Pedro Fernando Nery

Economista compara Brasil ao Titanic e enfatiza: “não existe solução fora da reforma da Previdência”

Em entrevista ao Podcast da Rio Bravo, Pedro Fernando Nery ressalta os principais pontos da Nova Previdência e destaca a importância da aprovação da reforma 

SÃO PAULO – A conturbada ida do ministro da Economia, Paulo Guedes, à CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara dos Deputados foi uma mostra de como a Reforma da Previdência promete gerar fortes emoções ao mercado durante a sua tramitação no Congresso.

Apesar das turbulências, é importante que o governo de Jair Bolsonaro siga com foco na aprovação da Reforma, uma vez que ela é essencial para o equilíbrio das finanças públicas e para o Brasil retomar o crescimento. Para analisar a proposta da Nova Previdência proposta pelo governo, quais são as virtudes e o que pode ser alterado, o Podcast da Rio Bravo entrevistou Pedro Fernando Nery, que é doutor em economia e consultor legislativo. Ele é autor, em conjunto com Paulo Tafner, do livro Reforma da Previdência, que traz uma análise detalhada sobre as principais questões sobre o tema. 

Na entrevista, Nery ressalta os principais pontos da Nova Previdência e é bastante assertivo: “o cenário é péssimo e o cenário é de recessão, é um cenário de elevação da taxa de pobreza, é um cenário de destruição do emprego, é uma realidade muito ruim, muito dura. Compararia com a gente estar no Titanic avistando o iceberg e é disso que o governo tem que convencer a sociedade, o próprio Congresso, de que não existe solução fora da reforma da Previdência. A reforma da Previdência não é a cura para todos os males, mas ela é, para ficar na metáfora que já usei, a solução para a gente desviar do iceberg, pelo menos continuar navegando e escolher para onde a gente vai”. Confira a entrevista completa abaixo: 

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Rio Bravo: Quais são os pontos mais virtuosos da proposta da Nova Previdência, que foi entregue ao Congresso pelo ministro Paulo Guedes e pelo presidente Jair Bolsonaro?

Pedro Fernando Nery: Ela é uma proposta bastante ampla e o que é mais virtuoso são aquelas mudanças que afetam mais os que estão mais bem posicionados na distribuição de renda, o que nós economistas chamaríamos de mais ricos, e que são também aqueles benefícios que mais consomem o orçamento.

É uma mudança bastante profunda no regime próprio dos servidores públicos, que afetaria não só a União, mas também os estados e os municípios e também no âmbito do regime geral, que é o regime operado pelo INSS, do fim da aposentadoria por tempo de contribuição, uma aposentadoria que existe em poucos países do mundo. Ela mal exige uma idade mínima e a estamos criando agora. Essa aposentadoria hoje no Brasil é concentrada nas ocupações mais ricas, nos trabalhadores mais educados das cidades e regiões mais ricas do país. Não é um benefício que beneficia os mais pobres, muito embora seja concedido em idades mais jovens.

E, por fim, acho que o terceiro ponto importante da reforma para a questão fiscal é a redução da taxa de reposição da pensão por morte das famílias que têm poucos dependentes. Isso também não afeta as famílias mais pobres, salvo a polêmica em relação à desvinculação do salário mínimo, e isso vai ter um impacto muito grande no fiscal.

Perdemos um pouco a dimensão dessa despesa, porque ela é uma despesa que está associada a um benefício que tem uma carga emocional forte, mas a gente já gasta na União, no governo federal, cerca de seis vezes mais com pensão por morte do que com Bolsa Família, então é um benefício que consome uma quantidade impressionante dos recursos públicos e que também está crescendo.

Então colocaria como mais virtuosos da proposta esses três pontos: mudanças para os servidores; e no INSS, idade mínima e mudança na pensão por morte.

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Rio Bravo: E quais são os pontos considerados mais frágeis ou, por outro lado, que abrem flanco para algum tipo de crítica daqueles que se opõem à reforma?

Pedro Fernando Nery: Alguns pontos que merecem mais reflexão, que são até mais controversos entre quem estuda o assunto e que de fato contrariam o discurso do governo de combate a privilégios, também são três. Um, que está muito no debate, é a questão do BPC, o Benefício de Prestação Continuada da Lei Orgânica da Assistência Social, a LOAS.

