Distúrbios políticos gerados por crise podem dificultar recuperação

Com instabilidades domésticas e internacionais, 2009 poderá repetir distúrbios de 1968 e prenunciar alteração estrutural

SÃO PAULO – Enquanto as preocupações de boa parte dos analistas se volta para os riscos imediatos da crise sobre a economia global, a equipe de pesquisadores do banco BBVA decidiu dar um passo adiante e estudar possíveis consequências políticas da atual crise financeira.

A preocupação dos analistas financeiros é natural, pois distúrbios nos ambientes políticos domésticos e internacional acarretam riscos adicionais para a atividade econômica, podendo dificultar ainda mais a recuperação dos mercados.

Transbordamento

Com o alastramento dos problemas financeiros para os fundamentos econômicos de quase todos os países, as tensões internas devem ser majoritariamente causadas por problemas sociais – desemprego em alta, queda nos padrões de vida – e incapacidades de instituições para suportar as pressões. “Algumas convulsões menores relacionadas à crise já ocorreram em países como Islândia, Grécia, Bulgária e Letônia”.

Nada que se aproxime da década de 1930, quando a crise econômica internacional esteve diretamente ligada à ascensão de grupos políticos de ideologia radical. Especialmente em países de grande população jovem, recém egressa das universidades, preveem que 2009 poderá ser tão conturbado como o ano de 1968.

“Países com tradições democráticas, resolução não-violenta de conflitos, redes de proteção social desenvolvidas e instituições independentes para promover segurança (judiciário, polícia) devem se sair melhor”, afirmam os analistas.

Um a um

Ainda assim, sugerem que a análise deve ser feita caso a caso, levando-se em conta aspectos específicos como a cultura política e sua habilidade para lidar com intranqüilidades derivadas de uma recessão econômica.

China e Rússia são objeto de atenção especial por parte dos analistas. No caso da primeira, espera-se que a redução das taxas de crescimento econômico leve a grandes frustrações, que podem resultar em conturbações sociais por não existirem canais democráticos para sua expressão e mudança.

Já em relação à Rússia, teme-se que a forte redução da capacidade de investimento do Estado, por conta da forte dependência dos preços de petróleo, conjugada a tendências autocráticas e centralizadoras crescentes, também seja causa de conturbações domésticas.

Sob ponto de vista diferente, os países da União Européia também podem enfrentar problemas, ressalta o relatório, cujo termômetro serão as próximas eleições para o Parlamento Europeu, em junho. Podem pesar o crescimento da xenofobia e do racismo, bem como o fortalecimento de grupos hostis à globalização e ao livre mercado.

Relações internacionais

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Como decorrência das dificuldades domésticas, poderão surgir atritos no plano externo, ressaltam os analistas do BBVA. Além da adoção de mecanismos protecionistas, governantes podem ser tentados a desviar o foco dos problemas para outros países, em uma espécie de jogo de culpa. Exemplo disto seria o endurecimento do discurso norte-americano em relação à política chinesa para a manutenção da depreciação do iuan em relação ao dólar.

O estudo cita também o antigo secretário de estado norte-americano e expoente do pensamento realista das relações internacionais, Henry Kissinger, que recentemente declarou haver relação direta entre as crises econômica e política atuais, uma vez que, durante o recente ciclo de crescimento, houve a abertura de um espaço entre a distribuição das capacidades econômicas e a configuração da arena internacional.

Transformações

Tidas como reflexo da distribuição relativa de poder entre os Estados, as organizações internacionais políticas e econômicas como o conselho de segurança da ONU, o FMI e o banco mundial, não foram capazes de acompanhar a evolução de países como os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), cuja participação na oferta global aumentou de 7% para 11% nos últimos cinco anos, ao passo em que a dos Estados reunidos no G7 (EUA, Japão, Reino Unido, Alemanha, Itália, França e Canadá) caiu de 65% para 58% no mesmo período, afirma o relatório.

Somados estes fatores ao declínio dos EUA em sua condição de maior potência global, os analistas entendem que “a crise acelerará a mudança rumo a um mundo multipolar”. Todavia, indefinições em relação a como esta transformação ocorrerá podem levar a um vácuo de poder e a maiores instabilidades nos próximos anos, conclui o estudo.