Do lado de lá da fronteira: a complexa crise econômica dos vizinhos argentinos

Pouca credibilidade, inflação galopante, crise energética e instabilidade política são uns dos desafios de Cristina Kirchner

SÃO PAULO – “Em suas últimas quatro administrações, a política econômica brasileira manteve-se praticamente estável, com superávits orçamentários, aperto monetário, acumulação de reservas e livre fluxo de capitais. Em contrapartida, a Argentina tem mantido taxas de juros nominais negativas, controlado o fluxo de capital e imposto uma série de entraves às exportações e preços”.

A frase pertence aos analistas do Bradesco, mas bem resume a disparidade entre os cenários macroeconômico brasileiro e argentino de hoje. De um passado turbulento compartilhado, um misto de dívidas estratosféricas com altíssima inflação, os países vizinhos nunca pareceram tão distantes – ao menos no que concerne ao momento vivido por suas economias.

Prova disso é a avaliação das agências estrangeiras de classificação de risco. Enquanto o Brasil conquistou a tão sonhada posição de grau de investimento, a Argentina teve na última terça-feira (12) seu rating reduzido por parte dos analistas da Standard & Poor’s, figurando agora lado a lado com países como Paraguai e Jamaica, em face de “crescentes desafios econômicos”, nas próprias palavras da agência.

Mascarando dados e estatísticas

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De fato, desafio é o que não falta ao governo da presidente Cristina Kirchner. Um dos pontos ressaltados pela Standard & Poor’s é a falta de credibilidade das estatísticas oficiais divulgadas pela Casa Rosada, tanto entre o próprio povo argentino quanto entre os investidores estrangeiros. Isto porque o índice de preços ao consumidor estaria sendo habilmente manipulado para disfarçar a disparada da inflação no país.

De acordo com os números oficiais do governo, a inflação anual argentina encontra-se ao redor dos 9,1%, número por si só alarmante. Mas projeções privadas de analistas e consultorias delineiam um cenário consideravelmente pior, com uma inflação em doze meses beirando os 30%. A manipulação dos dados vem dando origem a uma desconfiança generalizada acerca dos indicadores argentinos, inclusive em torno das medições do PIB (Produto Interno Bruto).

Mantendo a tradição de “vazar” informações oficiais, Cristina Kirchner declarou em discurso transmitido pela televisão argentina que o PIB do país cresceu 6,5% nos doze meses encerrados em junho. A divulgação oficial dos dados está prevista para a próxima sexta-feira. Caso se confirme o resultado antecipado pela presidente, o desempenho econômico ficou aquém das projeções compiladas pelo Banco Central local, de 6,9%.

Desta forma, não é de se estranhar que o fluxo de investimentos estrangeiros ao país venha se mostrando abalado nos últimos tempos. Afinal, como aplicar capital em uma economia que não fornece informações precisas ao mercado? “Poucos investidores se esqueceram dos prejuízos obtidos à época do último calote dado pela Argentina. Conseqüentemente, os mercados se tornaram extremamente sensíveis aos acontecimentos no país”, observam os analistas do Lehman Brothers.

Inflação é só uma das mazelas

Mas se o governo argentino chegou ao ponto de mascarar indicadores e estatísticas macroeconômicas, é porque a profundidade dos problemas em que o país se encontra imerso não é pouca. A disparada da inflação por lá não é a única mazela enfrentada, pelo contrário: é apenas um dos componentes de uma fórmula extensa e intrincada, de difícil solução, ao menos no curto prazo.

A falta de credibilidade junto ao olhar externo resulta em um aumento contínuo do prêmio de risco, forçando o governo a arcar com juros cada vez maiores quando do refinanciamento de suas dívidas. Um ciclo vicioso e extremamente perigoso. Mais alarmante ainda é a forma com que o país vem atendendo às suas necessidades de financiamento, como bem ressalta o Lehman Brothers: recorrendo à Venezuela, que freqüentemente atua no mercado de forma no mínimo nebulosa ao comprar títulos argentinos.

Mas ainda não é tudo: a Argentina vem sofrendo nos últimos meses com a crise de energia que assola o país. A falta de investimentos no setor aliada ao desordenado crescimento econômico desde o calote de 2001 não tardou para deflagrar um ambiente de aguda escassez de oferta de energia. Nesse contexto emaranhado por si só, “a deterioração do cenário externo deve agravar ainda mais a situação, gerando risco de novos episódios desestabilizadores em um futuro não tão distante”, afirma a Merrill Lynch.

Além de tudo, instabilidade política

Por “episódios desestabilizadores”, a equipe da Merrill Lynch faz uma clara alusão ao complicado momento político por qual passa Cristina Kirchner. Para uma melhor compreensão dos atuais eventos, certa retomada no tempo é necessária. Assumindo o posto antes pertencente a seu marido, Néstor Kirchner, a atual presidente da Argentina foi eleita no final do ano passado com a promessa de prover o país de uma mudança econômico-social.

No lastro do carisma de Néstor, Cristina desfrutava ao começo desse ano de uma aprovação de cerca de 60% dos argentinos. Nos últimos meses, menos de um quarto do povo aprovava as medidas adotadas pelo governo de sua presidente. Muito de tal desgaste deve-se à postura de Cristina Kirchner em relação à política comercial da Argentina, especialmente no que concerne à exportação de produtos agrícolas.

Pressionada pela crise dos alimentos no mercado internacional e, de outro lado, pela disparada dos preços também em solo interno, Cristina optou por elevar de forma expressiva diversas barreiras alfandegárias a produtos como soja e trigo, grandes contribuintes do PIB do país. Entretanto, o tiro logo saiu pela culatra: os fazendeiros viram suas margens de lucros serem sensivelmente decrescidas e não demoraram muito para instaurar no país um clima de latente instabilidade política, e, por consegüinte, agravar o ambiente econômico.

Tudo igual do lado de lá

“A inflação e as conturbações de fundo político continuarão a acrescer o risco de um ‘hard landing’ (expressão usada pelo mercado que poderia ser traduzida como “pouso forçado”, isto é, uma abrupta desaceleração econômica) na Argentina”, afirma a Merrill Lynch. “Não esperamos uma reestruturação da política econômica no país antes do final de 2009”, sentenciam, por sua vez, os analistas do Lehman Brothers.

De fato, otimismo é algo que não se vê nas leituras majoritárias do mercado para o curto e médio prazo econômico da Argentina. A equipe do Bradesco não é exceção: “tudo deverá permanecer igual do lado de lá da fronteira, com políticas heterodoxas, turbulências políticas e uma administração com cada vez menos controle da situação”.

Kirchner se encontra em uma “encruzilhada”. De um lado, a manutenção de sua postura, caracterizada por baixas tarifas públicas, uma taxa básica de juro praticamente irrisória quando comparada à atual situação econômica do país e altos subsídios concedidos a setores como de transporte público, deve pouco a pouco minar cada vez mais sua aprovação política e o futuro da economia argentina.

De outro lado, assumir medidas previsivelmente impopulares em um tempo de extrema fragilidade política pode ser fatal à estabilidade de Cristina no posto mais alto da Casa Rosada. De uma forma ou de outra, se as nuvens são negras por lá, por aqui, o clima indubitavelmente melhorou de anos para cá. “Os efeitos da crise argentina sobre o Brasil devem ser mínimos e menores do que os sentidos no calote dado pelo país em 2001”, conclui a equipe do Bradesco.

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