Novo paradigma

Eleições serão guiadas por “ódio das classes médias globais” e levam a reforma de modelos de pesquisa

Diretor-executivo da maior consultoria de risco político do mundo comenta as mudanças no comportamento do eleitorado e como elas podem afetar as eleições de 2018

SÃO PAULO – As surpresas com resultados das votações em 2016, do apoio ao Brexit à rejeição do acordo de paz na Colômbia, fazem parte de um “ponto de inflexão” que pode ser explicado pela revolta das classes médias tanto em países industrializados como nos emergentes. A desilusão de segmentos importantes da sociedade com a condução da economia e com a ineficiência e corrupção da classe política dão lugar a um sentimento “antissistema” que não é captado pelas tradicionais pesquisas de intenção de voto, na avaliação é de Christopher Garman, diretor-executivo da Eurasia.

Para recalibrar seus modelos, a principal consultoria de risco político do mundo vai dar menos importância às pesquisas tradicionais e concentrar esforços em entender variáveis estruturantes para as análises que fará das eleições na Europa em 2017 e na América Latina em 2018.

Segundo o especialista, a desilusão da classe média baixa nas economias desenvolvidas é resultado do aumento da desigualdade de renda e das consequências da crise de 2008 sobre o mercado de trabalho em meio a um contexto de “exportação” de empregos e “importação” de migrantes frutos da globalização.

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Nos países em desenvolvimento, o cenário é outro: a classe média em ascensão está insatisfeita com os serviços públicos, tem demandado mais de seus representantes no poder e ficado mais atenta ao combate à corrupção. “Estamos vivendo um período de classes médias raivosas”, resume Garman.

No caso do Brasil, os reflexos das medidas de ajuste fiscal sobre a vida das pessoas nos próximos anos e potenciais escândalos de corrupção devem alimentar ainda mais uma “raiva eleitoral” que vai desaguar nas eleições de 2018.

Até lá, no entanto, Garman pondera que a rejeição ao establishment pode mudar significativamente o cenário político e deteriorar o ambiente para a implementação da agenda econômica do governo federal. “O que o mercado tem que ficar muito atento é que as populações não estão satisfeitas e isso pode colocar um pouco uma restrição sobre a capacidade dessa agenda de ajuste avançar, particularmente pós-2018”, alerta.

O diretor-geral da Eurasia projeta que, sairá na frente o candidato que melhor souber canalizar a raiva das classes médias. Segundo ele, a pergunta que se coloca é quem vai apresentar uma “candidatura antipolítica”. “Para nós, provavelmente virá de algum partido de centro e não da esquerda, mas tem que estar muito claro que esse tipo de insatisfação eleitoral diminui o grau de previsibilidade olhando para 2018”, afirma.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista de Garman ao podcast da Rio Bravo Investimentos 

No início de 2016, em uma entrevista que você concedeu para a Bloomberg, foi comentado que o Brasil atravessaria um período de volatilidade, tendo em vista a crise política e as necessidades de reformas que precisariam ser colocadas em prática. Ainda nessa mesma entrevista você apontava que mesmo se a presidente Dilma superasse o processo de impeachment as reformas deveriam ser colocadas em pauta. Com a chegada do governo Temer e a pauta das reformas no Congresso, como é que você analisa o ambiente político do país?
Christopher Garman: Nós sempre tínhamos uma avaliação na Eurasia, olhando países em mercados emergentes como o Brasil, que estamos enfrentando um período de maiores dificuldades políticas e econômicas. As dificuldades econômicas no Brasil são mais exacerbadas em relação aos seus pares dado o tamanho do desafio fiscal, com certeza. Mas a grande pergunta que nós fazemos é: como é que sistemas políticos reagem a períodos de dificuldades econômicas e políticas? A função e reação da classe política é uma que, perante esses ventos contrários, teremos uma reação positiva em que a classe política reage essa crise colocando reformas na pauta ou, de forma contrária, podemos ter um período prolongado de disfuncionalidade política. Na minha avaliação, o Brasil se enquadra na primeira categoria. Nós temos um Congresso essencialmente conservador e temos no Brasil um histórico muito claro de que, na medida em que crises econômicas vêm, são nesses momentos que o Congresso age e realmente coloca reformas em pauta para votação. É isso que estamos enxergando hoje com o governo do presidente Temer. Acho que o presidente Temer teve um diagnóstico correto de que a única maneira com a qual ele pode sobreviver politicamente é dar um choque de confiança para o mercado financeiro e o setor empresarial, e isso passa necessariamente por colocar reformas estruturais, fiscais, para serem votadas no Congresso. E o Congresso em si vive um momento de grande medo de um governo Temer fracassar porque isso poderia levar a uma crise desancorada, que poderia ameaçar as bases político-eleitorais em 2018. É isso que segura o governo Temer a despeito de ser um governo muito impopular.