Hoje de fato temos alguma distorção porque, como o governo coloca, ele quer separar a Previdência da assistência. O BPC hoje pode pagar para um homem na mesma idade, 65 anos, e no mesmo valor, um salário mínimo, o BPC, que em tese pode ser recebido por quem nunca contribuiu, ou uma aposentadoria por idade, que pode ser recebida por um homem que contribuiu por 34 anos.

Então, num caso extremo de um trabalhador que contribuiu por 34 anos sobre um salário mínimo e um que nunca contribuiu, é possível hoje que os dois recebam o mesmo benefício de um salário mínimo aos 65 anos. Neste caso, o que se questiona sobre o BPC é a forma que a mudança foi feita.

O governo propõe a redução dessa idade mínima de 65 para 60 anos, mas também uma redução substancial no valor de um salário mínimo para R$ 400 até que se alcance 70 anos, quando o benefício seria de um salário mínimo. Não tem transição, então alguém que contava com o benefício de um salário no ano que vem vai ter que contar com um benefício de R$ 400 e não vai aproveitar esse tempo maior de recebimento porque não existe transição.

Quer dizer, alguém com 64 anos não vai poder receber retroativo em relação ao período entre 60 e 64, Enfim, o debate é complicado e talvez não estejamos no melhor momento para fazer isso.

Numa proposta que estaria de fato combatendo privilégios talvez não seja ideal tratar do BPC. O próprio argumento de que ele é um benefício que compete com a aposentadoria por idade merece alguma reflexão, porque na verdade o BPC não paga 13º, o BPC não deixa pensão por morte, então em termos de valor presente para o beneficiário existe sim uma diferença em relação à aposentadoria, até porque o principal grupo beneficiário do BPC são mulheres – e elas podem se aposentar por idade cinco anos antes.

Então, por questões fiscais, foi lançado recentemente o estudo da IFI (Instituição Fiscal Independente) do Senado, estimando o impacto da mudança do BPC em R$ 30 bilhões em dez anos. Eu, numa conta de padeiro, certamente muito pior que a da IFI, acho que em determinadas hipóteses, o impacto da mudança pode até ser neutro, porque existe uma ampliação de cobertura de 65 para 60, mas é uma mudança que pode provocar risco social de perda de cobertura dos mais pobres, sem um impacto fiscal relevante e dá discurso contra a Reforma. Assim, a primeira questão sensível é o BPC.

Uma segunda questão é a da Previdência rural, que é sempre sensível. Ela é uma Previdência que se concentra, basicamente, no Norte e no Nordeste, então a sua ausência numa proposta permite uma formação de uma coalizão regional de apoio à reforma e existem algumas mudanças do Rural que me parecem controversas.

Vai se passar a exigir do trabalhador que não comercializa a sua produção, porque hoje a contribuição, em tese, se dá pela comercialização da produção. Vai se exigir R$ 600 anuais do núcleo familiar como contribuição. A gente está falando de um trabalhador que às vezes pode ter até um acesso precário à rede bancária. E, embora a Previdência rural custe muito – ela custa mais do que o nosso orçamento da Saúde, da Educação, cerca de R$ 120 bilhões por ano, tem um número grande de “fraudes”, quer dizer, pessoas do meio urbano recebendo benefícios rurais -, é muito difícil  mudar essa situação da noite pro dia, é muito difícil endurecer os critérios para que de fato apenas trabalhadores rurais recebam o benefício, sem prejudicar justamente quem mais precisa, que pode não ter como cumprir esses requisitos.

E ainda no núcleo do rural é polêmica a elevação da idade mínima da mulher de 55 para 60 anos. Ela ficaria igualada à do homem rural, que também é de 60 anos. O que pesa um impacto fiscal positivo é uma contradição numa proposta que tem uma redução de três anos na aposentadoria da mulher urbana para o homem urbano.

Fica difícil defender uma diferenciação da mulher urbana e a igualdade da mulher rural se o trabalho da mulher rural tende a ser mais penoso.

O terceiro ponto sensível, também complexo, é a elevação do tempo mínimo de contribuição de 15 para 20 anos. Esse é o requisito que é mais caro aos trabalhadores pobres do meio urbano e não a questão da idade mínima, porque a gente sabe que muitos trabalhadores passam muito tempo no desemprego, na informalidade, principalmente mulheres, que também passam um tempo fora da força de trabalho.

