Política & Bolsa

Dilma dependerá mais de marketing do que de Mantega para ganhar eleições, diz LCA

Índice criado pela consultoria mostra que a atual presidente tem uma situação menos confortável que a de Lula e FHC

SÃO PAULO – Em meio ao cenário nebuloso para as próximas eleições presidenciais de 2014, os consultores da LCA elaboraram um estudo de modo a estabelecer uma relação entre os fatores econômicos e a popularidade do governo. Para isso, eles estabeleceram uma comparação com o ICE (índice que mede o conforto econômico) composto pela inflação, desemprego, salário mínimo e produção industrial – e a avaliação positiva dos governos Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff.

A correlação entre o ICE e a avaliação é mais elevada no período de FHC e Lula e é nula para o governo para o governo Dilma. Tanto a reeleição de FHC quanto a de Lula foram favorecidas pela melhora do ICE, afirma a LCA, enquanto Dilma não será auxiliada pela economia. 

A LCA reforça que o objetivo deste texto não é recontar analiticamente a interação entre fatores econômicos e a popularidade do governo, mas sim tentar extrair desse exercício elementos que ajudem a reduzir as incertezas acerca da capacidade da presidente Dilma de conquistar nas urnas o segundo mandato.

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No primeiro momento: ruim para Dilma
A consultoria ressalta que ainda é preciso adotar mais rigor formal ao modelo econômico da análise mas, de qualquer modo, as conclusões preliminares não são boas para a presidente. Tanto a reeleição de FHC quanto a de Lula foram favorecidas pela melhora do ICE. Dilma, por sua vez, não será auxiliada pela economia. Inflação e desemprego deverão se manter até outubro mais ou menos estáveis nos atuais patamares. O reajuste do salário mínimo já ocorreu e foi pouco significativo.

Já a produção industrial não deverá se acelerar significativamente até a eleição. É certo, contudo, que, se não ajudará, a economia tampouco decretará a impossibilidade de Dilma se reeleger, afirma a LCA. Sem a alavanca da economia, a possibilidade de Dilma se reeleger dependerá, sobretudo, de sua capacidade de restabelecer ao menos parcialmente a imagem positiva de seriedade e competência que lhe favorecia até meados do ano passado.

“Ou seja, dependerá menos de Guido Mantega e mais do marqueteiro João Santana, assim como dos desdobramentos das denúncias que têm recheado o noticiário dos jornais e da percepção do eleitorado em relação ao ‘legado da Copa'”, ressalta a consultoria.

Entendendo melhor o ICE
O ICE foi construído a partir de quatro variáveis: inflação (INPC acumulado na média de 12 meses), taxa de desemprego, variação do salário mínimo real na média de 12 meses e a evolução da produção física da indústria geral (IBGE), considerada uma proxy para a atividade econômica.

Contudo, a consultoria ressalta que, sozinho, o índice de conforto econômico não é um bom indicador da evolução da avaliação do governo, mas destaca a combinação entre os fatores econômicos e políticos para tanto, afirmando ser absurdo ignorar a economia quando se analisa a política, igualmente absurdo seria imaginar que a economia explica integralmente a política.

Os consultores destacaram três períodos diferentes: o do governo FHC, Lula e Dilma. Confira abaixo:

FHC: a mais alta correlação
Dentre os três, o período FHC foi o de mais alta correlação entre o ICE e a taxa de aprovação 0,32 contra 0,29 de Lula e -0,01 de Dilma. “Faz sentido que a economia tenho sido mais importante para FHC. Afinal, ele se elegeu presidente graças a um plano econômico”, avaliam os consultores. 

E houve duas fases: a primeira, de janeiro de 1997 a janeiro de 1999, a tendência foi positiva e, depois, o viés foi negativo. Quanto à aprovação ao governo, a tendência geral, do começo ao fim da série, foi negativa, com oscilações no meio do caminho. 

A consultoria avalia que, nos períodos eleitorais enfrentados pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, o ICE mostra que a economia contribuiu para reeleição em 1998 e ajudou a pavimentar o caminho para a derrota do PSDB em 2002. A inflação foi a variável que mais contribuiu para a melhora do ICE em 1998 – chegou a 2,49% no acumulado em 12 meses em dezembro de 1998 – e para a piora em 2002 – inflação de 14,2% em dezembro de 2002.

