Dias difíceis à frente

Dilma Rousseff promete ajuste econômico com mínimo de dor, mas…

Para cientista político, o mal mal-estar econômico se espalhará para os consumidores e o escândalo de corrupção imporá uma agenda legislativa negativa

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2 de janeiro – A presidente Dilma Rousseff disse que restringirá o orçamento e aumentará o investimento e a produtividade no Brasil em um esforço para recuperar o crescimento econômico, reduzindo, ao mesmo tempo, os “sacrifícios” impostos à população.

“Vamos provar que se pode fazer ajustes na economia sem revogar direitos conquistados ou trair compromissos sociais assumidos”, disse Dilma ontem durante a cerimônia de posse de seu segundo mandato. “Mais do que ninguém, eu sei que o Brasil precisa voltar a crescer”.

Desde que Dilma Rousseff, 67, assumiu o lugar de seu mentor Luiz Inácio Lula da Silva, quatro anos atrás, o déficit orçamentário mais do que dobrou para 5,8 por cento do produto interno bruto e o crescimento econômico chegou a uma estagnação após uma expansão de 7,5 por cento em 2010. A inflação permaneceu acima do centro da faixa-meta ao longo do seu primeiro mandato.

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Dilma, que saiu vencedora do segundo turno da eleição, no dia 26 de outubro, pela margem mais estreita de todos os presidentes desde 1945 pelo menos, nomeou uma nova equipe econômica e anunciou cortes de gastos. O Banco Central elevou a taxa básica de juros duas vezes desde a eleição para conter o aumento da inflação.

Embora essas medidas sejam um primeiro passo para evitar um rebaixamento do rating de crédito, a pergunta é se Dilma terá o apoio político para manter o curso, disse Rafael Cortez, analista político da Tendências, firma de consultoria com sede em São Paulo.

‘Mal-estar econômico’
“O mal-estar econômico se espalhará para os consumidores e o escândalo de corrupção imporá uma agenda legislativa negativa”, disse Cortez, em entrevista por telefone antes do discurso da presidente. “No melhor cenário, ela conseguirá recuperar parte da credibilidade do investidor e pavimentar o caminho para um crescimento moderado. O pior cenário é que teremos uma presidente sem poderes políticos em um ano ou dois”.

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que juntamente com outros membros do gabinete também já foi empossado, promete buscar um superávit primário de 1,2 por cento do produto interno bruto neste ano e de pelo menos 2 por cento do PIB em 2016 e em 2017. Em 2014 o rating de crédito do Brasil sofreu um rebaixamento pela primeira vez em mais de uma década. O resultado primário do orçamento registrou um déficit de 0,18 por cento do PIB nos 12 meses até novembro, primeiro déficit anual da história.

No dia 29 de dezembro, o governo anunciou cortes nos benefícios de pensionistas e desempregados, por meio dos quais serão economizados estimados R$ 18 bilhões (US$ 6,8 bilhões). As autoridades também aumentaram a taxa para empréstimos de longo prazo garantidos pelo BNDES, de 5 por cento para 5,5 por cento.

Benefícios sociais
Os gastos com benefícios sociais, que ajudaram a assegurar o apoio a Dilma entre os eleitores de renda mais baixa, em particular na região Nordeste, uma das mais pobres, não sofrerão cortes, disse Dilma. O governo construirá mais 3 milhões de casas de baixo custo, expandirá os serviços comunitários de saúde e oferecerá mais formação profissional, disse ela.

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Dilma disse ontem que a inflação continuaria dentro da faixa-meta. Como parte de um esforço para melhorar o clima empresarial e a produtividade do país, ela prometeu reduzir a burocracia, melhorar as regras para impulsionar o mercado de dívidas a longo prazo e estender os atuais incentivos fiscais e as declarações simplificadas para mais pequenas empresas. O governo de Dilma também apresentará um novo plano para investimentos públicos e privados em logística, energia e infraestrutura urbana.

Um escândalo relacionado a um suposto pagamento de propina em contratos com a empresa estatal Petrobras também ameaça minar o apoio de Dilma e criar um entrave no Legislativo, disse Cortez. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, disse no dia 17 de dezembro que pedirá, em fevereiro, que cerca de 30 membros do Congresso sejam investigados, segundo o jornal O Globo.

Dilma disse ontem que contava com o Congresso para implementar as medidas necessárias para a arrancada da economia e para tornar a política brasileira mais transparente.

‘Inimigos externos’
O governo trabalhará para implementar uma governança mais estrita na Petrobras, disse Dilma, sem dar detalhes. “Temos muitos motivos para preservar e defender a Petrobras de predadores internos e de seus inimigos externos”.

Mais de dois em cada três brasileiros consultados pelo Datafolha dizem que Dilma tem alguma responsabilidade sobre o escândalo de corrupção na Petrobras, segundo uma pesquisa com 2.896 pessoas realizada nos dias 2 e 3 de dezembro, com uma margem de erro de dois pontos porcentuais para mais ou para menos.

Ela se reuniu com o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, em Brasília após a cerimônia de posse. Dilma visitará os EUA neste ano, segundo o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante. Ela cancelou uma visita de Estado a Washington em setembro de 2013 quando acusações de espionagem americana prejudicaram as relações entre as duas maiores economias das Américas.

A assessoria de imprensa presidencial não respondeu a um pedido de comentário enviado por e-mail a respeito da pesquisa do Datafolha e do impacto do escândalo em seu apoio no Congresso.