento do Brasil. Justine Thody, diretora das Américas da Economist Intelligence Unit, é uma das que acredita que talvez a euforia com o País – ainda que em parte justificada – esteja ofuscando os desafios à frente.

Justine explicou que o Brasil é o país de maior qualidade entre os BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China), apoiado na diversificação das economia e das exportações e também na estabilidade política. Também pelo lado positivo, Maurício Cárdenas, da Brookings Institution, destacou que o País teve, nos últimos anos, o governo (especialmente através do BNDES) e a China como motores, além da expansão da classe média. 

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Já Otávio Azevedo, CEO (Chief Executive Officer) da Andrade Gutierrez, lembrou que o País tem não só uma estabilidade econômica mas também política. “Acho que temos um bom histórico para dar início à longa caminhada que ainda temos pela frente”, afirmou. 

Corrida contra o tempo
Isso, entretanto, não é tudo. “O Brasil ainda é um país mais pobre em termos per capita”, apontou Justine, lembrando que a trajetória de alta do PIB (Produto Interno Bruto) do País não se compara em velocidade a outros países. Essa comparação ganhou destaque na fala da diretora da EIU. “O Brasil não pode mais se comparar à América Latina. Ele é um dos grandes agora, então tem que se comparar com os grandes”, diz, frisando que o Brasil não está se aproveitando do otimismo mundial direcionado ao País. 

Justine também destacou como ponto negativo para o “case” do País a falta de senso de urgência. “O Brasil está em um bom momento, a população é jovem e está consumindo e entrando no mercado de trabalho. O potencial é vasto, mas há um tempo determinado para liberar esse potencial – 10 ou 12 anos. Onde estão as reformas estruturais para isso?”, questionou.

Cárdenas também se focou nos gastos do governo, citando as principais manchetes dos jornais dessa terça-feira: quem custeará o estádio da Copa em São Paulo, o trem-bala e a elevação do salário mínimo? “Isso são gastos do governo”, explica. “Há uma tentação muito grande para que isso não mude, e aí não há sustentabilidade”, diz. 

“O principal desafio é deixar o front fiscal em ordem”, resumiu Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú. As questões fiscais foram o principal foco dos especialistas no evento. O problema principal é que o governo pensa que o crescimento do País depende de gastos fiscais – o que tornará o cenário futuro mais difícil.

Affonso Celso Pastore, da Pastore e Associados, explica que o déficit em conta corrente do País, que deve terminar o ano em cerca de US$ 50 bilhões, deve pular para US$ 75 bilhões nos próximos anos, impulsionado pela liquidez global. “O Brasil está crescendo com um baixo nível de poupança doméstica, o que leva a um déficit de conta corrente”.

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Mas os déficits de conta corrente são sustentáveis depois que a liquidez diminuir? “Talvez”, explica Pastore. Para ele, tudo depende de como o País absorverá esse capital. “Se for para investimentos e não tanto para bonds e dívida, talvez. Mas se tentarmos fazer demais agora, podemos criar um buraco do qual vamos nos arrepender no futuro”, completa.

Por isso, o necessário seria o corte de gastos públicos para reduzir o déficit fiscal – algo que, na visão dos especialistas, é possível, mas não muito provável. “Existe uma dinâmica muito clara de ciclo político – houve um afrouxamento fiscal típico de fim de governo. Meio que há um caminho natural para a política fiscal ser um pouco mais restritiva do que o normal”, avaliou Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central e sócio da Rio Bravo Investimentos.

Educação também em pauta
Além dos investimentos em infraestrutura e reformas, os especialistas deram destaque a necessidade de se investir em educação. “É um desafio integrar a esfera municipal, a estadual e a federal, que trabalham cada uma com uma parte da educação”, explicou  Luiz Fernando Furlan, ex-ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

Furlan também afirmou que esse é um desafio que envolve não só o governo, mas também precisa da contribuição do setor privado.