Olhando para si mesmos

Depois de uma Copa esplêndida, o drama real das eleições irá começar, diz FT

Não volte sua atenção para longe do País ainda; o verdadeiro drama está apenas começando, diz o jornal britânico

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SÃO PAULO – No final das contas, o Brasil não conseguiu o resultado que esperava e a seleção terá que aguardar por pelo menos mais quatro anos para conquistar o hexacampeonato. E, conforme ressalta o Financial Times, para um País louco por futebol como o Brasil, a humilhante derrota por 7 a 1 foi um desastre. 

No entanto, o Sol, surpreendentemente, ainda subiu no dia seguinte. Hoje, aponta o jornal britânico, com o fim da Copa, o diatambém vai ser longo. “Os brasileiros, então, desligam as suas TVs de plasma, jogam as latas de cerveja depois de um mês de esturpor de futebol. As estações de metrô e aeroportos vão encher novamente. O trânsito vai voltar. Dilma Rousseff, a presidente, vai sediar a sexta cúpula dos países Brics – com os líderes russos, indianos, chineses e sul-africanos – e a campanha para a eleição presidencial de outubro começará para valer. A vida no Brasil vai voltar ao que geralmente é considerado como normal”.

Embora talvez de ressaca, os brasileiros têm uma boa razão para olhar para trás e se sentir satisfeitos com a forma como tudo aconteceu, ressalta o FT. Houve muitos momentos maravilhosos, diz o jornal: desde os jogos com momentos emocionantes até o número de gols bem como a mordida extraordinária de Luis Suárez.

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“A organização do torneio também foi melhor do que muitos temiam. Não houve greves ou protestos em massa, como no período que antecedeu ao evento. O Brasil também se abriu para o mundo, e o mundo na maior parte amou o que viu. Tudo isso é motivo de comemoração. De fato, 60% dos brasileiros dizem agora que eles estavam orgulhosos de sediar os jogos contra apenas 45% antes do início do torneio. Com isso, as Olimpíadas Rio 2016 devem ser um passeio no parque”.

No entanto, houve muitos aspectos negativos também. Para o FT, o mais negativo foi a maneira como a FIFA “sequestrou” uma nação, à medida em que a federação pode substituir as regras nacionais, tais como a proibição de venda de cerveja nos estádios de futebol, o que foi vista como um absurdo pelo FT. O Brasil também mostrou que poderia entregar sim os novos estádios e infraestrutura em tempo, mas custando quatro vezes mais. Depois, houve o colapso desanimador da equipe nacional, o que tornou a seleção do jogo bonito uma ilusão, comparada à outra ilusão persistente: a de que os tempos de bonança no Brasil da última década vão continuar”.

A sabedoria convencional é de que a Copa do Mundo não terá nenhum efeito sobre as chances de Rousseff na eleição no prazo de três meses. A história não mostra nenhuma correlação entre ganhar ou perder o torneio, e ganhar ou perder a presidência. Por outro lado, durante a duração de um mês do torneio, a economia continuou a desacelerar. A inflação subiu acima da meta, o déficit em conta corrente aumentou, a confiança dos consumidores e dos empresários caiu, incentivos fiscais às indústrias foram estendidos, as contas públicas se deterioraram, os salários reais caíram e as previsões de crescimento também. Neste ano, a economia deverá crescer apenas 1%, no quarto ano de crescimento lento. “Este é o estado de coisas sem brilho que os brasileiros se voltam agora e o caminho é longo. É também a maior ameaça política de Dilma Rousseff”.

Ela continua a ser a favorita para ganhar em outubro, mas a oposição ameaça, diz o FT. E os pedidos de mudança mostram que a população está cada vez mais preparada para exigir uma melhor prestação de contas do governo e dos serviços públicos, com menos corrupção.

“De fato, tal engajamento cívico pode vir a ser o legado mais esperançoso da Copa do Mundo. Ironicamente, foi um protesto dirigido em parte aos custos do torneio que ajudou a acordar o país e uni-lo. Os próximos três meses, portanto, podem ser tão dramáticos quanto o próprio futebol. Desta vez, porém, a questão não será Brasil jogar contra outra nação, mas ele olhar para dentro de si. Então não volte sua atenção para longe do País ainda. O verdadeiro drama está apenas começando”, finaliza o jornal. E, conforme aponta o jornal, a derrota da seleção brasileira na Copa está sendo levada, pelo menos pelos investidores, como um revés para Dilma nas urnas.