Em média, mulheres que se aposentam por idade no meio urbano se aposentam com 18 anos de contribuição. É mais do que os 15 que são exigidos hoje, mas menos do que os 20 que passariam a ser exigidos. Também tem risco de cobertura, o que é preocupante, porque esse pessoal seria jogado no BPC, que está com uma redução de valor.

Por outro lado, a motivação do governo é compreensível porque a aposentadoria por idade é, em termos atuariais, muito desequilibrada. É um benefício pesadamente subsidiado por conta da vinculação ao salário mínimo, O governo, em vez de rever a vinculação dos menores benefícios ao salário mínimo, que permite que trabalhadores recebam muito mais do que contribuíram, entendeu que não seria possível em termos de direito constitucional, de constitucionalidade, defender essa mudança e por isso ele eleva o tempo mínimo de contribuição.

E também é uma mudança sensível, complexa, em que pese a motivação fiscal, que a gente sabe que é muito relevante, abre flanco para críticas e não se insere nesse discurso mais amplo da proposta de combate a privilégios. 

Então, se, por um lado, ele tem três pontos que são essenciais para o fiscal e que afetam os mais ricos, que são a questão dos servidores públicos, a questão da idade mínima e a questão da pensão por morte, existem também esses três outros pontos que não têm um impacto tão grande no fiscal e que podem afetar os mais pobres, quer dizer, BPC, aposentadoria rural e elevação do tempo mínimo de contribuição.

Rio Bravo: Já houve momento tão interessante para falar a respeito da reforma da Previdência como agora ou esse momento não existe do ponto de vista histórico ou estratégico?

Pedro Fernando Nery: É sempre muito difícil. Não só no Brasil, mas reforma da Previdência é difícil como um todo. Estamos falando de uma proposta que, tipicamente, tem benefícios espalhados pela sociedade, concentrados no futuro, enquanto as perdas são palpáveis e são concentradas em grupos específicos.

Então existe aí a associação dos auditores da Receita para protestar, mas não existe a associação de crianças que não nasceram, que vão herdar uma dívida enorme amanhã e que querem a reforma. Isso é clássico da ciência política, da economia política. É uma proposta com ganhos difusos e perdas concentradas, tende a gerar uma resistência grande. 

Acho que o momento agora está muito propício. Existe boa vontade por parte da imprensa, da própria sociedade, tendo em vista que acabamos de passar por uma eleição presidencial importante, em que foi eleita uma figura imensamente popular, que é o presidente Jair Bolsonaro.

Impopular também, mas que teve uma base muito grande, quer dizer, sempre foi considerado mais fácil pautar um tema como esse no primeiro ano de governo, com o presidente apoiando essa proposta iria ser mais fácil.

Na comparação com a proposta do presidente Temer, o debate se qualificou muito, seja pelo aprendizado que houve nesses últimos dois anos enquanto sociedade, seja por conta da própria presença agora de uma força política capaz de defender a proposta, já que o governo Temer apanhava sozinho, perdia de WO na comunicação. Até essa discussão, por exemplo, em relação ao BPC, é um avanço importante, mesmo que isso não seja um bode na sala, uma coisa inserida ali para ser retirada do texto.

Independentemente da intenção de colocar o BPC na proposta, já tivemos um ganho porque dessa vez, claramente, a gente está discutindo como os pontos mais polêmicos aqueles que afetam os mais pobres. Dois anos atrás estávamos falando, por exemplo, que ter uma idade mínima é trabalhar até morrer, enquanto a expectativa de sobrevida em todas as regiões do Brasil é muito mais alta do que a expectativa de vida ao nascer, que era um dado que muitos jornalistas, inclusive, usavam pra criticar a reforma. 

Agora não está se falando tanto que a idade mínima prejudica o mais pobre porque houve um aprendizado de que na verdade quem não tem idade mínima hoje é o trabalhador mais rico, quando os trabalhadores mais pobres, justamente porque não tem tempo de contribuição, tem que se aposentar por idade, então houve um ganho importante. A gente está falando muito de BPC, falando cada vez mais em tempo mínimo de contribuição, que é um tema um pouquinho árido, porque o tempo de contribuição do pobre possui um requisito diferente do mais rico, da classe média. Acredito que o momento está propício. Mas falta um esforço maior de comunicação do governo e a própria presença do presidente pautando esse tema. De qualquer forma, já houve uma evolução incrível no posicionamento do presidente Jair Bolsonaro de quando ele era pré-candidato até o momento que ele foi candidato, depois presidente eleito e, finalmente, presidente empossado.

