Entre crise de credibilidade e pressão política, Fed deve ampliar QE2, aposta BofA ML

Economistas reforçam importância da independência do BC dos EUA, e dizem que ataques à instituição atrapalham decisões de política

SÃO PAULO – Não é só por aqui que a independência do Banco Central está em discussão. Para o Bank of America Merrill Lynch, as últimas decisões do Fed já estão sendo afetadas por discussões políticas, colocando a independência da autoridade monetária dos EUA em risco.

A equipe liderada pelo economista Ethan Harris afirma que os ataques ao Fed já estão minando a eficácia do QE2 e, mais ainda, complicando o processo de decisão dentro do banco central. “As ameaças ao Fed hoje são as maiores desde o início dos anos 1980”, diz o banco.

Democratas x republicanos
A briga entre os democratas e os republicanos já atingiu, segundo o banco, um impasse perigoso em relação à política fiscal. “Atrasar as extensões dos cortes de impostos da era Bush não ajuda a reduzir o déficit orçamentário, mas é um bom jeito de minar a confiança na economia”, dizem os economistas.

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Esse debate agora se foca no QE2. Enquanto os democratas, liderados pelo presidente Barack Obama, apoiam a nova rodada de flexibilização quantitativa do Fed, os republicanos atacam a medida – os quatro principais republicanos do Congresso escreveram recentemente uma carta aberta a Bernanke, afirmando que apesar de a intenção não ser colocar pressão política sobre o Fed, gostariam que o BC fosse aberto a receber opiniões e informações de uma ampla gama de fontes.

Independência para que?
Segundo a equipe do BofA Merrill Lynch, a importância da independência do Fed é inquestionável, e praticamente consenso entre economistas. Eles listam duas vantagens da separação entre BC e política: a primeira é a necessidade de se ter um credor de emergência que responda rapidamente a problemas.

“Exigir que as decisões do Fed sejam revisadas pelo Congresso seria algo como exigir que um serviço de emergência tivesse que ter aprovação do conselho da prefeitura para decidir se é mesmo necessário mandar uma ambulância”, escreve o banco.

Um exemplo mais real da importância desse “serviço de emergência” do Fed é a crise do subprime. A equipe de Harris explica que enquanto o Fed tomava medidas agressivas para conter o problema, o Congresso só agiu depois da quebra do Lehman Brothers, e esperou um “derretimento completo” dos mercados de capitais para aprovar o TARP. “Se o TARP fosse implementado antes, o fundo poderia ter sido menor e a recessão muito mais amena”, argumentam.

A independência do BC, segundo eles, também é vital para que se atinja baixa inflação e estabilização do ciclo produtivo, já que, sem influência política, a autoridade monetária não será tentada a agir em períodos pré-eleições, por exemplo.

Os quatro pontos
O próprio Ben Bernanke, presidente do Fed, já escreveu sobre a necessidade de se ter um BC independente, aponta o BofA Merrill Lynch. Bernanke ressaltou quatro principais pontos para sustentar sua tese de independência: os longos mandatos dos membros do Fed, o fato de que a autoridade se reporta periodicamente para o Congresso, mas suas ações individuais não recebem a mesma atenção.

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Além disso, Bernanke também destacou que o BC banca seu orçamento via juros sobre seus ativos e o fato de que o Fed não é obrigado a financiar o déficit orçamentário.

“Esses quatro pontos estão, hoje, em risco”, diz o banco, que ressalta que o QE2 já sofre com os impactos da política. Segundo a equipe de Harris, as medidas do Fed só serão eficazes se ajudarem a melhorar a confiança nas perspectivas de crescimento e assim trazer uma evolução nas condições financeiras.

“Os ataques ao Fed já minaram parte do rali das ações e bonds, e levantaram dúvidas sobre a competência e eficácia da instituição”, diz o BofA Merrill Lynch. “Ainda esperamos que o QE2 tenha um efeito positivo no crescimento nos próximos dois anos, mas agora esse impacto deve ser mais próximo do piso da faixa entre 0 e 0,5 pontos percentuais do PIB (Produto Interno Bruto)”.

As discordância entre os membros do Fomc (Federal Open Market Committee) também é destacada pelos economistas, com foco em Thomas Hoenig, que tem votado contra as decisões do BC em todas as últimas reuniões.

Campo minado
Toda essa situação complica a próxima decisão do Fed, segundo o BofA Merrill Lynch. A ata do Fomc, explica o banco, mostrou que o Fed decidiu lançar o QE2 mesmo esperando um crescimento relativamente sólido da economia em 2011.

“Acreditamos que o crescimento será bem abaixo das projeções do Fed na primeira metade do próximo ano, trazendo um dilema”, diz a equipe de Harris. “Achamos que eles devem completar os US$ 600 bilhões em compras de títulos, já que voltar atrás nessa decisão afetaria ainda mais a sua credibilidade”.

A decisão de estender o programa, por outro lado, é vista como mais problemática. Apesar disso, o BofA Merrill Lynch aposta que o Fed acabará comprando US$ 1 trilhao em títulos até o final de 2011, em meio a um crescimento abaixo do esperado.

Em defesa de Bernanke
Mais do que defender a independência do BC norte-americano, os economistas do BofA Merrill Lynch se posicionam bastante a favor das decisões tomadas por Bernanke desde o início da crise, em 2007.

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“Liderado por Bernanke, o Fed tem mostrado uma disposição em se adiantar e fazer o que acha certo, apesar de pesadas críticas de que está ignorando os riscos inflacionários. E o Fed tem mostrado que está certo”, escreve o banco. De acordo com os economistas, ao invés da inflação, a deflação e o desemprego mostraram ser riscos reais.

Apesar disso, o BofA Merrill Lynch admite que as ações do Fed têm como efeito colateral o grande número de ativos que o BC tem comprado recentemente – ativos esses que terão que ser recolocados no mercado com cuidado para evitar um superaquecimento. “O Fed pode acabar tendo que arcar com perdas de capital e precisar de fundos do Tesouro”, diz o banco.