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No Brasil, a Operação Lava Jato tem ocupado um lugar de destaque não apenas junto ao noticiário político, mas também junto ao interesse da população, que parece confiar de maneira exacerbada na forma como a Operação tem sido conduzida. Como é que se dá a percepção de fora. Como a Eurasia percebe, por exemplo, a Operação Lava Jato e seus impactos?
Christopher Garman: Vamos distinguir como é enxergado de fora por parte de investidores estrangeiros e como é que nós da Eurasia enxergamos esse processo. São duas coisas um pouco diferentes. Por parte do investidor estrangeiro, é claro que o teor e a profundidade das investigações da Lava Jato, a preocupação principal se refere ao que isso se traduz em instabilidade política e capacidade de encaminhar reformas estruturantes do outro lado e também sobre as empresas específicas que são envolvidas nesse processo. Na medida em que ficou claro que esse processo tem muito chão pela frente e é altamente independente, o investidor foca muito no lado do poder de estrago econômico que possa vir. Do nosso lado, da Eurasia, nós sempre enxergamos a Lava Jato no Brasil sob duas óticas. A primeira é que o Brasil é um sistema político único que tem instituições investigativas altamente independentes. O Brasil tem uma rubrica institucional com Ministério Público constitucionalmente independente – muitos cientistas políticos falam do Ministério Público como um quarto poder e isso é um desenho institucional que não se encontra em outros países -; um Judiciário altamente independente; uma nova lei anticorrupção em 2003, que deu poder de fôlego para acordos de leniência e delação premiada. Então, enxergamos todos os condicionantes institucionais para ter uma investigação que de fato o Executivo tinha muito pouca capacidade de coibir. De outro lado, uma classe média nova e muito insatisfeita com a qualidade dos serviços públicos, com a qual o tema de corrupção vira muito mais relevante. Eu até diria que isso vai continuar a ter um impacto no ambiente político pós-queda da Dilma e mesmo no governo Temer, dado que o PMDB também foi parceiro do PT em muitos escândalos de corrupção. Em última instância, achamos isso um processo salutar porque é fruto da robustez das instituições e talvez no médio prazo tenha um impacto até benéfico em termos de crescimento econômico. No curto prazo, acho que a preocupação do investidor tende a prevalecer e, olhando para o ano que vem, a grande pergunta é se o governo Temer também pode ser “engolido” pela Lava Jato. Não só os ministros dele e assessores do Palácio, mas o próprio presidente. Achamos esse risco baixo dado o tamanho do apoio que o Congresso tem com o atual governo. Porque a sensação no Congresso hoje é que se o governo Temer afunda todo o barco pode afundar. E isso segura esse governo e também tende a diminuir as repercussões da Lava Jato em termos de instabilidade política. O ano de 2016 foi especificamente cruel para com as previsões. Jornalistas, economistas e analistas políticos perderam, de certa maneira, o calibre e a capacidade de projetar cenários mais tangíveis, mesmo a curto prazo. Estou mencionando questões relacionadas ao referendo na Colômbia, aqui na América Latina, as eleições dos Estados Unidos, e mesmo o Brexit na Europa. 

