Repercussão

Dilma II reencontra o Dilma I? Veja 10 opiniões sobre a chegada de Barbosa na Fazenda

Para economistas, entrada de Nelson Barbosa no lugar de Joaquim Levy sugere um ajuste fiscal ainda mais lento e temores de volta para a heterodoxia, aumento receio do mercado; políticos divergem

SÃO PAULO – A entrada de Nelson Barbosa no ministério da Fazenda no lugar de Joaquim Levy, nome que ganhou forças nesta sexta-feira e que foi confirmado pelo Palácio do Planalto no cargo no início da noite de hoje, avaliza oficialmente o reencontro do governo Dilma II, que começou com a missão de realizar o ajuste fiscal, com o Dilma I, quando foram feitas políticas de expansão do crédito e de aumento dos gastos públicos. 

Esta é a avaliação de boa parte dos economistas, que reforçam que a chegada de Barbosa na Fazenda, um dos mentores intelectuais da “nova matriz econômica”, deve trazer ainda mais incertezas para o mercado. Enquanto isso, no meio político, as opiniões sobre o novo ministro divergem, dependendo da visão sobre o papel do Estado na economia. Confira abaixo as repercussões: 

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ALBERTO RAMOS, DIRETOR DE PESQUISA ECONÔMICA PARA AMÉRICA LATINA, GOLDMAN SACHS 
Em relatório, o economista do Goldman Sachs, Alberto Ramos, ressalta que, apesar da sua reconhecida competência, determinação e espírito de serviço público, Levy foi incapaz de implementar o ajuste fiscal devido a uma série de restrições, tanto dentro como fora do governo. “Como tal, nós julgamos que o mercado não receberá bem a saída de Levy, tanto porque representa a saída de um ministro talentoso, quanto é um sinal de volta para a heterodoxia fiscal”, avalia Ramos, em relatório em que citou o “Matrix: Reloaded”. 

“Levy foi ineficiente, incapaz de implementar sua visão fiscal, mas ele estava tentando. O medo é que vai haver menos tentativa e eventualmente uma volta para o lado heterodoxo.”

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Barbosa é visto como uma das forças intelectuais por trás da chamada “nova matriz econômica” implementada pelo ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega. “A partir de declarações públicas recentes, esperamos que Barbosa e a presidente Dilma Rousseff favoreçam um ajuste mais gradual, um caminho mais lento do ajuste fiscal. Vemos isso como uma estratégia arriscada, dado que, na nossa avaliação, a consolidação orçamentária continua a ser o centro das atenções do necessário reequilíbrio da agenda macroeconômica e o pilar por excelência para restaurar a confiança e estabilizar a economia”. 

Contudo, “o ministro da Fazenda pode ter mudado, mas a agenda fiscal permanece a mesma. O ajuste fiscal está cada vez mais urgente”. Desta forma, os próximos dias serão críticos para a presidente e para o ministro, mais do que retoricamente, para indicar se o governo segue empenhado em oferecer um ajuste fiscal significativo, que deve ser seguido de um aprofundamento das medidas. 

Por outro lado, “a principal preocupação do mercado é que o quadro político complexo, o início de um processo de impeachment contra o presidente e a pressão crescente de alguns partidos políticos e movimentos sociais próximos ao governo para uma nova direção política pode levar a administração a suavizar o compromisso com a austeridade fiscal, e, na pior das hipóteses, sucumbir à tentação do populismo fiscal”, conclui Ramos.  

JOÃO RICARDO COSTA FILHO, PEZCO MICROANALYSIS
De acordo com o economista da Pezco Microanalysis, João Ricardo Costa Filho, a economia está precisando de ajuste fiscal e ele está ocorrendo de uma forma mais lenta. Ele também destaca que, com a entrada de Nelson Barbosa, talvez demore ainda mais tempo para a realização do ajuste fiscal. Além disso, o governo de Dilma II pode voltar a flertar mais claramente com o Dilma I.

Para ele, 2016 começa com incertezas maiores do que 2015 (quando o Brasil havia acabado de passar por um processo eleitoral), já que a presidente Dilma Rousseff tem que enfrentar um processo de impeachment, a economia está ainda mais em baixa, há a troca da equipe econômica e as decisões de investimento estão paralisadas. Costa Filho também ressalta que o investimento possa cair ainda mais dadas as incertezas com o novo ministro, afetando assim a economia.

Sobre a hipótese de Nelson Barbosa ser um “ministro tampão”, até que o governo consiga um outro nome mais pró-mercado, o economista avalia que não acredita que isso aconteça. “Claro, temos que ver se a presidente continua ou não no cargo em meio ao processo de impeachment, mas não acredito que seja um ministro tampão uma vez que ele está em linha com as ideias da presidente”.

