Impeachment

Economista vê impeachment de Dilma em segundo plano: o que importa é estabilidade

"Parafraseando um provérbio chinês: não importa a cor do gato; o que importa é que ele coma o rato", disse Paulo Gomes, da AZ Futurainvest

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SÃO PAULO – Centro da discussão política e econômica do país, a capacidade de Dilma Rousseff se manter na presidência parece não ser a principal preocupação do mercado neste momento. Mais pragmáticos e menos ideológicos politicamente, os investidores estão mais atentos à estabilidade democrática do Brasil e o clima para investimentos do que o êxito de eventual processo de impeachment presidencial ou seu fracasso. Os ingredientes podem estar relacionados, mas não necessariamente apontam para a mesma direção. Essa é a visão de Paulo Gomes, que trabalha como economista-chefe da AZ Futurainvest, braço de consultoria de investimentos especializada em gestão de fortunas e que pertence ao grupo Azimut – uma das cinco maiores gestoras de recursos de toda a Europa.

“O mais importante é que os ritos democráticos sejam mantidos. Isso está prevalecendo. Se, por um lado, existe a ânsia de partidos da oposição e setores insatisfeitos da população em acelerar um eventual processo, por outro lado, há instituições jurídicas fortes e que estão privilegiando as normas. O que importa é que tudo seja feito da forma mais justa possível, seja pela permanência ou pela saída”, afirmou Gomes em entrevista ao InfoMoney.

Para entender melhor o comportamento do mercado com relação ao noticiário político, e mais especificamente sobre a evolução da discussão sobre a possível abertura de um processo de impeachment presidencial ou a derrota das tentativas neste sentido, vale um exercício: coloque-se no lugar de um investidor estrangeiro – grupo majoritário na Bovespa e que se faz decisivo na formação dos preços no mercado brasileiro -, e pense em quais são os condicionantes principais para alocar recursos em um país como o Brasil. Certamente, apesar de algumas variações, devem constar na resposta o equilíbrio nas contas públicas para a solvência do país, a incidência de políticas ortodoxas de controle da inflação e estímulos ao capital privado, e, principalmente, previsibilidade.

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“Isso é mais importante do que se a presidente vai sair ou não, já que também nunca sabemos que governo pode entrar depois. São muitas incertezas”, defende o economista-chefe da AZ Futurainvest. Um exemplo que ele deu para reforçar sua posição foi a recente reação dos investidores à reforma ministerial de Dilma, feita há algumas semanas e que provocou valorização dos ativos na Bovespa. “Isso mostra, não que o mercado seja contra ou a favor determinado presidente, mas ele gosta de estabilidade institucional. Isso deve prevalecer. Parafraseando um provérbio chinês: não importa a cor do gato; o que importa é que ele coma o rato”, complementou. Portanto, mais decisivo do que um nome ou outro no comando do Planalto, o mercado quer atitudes.

Os personagens envolvidos certamente influenciam na percepção dos investidores, mas dependem do cenário que vier a se confirmar na prática. Ilustrativa neste caso é a posição de Joaquim Levy na Fazenda. O que inicialmente foi visto como um aceno em direção às medidas que o mercado defende como necessárias na economia, o ex-diretor do Bradesco é visto em posição de relativo isolamento e força questionável sobre as decisões no Executivo, além de pouco influente no Congresso Nacional – onde a parte principal do ajuste fiscal precisa encontrar apoio para ser posta em prática.

A reação do mercado às primeiras iniciativas do governo na reorganização das contas públicas via ajustes foi positiva, com o Ibovespa chegando a acumular ganhos na casa dos 16% em 2015, na máxima de maio. No entanto, logo a euforia foi se convertendo em queda nas expectativas e baixa nas cotações, em consequência da deterioração do cenário econômico e da crise política nacional, além de uma conjuntura menos favorável no plano internacional. Hoje, o índice acumula queda superior a 5% no ano, dando continuidade ao movimento do ano anterior. A onda de desvalorização dos papéis, no entanto, ainda não fez com que a maioria dos setores do mercado brasileiro ficassem baratos, conforme observa Gomes.

“Muitos olham para trás e falam que o Ibovespa está em um nível similar ao de 2008 em dólar, mas essa é uma comparação equivocada, já que a composição do índice naquela época era outra. Tínhamos OGX e uma série de outras empresas. Hoje, as seguradoras e companhias de cartão de crédito equivalem a praticamente 40% do índice, enquanto em 2008 era um percentual bem menor. Quando olhamos para frente, teríamos que comprar uma ação levando em consideração quanto teríamos de retorno ao longo do tempo, através de dividendos e fluxo de caixa, mas esse número está muito imprevisível. E, quando mais imprevisível fica, maior tem que ser a taxa de desconto em que a gente traz esse fluxo de caixa a valor presente”, analisou o economista. Para que as ações ficassem baratas de fato, ele acredita que os preços deveriam cair mais um pouco.

A exceção à regra fica com empresas exportadoras, que, com a alta do dólar, podem ser investimentos interessantes sob a ótica de Gomes. Neste grupo, destacam-se os segmentos de papel e celulose e proteínas, de certo modo, contracíclicas neste momento de instabilidade no plano doméstico. Quando questionado sobre, caso as turbulências se atenuassem na política e na economia, a possibilidade de essas companhias perderem o fôlego, o economista ressaltou os ganhos de longo prazo em detrimento a possíveis efeitos no curto prazo. “Ainda que, no primeiro dia, se o dólar caísse muito, os papéis eventualmente poderiam apresentar desempenho abaixo da média do mercado, o benefício de se estar em um país com instituições mais previsíveis e estáveis se sobrepõe a uma cotação de curto prazo”, afirmou. Portanto, a torcida por um clima de maior estabilidade encontra poucos adversários no mercado.

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