Na sua avaliação, Christopher, o que faz o cenário hoje ficar menos previsível? O que torna o cenário menos previsível nos nossos dias?
Christopher Garman: Acho que estamos vivendo um ponto de inflexão, tanto em países industrializados quanto em países de mercados emergentes. O que estamos enxergando em países industrializados é uma revolta de uma classe média baixa, que se sentiu deixada para trás com o aumento da desigualdade de renda, que foi acumulando há mais de várias décadas e ficou exacerbado com as repercussões da crise de 2008-2009, que levou a um crescimento econômico mais baixo e ao aumento do desemprego. Essa raiva foi inflada e canalizada por temas de imigração. Em países de mercado emergente, como o Brasil, temos um fenômeno de uma raiva de uma nova classe média que teve ascensão e está demandando mais da classe política, com a capacidade da classe política de entregar diminuindo, e isso está gerando também uma revolta de classes médias. O que enxergo é que no fundo estamos vivendo um período de classes médias raivosas. O desafio analítico é que quando se chega a um ponto de raiva contra o establishment político, muitas vezes para analistas – e até mesmo nós, na Eurasia Group – é difícil acertar pontos de inflexão. Em eleições muito apertadas isso acabou sendo o fiel da balança. No Brexit, por exemplo, nós estávamos dando uma probabilidade de 45% de não passar, mas passou. E pesquisa de opinião em um momento como esse, de mais turbulência social, tem dificuldade de antecipar quem é que vai votar no dia da eleição. Ao invés de enxergamos como as pesquisas de opinião erraram, era tudo sobre turn out, sobre quem é que vem para votar, porque os modelos de pesquisas de opinião usam quem é que apareceu nas últimas eleições como maneira de prever quem vai aparecer nas novas. Nós, na Eurasia, estamos até examinando como corrigir esse viés em um momento social como esse e incorporar essas lições em eleições futuras. Nós temos eleições importantes pela frente. Temos eleições na França, eleições na Alemanha, na Europa em 2018. Na América Latina, Brasil, Chile, Colômbia e México. Então, com certeza, o importante em um momento como esse é incorporar esses erros, que acho que são sintomáticos de um período com pontos de inflexão, e isso se traduz em vieses em termos de pesquisas de intenção de voto.

Será que você pode comentar também para nós um pouco mais a respeito das métricas da Eurasia? Como é que vocês adotam esses processos de estabelecer um cenário, de fazer uma projeção futura? 
Christopher Garman: Depende do tema. Quando nós olhamos para eleições, até temos um trabalho conjunto com a Ipsos Public Affairs, um banco de dados de 250 eleições mundo afora, olhando variáveis que importam mais para tentar ditar um resultado eleitoral. Até utilizamos esse modelo para prever a eleição da presidente Dilma Rousseff. Fomos até uma das poucas casas que ficamos com a aposta de ela ganhar a reeleição ao longo da eleição, olhando variáveis mais estruturais para ditar o resultado eleitoral. Em um momento conturbado social como esse é importante ter um viés analítico mais estruturante e menos dependente de intenção de voto, de pesquisa de opinião, porque essas pesquisas de opinião têm se mostrado resultado errado dado esse viés de turn out que eu descrevi. Nós, na Eurasia, olhando para a frente, vamos focar em variáveis mais estruturantes para antecipar resultados eleitorais porque esses modelos têm acertado mais. Na Eurasia, fomos levados por fatores específicos da eleição americana. Apostávamos na Hilary Clinton olhando a grande vantagem que ela tinha de intenção de voto, mas o nosso modelo estruturante apontava uma vitória republicana. Então, ignoramos o nosso modelo estruturante e olhamos para as intenções de voto, dando mais peso. Essa é uma coisa que vamos corrigir internamente, olhando para as eleições na Europa e também na América Latina em 2018.

