Sem saída

Em luta contra a inflação, Dilma terá pouco para mostrar em sua candidatura, diz WSJ

Encurralado entre o baixo crescimento econômico e o controle da alta dos preços, governo brasileiro trava batalha de constantes renúncias e pouco êxito

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SÃO PAULO – A missão do Banco Central já foi menos complicada tempos atrás. Lutar contra o mar de forte ressaca do avanço generalizada nos preços – que teimam em subir mesmo com a taxa de juros cada vez mais esticada – mostra-se uma tarefa extremamente complexa na medida em que os ventos indicam mudar de direção para as economias emergentes. Abdicar de taxas de crescimento mais vistosas para ter a inflação em pleno controle parece um dilema pouco tentador para o inflado ego dos grandes líderes, porém de efeitos bem melhores nas urnas; mas o que fazer quando nenhum dos dois ocorre? Enquanto o BC luta contra o IPCA em uma batalha de constantes renúncias e poucas conquistas, o tradicional veículo americano Wall Street Journal dá sua dose de pessimismo e fala em “missão impossível” sobre a meta de alta anual de 4,5% no indicador.

Em matéria intitulada “Brazil’s Central Bank Fights Many Evils to Kill Inflation” (Banco Central brasileiro luta contra diversos males para matar inflação, em tradução livre), o WSJ lembra que a última vez que a política monetária guiada pelos números do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) se aproximou do centro da meta estabelecida foi em agosto de 2010, “quando a economia se recuperava de uma contração no ano anterior e marchava em direção à sua mais robusta expansão já registrada”, após sofrer os impactos da maior crise mundial desde o crash de 1929, nos Estados Unidos.

De lá para cá, o cenário virou de pernas para o ar. Os emergentes começaram a desacelerar, com a China dando indícios cada vez mais claros de que não será capaz de entregar as mesmas altas no PIB (Produto Interno Bruto) que as vistas nas últimas décadas, e os indicadores brasileiros mostravam com cada vez mais ênfase que o modelo de crescimento baseado no consumo se aproximava da exaustão, enquanto Estados Unidos e Europa se recuperavam gradativamente. Como consequência, o PIB das economias em desenvolvimento puxou o freio de mão e a inflação ensaiou voos mais altos.

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Por aqui, a inflação representa um dos maiores pesadelos da população, que nunca se esquece do pânico de décadas atrás com uma das piores crises econômicas da história. A cada indício de que os preços estão avançando além do controle das autoridades, o botão de emergência é acionado no inconsciente coletivo e um período de forte instabilidade se inicia. Para combater o pânico, o Banco Central usa da Selic como maior arma. De 2012 até hoje, a autoridade monetária adotou uma postura agressiva e elevou a taxa básica de juros em 3,52 pontos percentuais, para 10,50% ao ano, com grande potencial de novos ajustes já na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária).

“Economistas enxergam esse movimento como mortal para o crescimento e uma negação para o desenvolvimento econômico antes da eleição presidencial de outubro. Algumas projeções vão tão baixo quanto crescimento anual de 1,5%, após cerca de 2,5% em 2013 e apenas 1% em 2012. Se as estimativas estiverem certas, a presidente Dilma Rousseff terá menos para mostrar caso pleiteie uma reeleição”, afirmou o jornalista Paulo Trevisani, do WSJ.

Dólar pode complicar mais
Outro ingrediente que pode azedar ainda mais as coisas para o atual governo é o desempenho do dólar, moeda em forte tendência de alta na medida em que a economia americana se recupera e o Federal Reserve dá adeus às antigas políticas de elevado afrouxamento monetário e o consequente “dinheiro barato”, que inundava os emergentes de oportunidades de investimentos. Com a divisa americana sobrevalorizada, alguns podem rir à toa (caso das empresas exportadoras), mas muitos arrancam os cabelos com a maior pressão gerada sobre a já explosiva inflação.

O cenário desfavorável já fez dois importantes bancos internacionais – Credit Suisse e JP Morgan – rebaixarem suas projeções para o PIB do país em 2014 para 1,5%. Na mesma matéria do periódico americano, Shelly Shetty, chefe de análise na América Latina da Fitch Ratings em Nova York, contou que a agência de classificação de risco estaria de olho no patamar de 6% da inflação, e prestes a também reduzir sua estimativa para o indicador brasileiro, antes apontado em 2,5%, o que daria ainda maior sustentação aos olhares pessimistas em relação ao País.