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Economistas discutem “sonho interrompido” após crescimento rápido nos anos Lula

Enquanto América Latina registrou um expressivo crescimento, o Brasil ficou para trás; em livro, Alexandre Schwartsman e Fábio Giambiagi fazem reflexão sobre o atual modelo econômico e o que precisa ser melhorado para mudarmos de patamar

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SÃO PAULO – Em época em que o debate eleitoral e a economia está cada dia mais no radar, o atual momento da economia brasileira é colocada em análise por dois economistas bastante renomados. 

No livro chamado “Complacência – entenda por que o Brasil cresce menos do que pode” os economistas Alexandre Schwartsman e Fábio Giambiagi fazem uma reflexão acerca do atual modelo econômico e também de suas limitações. E avaliam: o atual momento pode apontar para épocas futuras mais sombrias. 

Conforme apontam os autores, o livro, que será lançado na tarde da próxima terça-feira (8) em São Paulo, surgiu em meio a diversas perguntas sobre a mudança de ares no Brasil, com o País desacelerando o seu crescimento. O PIB (Produto Interno Bruto), após uma aceleração, vem registrando um desempenho bem abaixo da média dos países latino-americanos e do seu próprio potencial. Com isso, eles destacam a questão: “por que o Brasil ingressou em um período de baixo crescimento na década atual, após o bom desempenho da economia na década passada?”. 

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Para Giambiagi e Schwartsman, o fracasso do modelo econômico estava anunciado. “Até o começo da atual década, vivemos a ‘fase fácil’ e, para crescer, bastava injetar demanda na economia. Com o início da ‘etapa difícil’, quando foi necessário expandir a capacidade de oferta, o governo falhou”, avalia Giambiagi. “O crescimento rápido dos anos Lula foi um sonho interrompido, exatamente porque dormimos durante boa parte deles”, afirma Schwartsman.

Os autores destacam que, entre os anos de 2002 e 2013, o Brasil cresceu uma média anual de 3,5%, enquanto países como Chile, Colômbia e Peru foram de 4,6%, 4,7% e 6,4 %, respectivamente, enquanto o Uruguai cresceu 5,1% no ano. Para eles, contudo, o desempenho medíocre do Brasil extravasa a razão do cochilo após a fase bonança mundial e abarca a ênfase excessiva no consumismo, do alto intervencionismo, com o descaso em meio a maior pressão inflacionária, desleixo fiscal e o abuso de contabilidade criativa. Porém, Schwartsman e Giambiagi destacam que o discurso do governo que contesta a vulnerabilidade do Brasil foi um dos motivadores para a realização do livro.

Giambiagi e Schwartsman ressaltam que a questão se agrava quando se diz respeito à questão fiscal no Brasil. A despesa primária – que subiu de 14% a 23% no PIB – entre 1991 e 2013, sem que houvesse alterações relevantes no investimento federal, em particular o investimento em infraestrutura, foi destacado, ironicamente, como um “verdadeiro milagre” brasileiro.

Os nós que podem ser desatados
Para os autores, o nó a ser desatado para possibilitar o crescimento sustentável é o da produtividade. Conforme aponta Schwartsman, para desatá-lo, a proposta é recorrer ao chamado pentágono virtuoso: maior competição, aumento da poupança doméstica – via ajuste fiscal -, aumento do investimento em infraestrutura, educação e gasto público eficiente. 

Além do aumento da produtividade, os autores apontam para possíveis saídas frente aos desafios enfrentados pelo País de forma a promover a competitividade e aumentar a eficiência. São elas: flexibilização dos compromissos referentes às regras de aquisição de produtos com elevado conteúdo local, redução de alíquotas de importação, a ampliação de acordos comerciais e a diminuição de impostos específicos que afetam mais intensamente a competitividade da economia, o que requer uma racionalização prévia do gasto público. 

Mas quais são as reformas mais urgentes? Na opinião de Schwartsman, o ajuste fiscal e a reforma tributária são dois pontos que são os mais urgentes e cruciais para a economia brasileira. O economista não acredita em qualquer ilusão quanto à redução do peso dos impostos, mas avalia ser factível uma redução considerável na complexidade do sistema tributário. “Os ganhos potenciais da simplificação tributárias me parecem óbvios e enormes”, ressaltou. 

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Schwartsman e Giambiagi ressaltam a preocupação com o roteiro de reformas e são taxativos: “o governo deve sacrificar parte de seu capital político para restaurar a credibilidade na política econômica. Ignorar essa lição, politicamente é muito cômodo, mas não resolve. E resultará em um futuro sombrio“.

Política e economia
Conforme ressalta Fabio Giambiagi, a intensificação do debate eleitoral ocorre como coincidente ao lançamento do livro.”O livro traz uma visão crítica das políticas adotadas nos últimos anos, mas não é um livro partidário. É uma tentativa de contribuição ao debate, que aponta para o que na nossa opinião foi errado. Tentamos nos apressar para lançar o livro com certa antecedência em relação às eleições justamente para evitar que a discussão seja contaminada pelo clima de ‘vale tudo’ que em geral acompanha o calor das campanhas”, avaliou.