Pensando então no contexto América Latina, como é que você observa as condições políticas e econômicas da região, além do Brasil, para o próximo ano e para os próximos meses?
Christopher Garman: Começando pelo lado do Brasil, tudo indica que estamos caminhando para um ano muito difícil em 2017 politicamente. A economia está dando sinais de uma recuperação muito lenta; a crise fiscal nos estados deve perdurar e permanecer ao longo do ano que vem – é um problema muito difícil de resolver do lado do governo federal; temos a Lava Jato continuando a avançar; a Odebrecht concluindo o seu acordo de delação premiada e esse governo é essencialmente presidido pelo PMDB, que foi parceiro do PT nesse escândalo de corrupção, então é um governo que tem passivo investigativo. Tudo indica que vai ser um governo, em termos de pesquisa de opinião, fraco. Agora, achamos que, paradoxalmente, esse momento dramático, que deve perdurar em 2017, ajuda a aprovar reformas porque o senso de urgência no Congresso vai estar mais elevado e o custo de oportunidade do Congresso de não aprovar uma Reforma da Previdência vira maior, porque a não aprovação da Reforma da Previdência eleva o risco de trazer de volta uma crise de confiança muito mais grave, e aí sim isso pode assustar as bases parlamentares olhando para 2018. Então, no curto prazo, isso até pode ajudar a aprovar a Reforma da Previdência, mas o que nos preocupa é que isso leva a um cenário em 2018, com a eleição geral, que vai ser marcado por uma raiva eleitoral contra a classe política e não é claro para nós quem é que vai estar mais bem colocado para canalizar essa raiva. Houve muitos diagnósticos nas eleições locais de que houve uma perda da esquerda e o eleitorado indo para a direita. Essa é uma leitura errada das eleições locais. Tivemos uma classe média com raiva contra a classe política, que rejeitou a esquerda porque a esquerda estava no poder. Não era um voto a favor de reformas de ajuste fiscal. A pergunta é qual vai ser o candidato que pode se colocar com uma candidatura antipolítica. Para nós, provavelmente virá de algum partido de centro e não da esquerda, mas tem que estar muito claro que esse tipo de insatisfação eleitoral diminui o grau de previsibilidade olhando para 2018.

E no contexto da América Latina, o quanto essa instabilidade no Brasil afeta o cenário da região?
Christopher Garman: Eu diria que não é tanto que a instabilidade brasileira afete a região, mas é que a região está impactada pelas mesmas vertentes eleitorais que descrevemos aqui no Brasil. Começando pelo México, que tem eleição em 2018. O México é um dos países que têm avançado mais em reformas de abertura comercial, com o NAFTA, de reformas no setor de energia e de telecomunicações. Mas temos um governo altamente impopular do Enrique Peña Nieto. A aprovação dele está em 23%, mais baixo do que o presidente Michel Temer, e deve baixar mais depois da eleição do Trump. O candidato mais bem-posto hoje é López Obrador, uma candidatura de esquerda. Se de fato ele vier a ganhar em 2018, também pode colocar em risco um pouco a direção das reformas que foram postas nos últimos dois governos. Essa é uma eleição que também pode exacerbar a preocupação no México, até com a eleição do Trump. As eleições que temos na Colômbia e no Chile, no final de 2017 e 2018, respectivamente, preocupam um pouco menos, mas ainda assim são governos altamente impopulares. A aprovação do Juan Manuel Santos está em 29%, a aprovação da Michelle Bachelet está em 22%. Não são populações satisfeitas, então o espaço para candidaturas antipolíticas emergirem também está posto. Eu diria que para a América Latina como um todo enxergamos uma região que está indo na direção de reformas pró-mercado. A queda do PT, a ascensão do Michel Temer, a queda dos Kirchners, o governo Macri, Pedro Paulo Kuczynski no Peru, governos de direita e reformistas no México e na Colômbia… Mas o que o mercado tem que ficar muito atento é que as populações não estão satisfeitas e isso pode colocar um pouco uma restrição sobre a capacidade dessa agenda avançar, particularmente pós-2018.