Eleições: vitória da Nova Democracia não garante Grécia na Zona do Euro

Especialistas ainda trabalham com a hipótese de vitória da esquerda radical ou a não formação do governo de coalização

SÃO PAULO – O mundo voltará a atenção no próximo domingo (17) para o desfecho do processo eleitoral que acontecerá na Grécia. O resultado do plebiscito – que fracassou há um mês quando não se conseguiu chegar à formação de um governo de coalização – pode ser o divisor de águas para a problemática situação econômica do país.

Depende do resultado nas urnas a continuidade da liberação dos pacotes de ajuda ao país, o que tem contribuído para evitar o descontrole desordenado do endividamento na região. Está em jogo ainda a permanência do país na Zona do Euro, o que reflete na blindagem ou não da economia de importantes países pertencentes ao bloco, como a Itália e Espanha.

Na opinião do cientista político da Tendências Consultoria Integrada, Rafael Cortez, as expectativas da comunidade internacional quanto ao resultado das eleições gregas estão em torno da formação do governo com maioria de cadeiras. Depois disso, a expectativa é de que, com a formação desse governo, seja dada uma mensagem clara de qual a posição de país sobre a permanência ou não na Zona do Euro e na continuidade do cumprimento de ajustes fiscais.

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Para dar rumos a essas negociações, três cenários são esperados pelo mercado nas eleições do dia 17 de junho: a formação do governo encabeçado pela Nova Democracia; a vitória do partido de esquerda radical (Syriza); ou ainda a possibilidade de mais uma vez não chegar a formação do governo de coalizão.

Embora o primeiro cenário seja o mais favorável para o mercado, nenhum deles garante a permanência do país na Zona do Euro. “O mercado está em um ‘stand by’ com a eleição grega, mas acredito que a questão agora é quando o país vai sair da Zona do Euro, sendo pouco provável que a Grécia consiga administrar suas finanças, mesmo com a vitória do partido favorável as medidas de austeridade”, comentou o economia-chefe da Concórdia, Flávio Combat.

Alternativa 1: vitória da Nova Democracia
Dentre as possibilidades apontadas como as mais prováveis, a que menos traria pânico no curto prazo, seria a vitória da Nova Democracia – tradicional partido conservador grego dirigido por Antonis Samaras e membro do Partido Popular Europeu.

O partido, que participou do governo de coalizão com o Pasok (Movimento Socialista Pan-Helênico), apoiou as medidas de austeridade exigidas pela União Europeia, apesar de recentemente ter mostrado a intenção de renegociar os termos do memorando. “A formação de um governo encabeçada pela Nova Democracia, pode ser que seja lido como um sinal de maior probabilidade de acordo e o mercado pode responder positivamente logo após as eleições”, explica Cortez.

A equipe de análise do Credit Suisse complementa ainda que na hipótese de a Nova Democracia vencer nas urnas, seria mais provável formar uma coalizão com Pasok, que é o principal partido social-democrata grego dirigido até pouco tempo pela família Papandreou e agora liderado pelo ex-ministro de Finanças Evangelos Venizelos. Seria mais provável também a coalizão com a Esquerda Democrática (Dimar), dirigida por Fotis Kouvelis e com outros pequenos partidos liberais.

“A coalizão teria um mandato que prevê uma renegociação com o programa de ajuste da União Europeia e com o FMI (Fundo Monetário Internacional) e é provável que seja bem sucedida”, afirma a equipe de análise do banco.

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Altenativa 2: a vitória do Syriza
O maior receio do mercado, no entanto, seria a vitória da coalizão da Esquerda Radical (Syriza). O grupo é associado ao Partido da Esquerda Europeia dirigido pelo jovem Alexis Tsipras. Tsipras prega a derrogação do memorando de austeridade, a fiscalização da dívida e seu eventual cancelamento parcial e a nacionalização dos bancos, além da permanência na Zona do Euro.

A postura radical do grupo vem despertando amor e o ódio da população grega. As famílias mostram estar favoráveis à permanência do país na Zona do Euro, mas inspiram insatisfação com o aperto monetário causado pelos ajustes fiscais e vive uma indgnação com o crescente aumento da taxa de desemprego.

Contudo, a possibilidade de não haver uma negociação com a vitória do partido radical tem causado tem causado pânico na população, que teme uma eventual ruptura do governo. Representantes do setor bancário afirmaram que até € 800 milhões estão deixando os principais bancos do país diariamente. Já os varejistas apostas que parte desse dinheiro está sendo usado para compra de massas e produtos enlatados.

“As famílias estão prevendo que uma eventual saída da Zona do Euro causaria uma quebra do sistema bancário, com a possibilidade de congelamento de depósitos e falta de liquidez para os ativo, o que tem causado pânico na população”, destaca o Cortez.

Contudo, os analistas do Credite Suisse apontam com uma ponderação que deve ser considerada mesmo com a vitória de Syriza:  a maior dificuldade da formação de uma coalização de esquerda. O partido radical terá que buscar após as eleições formar um governo de coalizão ou um governo minoritário com um voto pela tolerância de alguns partidos. “Em ambos os casos, terá de buscar o apoio de partidos menos radicais e pró-euro”, destacam os analistas.

Dado este fato, o partido demonstra certo abrandamento sobre as renegociações. No entanto, isso não anula a postura de maior confronto, dada a retórica geral do partido. “Em tal cenário, o risco de um colapso das negociações e uma posterior saída da Grécia da Zona do Euro irão aumentar significativamente”, destaca Cortez.

Em consequência disso, a equipe de análise da XP Investimentos afirma em relatório que  na condição de o novo governo formado não aceitar as atuais exigências do FMI (Fundo Monetário Internacional) e da União Europeia, será uma questão de tempo até a Grécia anunciar um calote na sua dívida e abandonara a Zona do Euro.

“O principal receio do mercado é para uma saída desordenada do país que acabará resultando em um efeito contágio que pode por a estrutura do bloco sob ameaça”, afirma a equipe de análise da corretora em relatório.

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Alternativa 3: ausência da formação do governo de coalizão
Apesar de ter sido apontada como a hipótese menos provável, diante da diminuição da fragmentação dos partidos observada em pesquisas eleitorais, o mercado não descartam a possibilidade de mais uma vez não se formar o governo. Para a equipe de análise da XP, esta possibilidade traria consequências semelhantes ao da vitória do Syriza.

Na mesma linha, Rafael Cortez acredita que a não formação do governo resultaria em um cenário de estresse mais acentuado, até que houvesse a definição do que de fato seria proposto. “Neste caso a preocupação seria maior e mais evidente”, completa o cientista político.