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Economist elogia recuperação da credibilidade do Brasil, mas alerta: “não é suficiente”

Os novos gestores brasileiros mal começaram a lidar com todos os problemas, diz revista britânica, que também falou sobre a relação entre Brasil e México

SÃO PAULO – Na edição desta semana, a revista The Economist apresentou dois artigos sobre o Brasil: um tratando da política econômica do governo, traçando um cenário crítico, mas mais otimista, e outro falando da relação entre o Brasil e o México, após a visita de estado da presidente brasileira Dilma Rousseff ao país.

A revista britânica ressalta que, apesar da economia fraca e da presidente enfraquecida, o governo está conseguindo conquistar credibilidade no campo fiscal, campo este desperdiçado pela presidente em seu primeiro mandato, entre 2011 e 2014. “Ela tem dado forte apoio ao seu ministro da Fazenda, Joaquim Levy, para realizar os cortes de orçamento necessários. O Banco Central voltou a lutar a sério contra a inflação. O Congresso brasileiro, dominado por aliados não confiáveis do governo e opositores definitivos, até agora não conseguiu impedi-los”, afirma.

A prioridade de manter o grau de investimento do Brasil através do corte de gastos de Levy ficou mais perto de acontecer com a aprovação das Medidas Provisórias que endurecem as regras para recebimento de seguro-desemprego e pensões. Anteriormente, houve o contingenciamento de quase R$ 70 bilhões, destaca a revista. 

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Contudo, “Levy não tem tudo o que queria”, afirma a The Economist, uma vez que outros projetos, como o que reverte a desoneração da folha de pagamentos, sofre uma forte oposição no Congresso. Além disso, poucos acreditam que o ministro alcançará a sua meta de superávit primário de 1,2% do PIB este ano e 2% ano que vem. Contudo, isso pode satisfazer os avaliadores da nota de crédito. Segundo Lisa Schineller, da agência de classificação de risco Standard & Poor’s, a mudança na política com Levy tem sido maior do que a esperada.

Os observadores internacionais também estão impressionados, diz a revista, com o presidente do Banco Central Alexandre Tombini, que não permitiu que a recessão o impedisse de combater a inflação, acima de 8%. O BC aumentou os juros em 0,5 ponto percentual ontem, para 13,75% ao ano com o objetivo de trazer a inflação para o centro da meta de 4,5% ao ano em 2016. Para isso, podem ser necessárias novas altas.

Traçando um paralelo com os restaurantes mais vazios da cidade de São Paulo, a maior do País, em meio à crise econômica, a revista destaca que as diligências de Levy e Tombini serão tão ermas quanto.

A economia é ainda mais fraca do que parece à primeira vista. O investimento, já baixo pelos padrões de economias emergentes, caiu para o sétimo trimestre consecutivo nos três primeiros meses de 2015. O consumo das famílias caiu pela primeira vez na base anual desde que o PT chegou ao poder em 2003. Sem uma redução nas importações, o declínio anual na economia teria sido ainda maior. Levy fez a maior parte de suas economias aumentando impostos, que deprimem o crescimento hoje, e cortando investimentos, o que vai comprometer o amanhã.

Assim, afirma a revista, restabelecer a credibilidade não é suficiente. O Brasil também deve se livrar de “gargalos do lado da oferta”, observou Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI, que visitou o Brasil em maio. Dentre eles, um sistema complexo de tributos, falta de infraestrutura e leis trabalhistas antiquadas. “Os novos gestores brasileiros mal começaram a lidar com tudo isso”.

Brasil e México
Após a visita de Estado de Dilma ao México, a revista ainda destacou a relação um tanto quanto distante entre os dois países. Ela e o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, prometeram um novo recomeço na área do comércio e assinaram acordos para facilitar o investimento e expandir as ligações aéreas. Eles brindaram com tequila mexicana e cachaça brasileira.

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A publicação destaca que o Brasil e o México são dois gigantes da América Latina. Eles são responsáveis por mais de metade da população, PIB e das exportações da região. E ainda assim eles têm ignorado o outro. O comércio bilateral, apesar de ter dobrado, segue fraco. 

E, segundo a The Economist, pode-se muito bem ser descrente sobre a revista. Isso porque ambos os presidentes possuem governos impopulares feridos por escândalos, promessas de antecessores terem se mostrados vazias, além de serem separados por idioma e distância. A visão de mundo dos dois também difere.

Contudo, afirma a revista, com a economia em baixa, Dilma está procurando priorizar o comércio exterior e retomar relações com os outros países. Ela falou de um novo “eixo tequila-caipirinha” entre o Brasil e o México.

Se as duas grandes potências trabalharem juntas, a região estaria mais próxima de cooperação em problemas como o desrespeito das normas democráticas na Venezuela, diz o jornal. No entanto, a insinuação de Dilma em relação ao México parece ser parte de uma mudança tática, não uma mudança fundamental, na política externa. E Peña não mostra nenhum sinal de mudança. “Tequila e caipirinha são ambos inebriantes, mas a maioria das pessoas prefere não misturá-los”, conclui a revista.