Ele vem cada vez mais abraçando, aceitando essa pauta, o que não era óbvio dado os posicionamentos corporativistas que ele teve ao longo da sua carreira como parlamentar. Se ele usar essa liderança que tem, esse esforço de comunicação vai melhorar. O debate melhorou muito.

Não sei se é porque agora tem um governo mais forte do que o governo Temer, que veio de um impeachment, não de uma eleição, ou se houve um aprendizado, mas acho que no mínimo, no mínimo, o debate está muito mais qualificado do que era há dois anos, dois anos e meio atrás. 

Rio Bravo: A propósito desse debate mais qualificado, há alguns dias o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, disse que a batalha da comunicação era fundamental. Você tocou um pouco nesse ponto nessa última resposta e eu gostaria de reforçar aqui a pergunta: quão relevante é, em termos estratégicos e até para fazer com que a reforma avance nas duas Casas, essa batalha da comunicação é importante? E o que significa essa batalha em termos práticos?

Pedro Fernando Nery: Antes de qualquer coisa, a batalha da comunicação é uma batalha de convencimento. É um tema árido, que envolve ganhos no futuro, é um tema que traz para o debate diferentes realidades do Brasil, porque tem benefícios que atingem o rico, o classe-média, o pobre, o muito pobre, o urbano, o rural. A gente já falou aqui de aspectos regionais, por exemplo, de inserção no mercado de trabalho, então é um tema complexo e eu acho que, fundamentalmente, o que falta é a questão do convencimento, até que tende a haver por uma questão de exaustão.

Já estamos no terceiro governo seguido e, em cerca de três anos, pauta a reforma da Previdência como item principal da sua agenda. Vamos lembrar que a própria presidente Dilma Rousseff, antes de sofrer o impeachment, colocava a reforma da Previdência como o ponto central do seu governo, a própria mensagem presidencial enviada ao Congresso para abertura dos trabalhos em fevereiro de 2016 colocava uma ênfase impressionante na reforma da Previdência, é inquestionável.

Depois veio o presidente Temer, que também colocou como prioridade e agora o presidente Bolsonaro coloca como prioridade número um, então a gente vê essas forças políticas que se revezam no poder – por conta do impeachment e das eleições, se revezaram num curtíssimo período de tempo -, todas falando que é preciso fazer reforma.

Até por conta dessa repetição e desse tempo vai ficando mais claro e, como disse antes,cabe agora ao governo liderar esse esforço de comunicação, que é antes de tudo um esforço de convencimento, mostrar o que é mito, o que é verdade, quais os riscos que temos, que são enormes, de não fazer uma reforma, que interesses estão em jogo, qual é o interesse da desinformação, quem perde, que elite é essa que perde. Existe uma possibilidade de congruência muito grande. Se você conversa, por exemplo, até com um economista do PSOL ou um economista do PT, que são da oposição, vai ver que em vários itens da proposta existe uma convergência quanto à necessidade de ser feito, então eu acho que a partir do momento que o Poder Executivo se dedicar à comunicação a coisa pode andar. 

Rio Bravo: É interessante a menção ao fato de que esse é o terceiro governo que trata da reforma da Previdência como um item preferencial, porque, ao que parece – e pode ser uma percepção equivocada da minha parte – se o governo Jair Bolsonaro não der conta da reforma da Previdência, toda a confiança que o empresariado e setores do mercado depositam nessa administração cairá por terra. O quanto disso é mito, o quanto disso está calcado na realidade, na sua avaliação?

Pedro Fernando Nery: Eu acho que está tão calcado que essa é, na verdade, a própria posição do governo. Recentemente o secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, apresentou um estudo técnico sobre a proposta dizendo que sem reforma a gente volta pra recessão já em 2020. Então, não é só o mercado financeiro dizendo que precisa da reforma, não é só o setor privado, normalmente chamado de setor produtivo, que percebe a necessidade da reforma para o retorno da confiança, é o próprio governo que aponta isso.

