Ladeira abaixo

Detentores de títulos brasileiros sem paciência para falta de urgência de Dilma

As notas brasileiras denominadas em reais perderam em média 4,1% em dólares desde 24 de outubro, último dia de operações antes de Dilma derrotar seu adversário e ser eleita para um segundo mandato.

SÃO PAULO – Em seu discurso da vitória, após ser reeleita no mês passado, a presidente Dilma Rousseff prometeu tomar medidas “urgentes” para reaquecer a fraca economia do Brasil. Os detentores de títulos de dívida estão perdendo a paciência.

As notas brasileiras denominadas em reais perderam em média 4,1% em dólares desde 24 de outubro, último dia de operações antes de Dilma derrotar seu adversário e ser eleita para um segundo mandato. O prejuízo é mais do que o dobro da queda média de 1,7% para dívida local de mercados emergentes.

Dilma se empenha em reconquistar a confiança dos investidores depois de a maior economia da América Latina ter entrado em recessão, a inflação ter atingido o nível mais alto em três anos e o país ter sofrido o primeiro rebaixamento de sua nota de crédito desde 2002 – tudo durante seu primeiro mandato –. Embora Dilma tenha dito durante a campanha que iria substituir o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ela ainda não nomeou um sucessor.

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“A pior parte é que a Dilma parece não estar com pressa para anunciar o seu novo time econômico e assim tentar acalmar os mercados”, disse Alexandre Ataíde, gestor de portfólio da Spinnaker Capital, que administra cerca de US$ 1 bilhão em ativos incluindo dívida brasileira.

A assessoria de imprensa do Palácio do Planalto não respondeu à ligação telefônica nem a um e-mail em busca de comentários sobre o desempenho dos títulos denominados em moeda local e a nomeação do novo Ministro da Fazenda.

Em seu discurso de vitória, Dilma disse que tomaria ações urgentes, especialmente na economia, para retomar o ritmo de crescimento e continuar garantindo alto nível de emprego e assegurar aumentos de salários.

O ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e o ex-secretário executivo da Fazenda, Nelson Barbosa, são os principais candidatos a Ministro da Fazenda de Dilma, disseram três fontes.

Há mais chances de que Dilma escolha Meirelles porque ela sabe que ele ajudaria a melhorar a confiança dos investidores, disse uma fonte que falou com a presidente e solicitou anonimato porque as conversas foram confidenciais. Meirelles foi presidente do Banco Central de 2003 a 2010, durante o mandato do predecessor de Dilma, Luiz Inácio Lula da Silva.

Dilma ainda não tomou uma decisão e ainda pode escolher um terceiro candidato, de acordo com duas das fontes, uma delas um assessor do governo próximo das discussões.

“Temos visto muita especulação e muito pouca clareza sobre o que acontecerá”, disse Camila Abdelmalack, economista da CM Capital Markets em São Paulo, em entrevista por telefone. “Os investidores esperavam que já houvesse mais sinais e certezas a esta altura. E isso está tendo um impacto direto sobre as operações”.

O yield médio dos títulos brasileiros em moeda local subiu 0,54 ponto porcentual para um pico de 12,55% em sete meses desde que Dilma foi reeleita. O valor se compara a uma queda de 0,03 ponto porcentual, para 6,43%, oferecido por títulos semelhantes de países em desenvolvimento, de acordo com o JPMorgan Chase.

Denise Prime, que ajuda a administrar cerca de US$ 6,5 bilhões em dívida local de países emergentes na GAM International Management, disse que enquanto a falta de detalhes sobre o rumo econômico por parte de Dilma fez com que os rendimentos aumentassem, investidores continuam a ser compensados pelo risco. “O tipo de rendimento que você consegue com bonds brasileiros ainda paga consideravelmente bem”, disse ela em um e-mail, de Londres.

Mesmo assim, os economistas estão se tornando mais pessimistas enquanto esperam por novos sinais da política de Dilma. No dia 10 de novembro, o Santander Brasil reduziu a previsão de crescimento para o Brasil em 2015 de 0,9% para 0,3%. Cerca de 100 analistas consultados em uma pesquisa semanal do Banco Central publicada no mesmo dia elevaram a projeção de inflação anual para o próximo ano, de 6,32% para 6,4%. A meta do Banco Central para os preços ao consumidor é de 4,5%.

“Nós não sabemos nada sobre como as políticas econômicas serão implementadas nem temos sinais claros sobre a nomeação do time econômico, o que é um ponto que tem gerado ansiedade no mercado”, disse Abdelmalack, da CM Capital Markets.