Vida de estatal

Eletrobras está mostrando o preço que paga por ser uma estatal no Brasil

Com garantia do Tesouro Nacional, os empréstimos a oito anos têm uma taxa de juros flutuante, que atualmente é de 12,9%

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São Paulo – A Eletrobras (ELET3;ELET6) está mostrando exatamente o quanto vale a pena ser uma empresa estatal no Brasil. Nesta semana, a companhia informou que obteve R$ 6,5 bilhões (US$ 2,9 bilhões) em empréstimos de dois bancos financiados pelo Estado: o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal. Com garantia do Tesouro Nacional, os empréstimos a oito anos têm uma taxa de juros flutuante, que atualmente é de 12,9%. É quase a mesma taxa que um grupo de empresas de serviços públicos pagou anteriormente neste ano para compartilhar um empréstimo de R$ 11,2 bilhões que vence em apenas três anos.

A estatal foi a única grande empresa de serviço público do Brasil a aceitar em 2012 uma oferta da presidente Dilma Rousseff de renovação das concessões iniciais em troca de cortes da taxa, que ela buscava para ajudar a conter a inflação e a reforçar os gastos dos consumidores. Segundo a Moody’s Investors Service, ainda que o acordo tenha custado à empresa cerca de R$ 7,5 bilhões em receita anual isso não impediu a disposição do governo para financiar o plano de investimento da empresa, de R$ 60,8 bilhões (US$ 27,4 bilhões), até 2018.

“Nós sempre consideramos a Eletrobras como uma empresa orientada à implementação de políticas governamentais”, afirmou Beatriz Nantes, analista da Empiricus Consultoria e Negócios. “Agora vemos o governo usando bancos públicos para conceder financiamento à Eletrobras”, completou.

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Em 21 de julho, a Eletrobras disse que obteve o financiamento dos dois bancos estatais depois de convidar “diversas instituições financeiras” para participar do procedimento de coleta de intenções de investimento, também conhecido como bookbuilding.

A companhia disse que precisa de dinheiro para expandir usinas de energia e adicionar cerca de 13.000 gigawatts de capacidade de geração, ou seja, um aumento de 30 por cento do nível atual. A empresa erguerá cerca de 19.000 quilômetros de linhas de transmissão, uma distância quase equivalente a meia volta ao mundo. Ela também planeja modernizar as instalações de geração, transmissão e distribuição.

De acordo com os dados compilados pela Bloomberg, os empréstimos são a maior quantidade individual de financiamento bancário na moeda local fornecido a uma entidade brasileira neste ano. A taxa de juros sobre os empréstimos atualmente é de 12,9%, com base no prêmio do Certificado de Depósito Interbancário (CDI). A taxa é cerca de 0,2 ponto porcentual mais alta que um empréstimo de R$ 11,2 bilhões concedido em abril por um consórcio de bancos a um grupo de empresas de serviços públicos, com vencimento em 2017.

Os assessores de imprensa do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal e da Eletrobras também não quiseram comentar ou não responderam aos pedidos de comentários sobre o acordo.

Em setembro de 2012, Dilma divulgou um plano para reduzir os custos de energia em até 32%, parte das iniciativas de seu governo para pôr em movimento uma economia atolada em um período de dois anos de crescimento mais lento em mais de uma década.

A Companhia Energética de São Paulo (Cesp), a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) e a Companhia Paranaense de Energia (Copel) – que são controladas pelos governos estaduais e não pelo governo federal – recusaram a oferta do Brasil para renovar as concessões de geração a taxas mais baixas.

Segundo o analista José Soares, da Moody’s, o apoio do governo é um fator positivo. “Achamos que o governo continuará dando todo o apoio necessário à empresa”, explicou. A Moody’s classifica a Eletrobras como Baa3, um nível acima de junk e um nível abaixo da classificação soberana do Brasil.

 “Esta operação com dois bancos controlados pelo governo foi estratégia para que a Eletrobras continue operando no curto prazo”, afirmou Ricardo Savoia, diretor administrativo e regulatório da Thymos Energia, empresa de consultoria para o setor de serviços elétricos.