De fato, temos uma despesa previdenciária que cresce na ordem de R$ 50 bilhões por ano, e isso quer dizer que para financiar o crescimento da despesa previdenciária a gente tem que recriar um tributo como a CPMF todo ano, então é uma CPMF nova em 2019, outra em 2020, outra em 2021, outra em 2022, outra em 2023 etc., e essa é a ordem de grandeza do desafio. Sem reforma está se falando de R$ 50 bilhões todo ano tendo que ser financiado só no âmbito federal por corte em outras despesas, muitas delas despesas discricionárias, que têm capacidade maior de promover o crescimento econômico, notadamente o investimento público. A gente está falando de corte no orçamento das famílias por meio de impostos ou de mais dívida, e a gente sabe que a trajetória da dívida pública nessa última década foi muito impressionante.

Sem reforma, a gente pode acabar esse governo com uma dívida pública ao redor de 100% do PIB, dívida bruta, então Bolsonaro deixaria o governo com o dobro da dívida em relação ao PIB do que foi deixado pelo seu inimigo-mor, Lula, que era de cerca de 50%, então a gente tende a ter uma espiral de crescimento da dívida, de perda da confiança, de elevação dos juros, que a gente não pode dizer, mas pode ser muito rápido. E aí existe uma discussão até do que aconteceria nesse cenário. O presidente pode ser impichado, porque várias regras orçamentárias passariam a ser descumpridas, a emenda do teto cairia, existe dúvida se o descumprimento da regra do teto dá ensejo a um impeachment, não cumpriria a regra de ouro, uma regra constitucional lá do texto de 1988, que impede que a gente use dívida para pagar despesas correntes. Isso cairia rápido e de maneira contínua.

Haveria descumprimento da regra de ouro por vários e vários anos. Também não sabemos como esse ajuste, no fim das contas, se daria se houvesse necessidade de um calote. Seria um calote em termos nominais ou reais? Quer dizer, o governo emitiria moeda, teria uma aceleração da inflação, uma crise da hiperinflação mais próxima com o que a Argentina tem hoje ou com o que o Brasil tinha no passado?

Enfim, seja como for, o cenário é péssimo e o cenário é de recessão, é um cenário de elevação da taxa de pobreza, é um cenário de destruição do emprego, é uma realidade muito ruim, muito dura. Compararia com a gente estar no Titanic avistando o iceberg e é disso que o governo tem que convencer a sociedade, o próprio Congresso, de que não existe solução fora da reforma da Previdência. A reforma da Previdência não é a cura para todos os males, mas ela é, para ficar na metáfora que já usei, a solução para a gente desviar do iceberg, pelo menos continuar navegando e escolher para onde a gente vai.

Rio Bravo: Continuaremos navegando, uma vez que essa reforma for aprovada, na melhor das hipóteses, do jeito que ela está. Daqui a alguns anos, seria necessário colocar em pauta uma outra reforma?

Pedro Fernando Nery: Não. Essa proposta tem a capacidade de resolver em definitivo esse problema. Falamos muito da questão dos dez anos, que é a conta que o governo soltou, aí dez anos a economia vai ser tanto, 1 trilhão [de reais], no total, e com determinado benefício vai ser tanto, mas o que é mais importante do que os dez anos, talvez – e os dez são importantes até por conta do teto de gastos -, é olharmos para a questão do déficit aflorar daqui a décadas, porque o investimento privado necessita de um horizonte de estabilidade muito grande.

A proposta como está hoje tem capacidade de resolver esse problema, até porque ela tem previsão de ajustes automáticos à medida em que a expectativa de vida crescesse e crescer, e tende a crescer. Alguns itens podem acabar de fora da proposta, então ela não seria definitiva, mas ela pode acabar sendo definitiva nos temas que ela tratar.

Por exemplo, se houver uma retirada no texto de questões sobre Previdência rural ou BPC, se em outro momento for necessário discutir isso, a gente só vai discutir Previdência rural e BPC. Agora, se é promovida uma suavização da proposta que seja transversal, afetando tudo, reduzindo vários parâmetros, aliviando todas as regras de transição ou muitas delas, de fato, daqui a cinco ou dez anos, a depender do que está sendo pactuado, vai precisar de outra reforma – porque não dá, por exemplo, pra ter uma idade mínima final de 60 anos pra mulher, a não ser que haja uma redução muito grande do benefício, enfim –, então o que eu quero dizer é que é possível suavizar a proposta, mas eu acho que é sempre mais interessante suavizar retirando públicos específicos, porque é até mais interessante do ponto de vista de formação de coalização, e deixar para revisitar esses pontos depois, do que desidratar de maneira geral a proposta, por exemplo, mexendo em regras de transição, porque isso provoca a necessidade de refazer essa reforma no futuro, como temos feito desde os anos 1990.