Lula: duas fases diferentes
Considerando os oito anos do governo Lula, também é possível dividir a evolução do ICE em duas fases: francamente ascendente, de janeiro de 2003 a novembro de 2006; e levemente descendente, do final de 2006 até dezembro de 2010.

A redução da inflação e a forte elevação do salário mínimo em 2006 foram as variáveis que mais contribuíram para a elevação do ICE na fase ascendente, enquanto o recuo ocorreu pela alta moderada da inflação, dos tropeços da produção industrial em decorrência da crise de 2008-2009 e da redução do percentual de reajuste do salário mínimo, vis-à-vis o que foi concedido em 2006. Por outro lado, a queda do desemprego ajudou a conter a deterioração do ICE, destaca a consultoria.

A aprovação de Lula tem dois vales: junho de 2004 e dezembro de 2005, sendo que o último se seguiu um crescimento contínuo da popularidade do governo Lula, o qual se encerrou com aprovação recorde de 82%. O primeiro vale parece ter sido decorrente das consequências das medidas de ajuste macroeconômico tomadas pelo presidente Lula em 2003. Apesar de o ICE ter começado a subir no último trimestre de 2003, o impacto da melhora econômica sobre a avaliação do governo ocorreu apenas em meados de 2004.

O segundo vale foi produzido pelo mensalão, um evento exclusivamente político que distanciou a aprovação do governo da curva do ICE, aponta o governo. “Se a desvalorização do real de 1999 e o apagão de 2001 prejudicaram a imagem de eficiência dos tucanos, o mensalão problematizou o conceito de que os petistas eram impolutos”, afirmam.

Já no segundo mandato, com exceção de breve escorregão no começo de 2009, consequência da freada econômica produzida pela turbulência econômica internacional, a popularidade do governo Lula subiu quase sem parar.

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“Foi o período no qual Lula se transformou no ‘cara’, conforme lhe disse Barack Obama em encontro do G-20 realizado em Londres em abril de 2009, o Cristo Redentor decolava na capa da The Economist de novembro do mesmo ano e a economia brasileira, impulsionada por uma política de estímulo à demanda, deixava rapidamente para trás as apreensões produzidas pela crise internacional”, afirmam os consultores. Assim, apontam, estava posta a mesa para a eleição de Dilma Rousseff, em uma conjuntura econômica que só não era melhor por conta da aceleração da inflação ao longo de 2010. 

Dilma: o ICE que menos oscilou 
Enquanto isso, no caso Dilma, não há essa relação. O ICE pouco oscilou nos últimos três anos. A manutenção da inflação na casa dos 6%, a desaceleração da atividade econômica e os reajustes mais modestos do salário mínimo, que jogam a favor da redução do ICE, foram compensados pela queda do desemprego, apontam.

E, quanto à aprovação, Dilma herdou parte da popularidade de Lula, ao conseguir ampliar a boa imagem de seu governo a partir de meados de 2011 em função da propalada “faxina” realizada por ela em seu ministério. “Como ‘xerife que combatia os desmandos’ da administração pública e ‘gerente’ competente, viu sua aprovação chegar a 64% em abril de 2012 e março de 2013”, apontam.

O choque dos preços dos alimentos no segundo trimestre de 2013 corroeu parte da popularidade do governo às vésperas dos protestos de junho. Estes, por sua vez, custaram 20 pontos na avaliação do go-verno, que passou de 51% para 31% em poucas semanas. Nem a desvalorização cambial e o apagão de FHC ou o mensalão de Lula provocaram queda tão vertiginosa da avaliação do governo.

Assim, de acordo com a consultoria, a correlação nula entre ICE e a popularidade do governo Dilma sugere que atributos de imagem foram responsáveis por manter elevada a popularidade da presidente nos primeiros dois anos e meio de mandato.

Infelizmente para Dilma, a boa imagem cultivada por ela em 2011 e 2012 não resistiu à explosão de descontentamentos com os gover-nantes e poderes constituídos, uma das marcas dos eventos de junho. Quanto aos protestos, a alta da inflação e o baixo crescimento econômico podem ter ajudado a exacerbar o mal-estar social revelado em junho passado, avaliam.