ALEX AGOSTINI, ECONOMISTA-CHEFE, AUSTIN RATING
“O mercado deve ficar azedo na segunda-feira por essa postura (do ministro Nelson Barbosa) mais flexível aos interesses do governo, mais expansionista.”

“Não é nada saudável neste momento que a gente precisa de pulso firme e mais austeridade.”

“Acho que o governo avaliou que já que perdemos o grau de investimento e vai ser difícil recuperar tão cedo, decidiu fazer o que queria fazer desde o início, que é seguir para o lado mais expansionista.”

ADAUTO LIMA, ECONOMISTA-CHEFE DA WESTERN ASSET
O economista-chefe da Western destaca que as decisões da política econômica estão muito mais ligadas à presidente Dilma Rousseff que ao titular da Fazenda, quem quer que seja. O especialista pondera, no entanto, que o nome de Barbosa leva mais insegurança aos mercados.

“O Barbosa sempre teve uma visão diferente quanto à política fiscal a ser adotada, principalmente na maneira de encarar uma retração econômica, como a atual”, afirmou. Sobre os efeitos do nome de Barbosa nos mercados, Lima destaca que já houve movimentos de ativos em decorrência das especulações em torno de uma iminente saída de Levy. “Os mercados já pioraram nos últimos dias com os rumores sobre Levy. Parte do aumento da insegurança já foi precificado, mas ainda pode haver mais efeitos sobre os preços”, estimou.

Para Lima, há dúvidas sobre que mudanças o novo ministro pode adotar, mas medidas mais heterodoxas, como as implementadas por Guido Mantega, dificilmente são uma alternativa. “A situação hoje é muito diferente do ponto de vista de credibilidade e de recursos que se tinha no passado”, ponderou. “Com o Mantega, houve a capitalização de bancos públicos para fomentar crédito e estimular o crescimento. Hoje, vejo como muita dificuldade isso acontecer, até porque houve a perda do grau de investimento, o que aumenta os custos de capitalização”, disse.

PAULO RABELLO DE CASTRO, SÓCIO DA AGÊNCIA SR RATING
“O governo está deixando mais claro que prefere partir de zero de credibilidade em política econômica para um número negativo.”

“Houve um embate entre o ministro super gastador e outro ajustador e o primeiro ganhou a queda de braço. Nossa trilha é o gasto ilimitado.”

ANBIMA
“Os representantes do mercado de capitais desejam sucesso ao novo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa. Já mantemos uma agenda conjunta com o Ministério da Fazenda que busca aumentar a participação das fontes privadas de financiamento na nossa economia e seguiremos apoiando todas as iniciativas de política econômica que contribuam para a estabilidade que o mercado precisa para crescer”.

MEIO POLÍTICO

SENADORA ROSE DE FREITAS(PMDB-ES), PRESIDENTE DA COMISSÃO MISTA DE ORÇAMENTO
“Não tenho facilidade de achar isso uma saída que agradará as diversas correntes de pensamento da área econômica.”

“Se ela (Dilma) vai fazer a política dos que pensam absolutamente iguais, não vai ter a ousadia necessária para tentar sair dessa crise. Eu realmente me surpreendi. Achei que ela não iria cair no lugar comum.”

“Nelson Barbosa é pessoa muito equilibrada, muito eficiente, mas hoje não é só isso que estamos precisando. Vamos torcer para que ele acerte na direção.”

DEPUTADO RODRIGO MAIA (DEM-RJ)
“Saída de Joaquim Levy é uma grande perda para o nosso País. Estamos agora nas mãos de economistas atrasados e rresponsáveis.”

DEPUTADA MARIA DO ROSÁRIO (PT-RS)
“A semana chega ao fim com mudança positiva no Ministério da Fazenda. Nelson Barbosa possui mais proximidade com programa eleito nas urnas do que o Joaquim Levy.”

DEPUTADO BRUNO ARAÚJO (PSDB-PE), LÍDER DA MINORIA
“É no mínimo preocupante a notícia da nomeação do ministro Nelson Barbosa para o Ministério da Fazenda. Em primeiro lugar, trata-se de um dos principais responsáveis pelo duplo rebaixamento do Brasil pelas agências internacionais de risco – por ter desprezado, seguidamente, as metas de superávit. Em segundo, e mais grave, é uma sinalização de que a presidente Dilma Rousseff quer comandar pessoalmente a economia, como indicou pela manhã desta sexta-feira (18) o ministro da Casa Civil, Jaques Wagner. A crise de confiança cresce com a mudança ministerial. O risco é de aumento da turbulência financeira, e de aprofundamento da recessão”. 

(Com Reuters e Agência Estado) 

 

 

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