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A reforma do presidente Fernando Henrique, do presidente Lula foram importantes. Com a vantagem da retrospectiva vemos, na verdade, que elas foram reformas negligentes, brandas, suaves. É claro que se a gente olha o que elas fizeram no passado e que a situação ainda era pior – a gente não tinha, sei lá, nem idade mínima para servidor público nos anos 1990 -,  vê que foi um esforço importante, mas que hoje isso parece insuficiente e se desidratar é o que vai ficar fazendo o tempo todo, como a Itália ou a Grécia fazem reforma da Previdência de três em três anos. Vai virar um negócio tipo Copa do Mundo ou Olimpíadas, de maneira repetida, com a desvantagem de que o Brasil é muito mais pobre em termos per capita do que a Itália ou Grécia. Seria muito bom que a gente fosse a Grécia, porque significaria que a gente seria muito mais rico do que a gente é. Enfim, tem esse risco, mas há uma probabilidade grande de fazer uma boa reforma, e a bola está com o Poder Executivo.

Rio Bravo: Em termos internacionais, você mencionou o caso da Itália e da Grécia, existe um paralelo de reforma tão abrangente feita em algum país vizinho ao Brasil?

Pedro Fernando Nery: Na verdade, o sistema brasileiro destoa muito do dos nossos vizinhos, porque a cobertura previdenciária nos outros países é menor. Eles não tiveram um momento histórico, talvez, como a Constituição de 1988, então esse gasto enorme com Previdência não acontece nos nossos países vizinhos, até porque muitos, não só o Chile, têm o regime de capitalização.

Quer dizer, Previdência é muitas vezes um problema privado para boa parte da população do que só um problema do Estado, então eu acho que, como o nosso regime previdenciário é tão diferente, destoa em tantas regras, em tantos benefícios, criou-se esse filão político de Previdência, que sempre foi uma maneira muito efetiva de satisfazer grupos políticos, jogando a conta pra depois, como a gente tem essa Previdência tão desequilibrada é difícil até a gente pensar num esforço de reforma semelhante. Talvez o da Grécia.

Às vezes é até ridículo a gente pensar porque a Grécia, em alguns parâmetros, não todos, ela era até pior do que o Brasil – aposentadoria especial para músico, para padeiro, para cabeleireiro, para jornalista, tinha umas coisas aberrantes assim, 14º, 15º benefício, salário. Talvez a Grécia seja um bom exemplo nesse sentido. Mas realmente a nossa situação é um pouquinho sui generis, porque tem uma rede de cobertura muito grande, tem talvez a segunda maior folha de pagamento do mundo dentro do INSS, perdendo só para a seguridade social americana, gasta em relação ao PIB e em relação ao nosso estágio demográfico mais do que qualquer outro país, então é difícil pensar num exemplo histórico internacional de reforma parecida com a que tem que ser feita aqui.

Rio Bravo: Os políticos que agora têm a chance histórica de fazer essa mudança, na sua avaliação, eles estão conscientes do tamanho da responsabilidade?

Pedro Fernando Nery: Teve uma renovação grande no Congresso Nacional. Em tese, essa renovação se deu, principalmente, por um partido considerado liberal. A gente sabe que entrou um pessoal liberal novo no Congresso, muito convicto, um grupo que ainda que seja minoritário é bem organizado. Estamos falando, por exemplo, do Partido Novo, do Kim Kataguiri, que é um fenômeno.

Por outro lado, tem também uma renovação no Congresso que se deu muito pelo funcionalismo público, pelos militares, então tem um dilema grande aí, uma dúvida sobre o que vai prevalecer em relação a essa renovação — o aspecto liberal, a direita, ou o aspecto corporativista de parte desses parlamentares, inclusive parte de parlamentares que são até mesmo aposentados já pelo serviço público. Então, fica essa dúvida, mas estamos vivendo um momento muito grande de renovação na política nacional. A eleição do ano passado para o governo federal, para o Congresso, para governos estaduais foi o pesadelo de qualquer cientista político, porque ele tende a ter errado muitos calls ali, então hoje tenho fé que essa renovação tende a trazer alguma mudança em relação à dificuldade ou facilidade de aprovar uma reforma como essa.