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“É impossível não sentir pena do Brasil”, diz ex-correspondente do The Guardian

Após cinco anos como correspondente, jornalista Jonathan Watts destacou suas preocupações sobre o País: "o  Brasil entrou em marcha à ré em praticamente todas as frentes''

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SÃO PAULO – Em um longo texto, o jornalista do britânico “The Guardian” Jonathan Watts destacou suas reflexões sobre os cinco anos em que viveu no Brasil após sair da China e vir para o País como correspondente. Watts se despede do Brasil após cinco anos e traz um artigo em que mostra as decepções e as surpresas positivas que teve durante o período vivido aqui.

”É impossível não sentir pena do país. O Brasil entrou em marcha à ré em praticamente todas as frentes”, afirma, após chegar no País cheio de expectativas frente o que aparentava ser a grande promessa mundial. Dentre os problemas, Watts destaca a contração de 9% da economia brasileira, o forte aumento do desemprego, a elevação do desmatamento na Amazônia e também os números crescentes dos assassinatos violentos. 

“Não surpreendentemente, a população nunca foi tão frustrada com o governo como antes. Cinco anos atrás, a então presidente Dilma Rousseff recebeu aprovação de 64%, que caiu para 10% na época do impeachment no ano passado. O seu sucessor, Michel Temer, é ainda mais impopular. Uma pesquisa recente mostra que apenas 2% dos eleitores pensam que ele faz um bom trabalho”, aponta o jornalista da publicação britânica, ressaltando também o tumulto político generalizado no país.

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Watts ressalta este tem sido um período espetacularmente tumultuado, abrangendo o impeachment de um presidente, a pior contração econômica em cem anos, o maior escândalo de corrupção na história do país, milhões de pessoas que tomaram as ruas em protestos, uma derrota por 7 a 1 na Copa do Mundo para a Alemanha, uma epidemia pré-olímpica de zika e ressurgimento de crimes violentos e destruição ambiental. “Meus amigos jornalistas brasileiros não sabem dizer se sentem-se gratos pela abundância de trabalho ou horrorizados com o dilúvio de histórias miseráveis”, afirma ele.

Segundo Watts, de certa forma, a história do Brasil de 2012 a 2017 foi o inverso da China de 2003 a 2012. “No maior país da Ásia, observei algumas vezes uma brutal estabilidade e um crescimento econômico espetacular. Na América Latina, testemunhei tumulto e contração”, afirma o jornalista.

Ele aponta o choque cultural em sua mudança da China para o Brasil, o que esperava e o que encontrou mais tarde. ”Uma das razões pelas quais mudei da China para o Brasil para me tornar correspondente da América Latina, em 2012, foi procurar um modelo de desenvolvimento mais sustentável. O Brasil parecia, naquela época, fazer muitas coisas corretas. Sua economia em expansão acabava de ultrapassar a do Reino Unido; o popular governo de esquerda estava reduzindo a desigualdade; o desmatamento da Amazônia estava diminuindo; os negociadores brasileiros tiveram um papel positivo nas negociações sobre clima e biodiversidade; e minha nova casa, no Rio de Janeiro, estava prestes a sediar a Rio+20, a final da Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016”, afirma. 

Segundo ele, por outro lado, a China parecia mais interessada em busca por educação. Já os brasileiros aparentavam ser mais superficiais, enquanto a burocracia e a falta de ambição do país também causaram impressões negativas. ”Ficou claro que haviam me vendido uma imagem sobrevalorizada do Brasil. Longe de ser um novo modelo, os últimos cinco anos se provaram um estudo de caso em como não governar um país”, ressalta. 

Watts destaca que sentirá saudades do País – contudo, o tom predominante é de preocupação, em meio à grande gama de problemas brasileiros que não possui perspectiva de ser resolvida.