Entrevista

De eleições a economia: sociólogo analisa o poder da opinião pública para mudar o País

Efeito das manifestações e do resultado da Copa do Mundo também estão entre os temas debatidos em entrevista com Alberto Carlos Almeida

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SÃO PAULO – Muitos analistas afirmam que a Bolsa parece ter perdido seus fundamentos, sendo guiada principalmente pelo cenário político e pelos rumores eleitorais. Diante deste ambiente, o humor sobre os rumos da economia, sobre as eleições e até a Copa do Mundo acabam tendo efeito no mercado brasileiro. Com esse cenário em mente, a Rio Bravo Investimentos entrevistou o cientista político Alberto Carlos Almeida, que comentou sobre a opinião pública e seus efeitos.

Entre o pessimismo com a economia e os efeitos das pesquisas eleitorais, ele ainda comenta sobre a percepção negativa com a Copa do Mundo, que alcançou seu nível mais baixo no começo deste ano. Alberto também comenta sobre os diversos protestos que ganharam força em junho de 2013, e que podem mudar o rumo das eleições em outubro.

Alberto tem formação em Ciências Sociais pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e mestrado e doutorado em Ciência Política pelo IUPERJ (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro). Além disso, ele é autor dos livros “A cabeça do brasileiro”, “A cabeça do eleitor” e “Os Erros nas Pesquisas Eleitorais”, entre outros. Veja abaixo a íntegra da entrevista:

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Rio Bravo – Havia uma grande expectativa inicial, há cerca de sete ou oito anos, por parte de muitos analistas, em relação à sensação de bem-estar e orgulho da população que deveriam ser provocados pelo fato de o Brasil sediar a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, dois grandes eventos. Foram os protestos que fabricaram essa sensação no sentido contrário?

Alberto Carlos – Interessante a pergunta e se formos relembrar os protestos de junho de 2013, eles ocorreram durante a Copa das Confederações. Existe aquele dito no Brasil que o futebol é o ópio do povo. O ópio é uma droga que acalma. É como se o povo pudesse ser mais revoltado contra o governo e, com o futebol, esse efeito de ópio, as pessoas se acalmassem. Na verdade, os protestos mostram o contrário, que o futebol foi a “cocaína” do povo, quer dizer, a população se excitou para protestar, foi estimulada a protestar em função do futebol. Existe uma simbologia associada à Copa do Mundo. A Copa das Confederações foi um ensaio disso, de que o gasto público foi um gasto desnecessário com os estádios e não com outros itens de serviços públicos para a população.

É importante salientar que, como dizia um jogador de futebol famoso do Brasil, se não me engano Didi, “treino é treino, jogo é jogo”. A Copa das Confederações foi um treino, a Copa do Mundo é o jogo e a mobilização que a sociedade brasileira passa em toda Copa do Mundo, ao menos quando ela é fora do Brasil, é imensa. Podemos até qualificar, mas será que essa mobilização de outras Copas se repetirá agora uma vez que a Copa é no Brasil e essa simbologia tal como eu disse é uma simbologia negativa? Não sabemos. É impossível dizer.

O que nós sabemos é que o futebol é parte da nossa cultura, o futebol revela como nós somos e o dito de que somos o país do futebol é um dito que tem a ver com isso. O futebol no Brasil mobiliza todas as classes sociais, todos os grupos. Pode ser que a aproximação da Copa do Mundo gere uma mobilização diferente da Copa das Confederações, uma mobilização mais positiva no sentido de acompanhar o evento do que foi no ano passado. O que eu acredito é que a simbologia do mau uso do recurso público permanece e caso haja uma eliminação precoce do Brasil no torneio, isso possa vir a se tornar um problema grave em termos de frustração com o gasto realizado para organizar a Copa do Mundo.

Rio Bravo – Um levantamento recente feito pelo Datafolha mostrou que boa parte da população brasileira acredita que a Copa vai acarretar mais prejuízos do que benefícios ao país. Outra pesquisa do Instituto Análise dava conta de que 27% dos entrevistados eram indiferentes ao futebol. Nesse sentido, houve erro de avaliação ou de cálculo inicial quanto à expectativa desses eventos no Brasil?

Alberto Carlos – Tem um livro, “Soccernomics”, de autores que utilizaram muitos dados quantitativos para modelar até resultados de futebol, a vantagem do time que joga em casa, se os pênaltis são justos ou não etc., que trata em alguns capítulos desses grandes eventos e chama atenção, no final de um desses capítulos, para o fato de que países que têm problemas agudos, tal como foi a África do Sul, tal como é o Brasil, podem ter problemas quando sediam Copa do Mundo.

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Esse livro faz uma previsão com muita antecedência daquilo que nós estamos passando hoje. Por outro lado, não é menos verdade que o governo brasileiro, que é o anfitrião em termos de operacionalizar ou de proporcionar as condições para a Copa do Mundo, não veio a público desde o ano passado, desde os protestos, fazer uma narrativa das vantagens de sediar uma Copa do Mundo. No mundo político, no mundo da comunicação, o mesmo fato pode ter duas versões, ou duas histórias, então você tem uma história negativa sobre a Copa do Mundo e é possível ter uma história positiva também. O fato é que essa história positiva, quem poderia contá-la de maneira persuasiva e defendê-la é o governo, coisa que ele não vem fazendo. Nós não sabemos o que viveríamos hoje, é contra factual, se o governo tivesse feito isso.

Rio Bravo – De acordo com essa reposta, é possível que essa percepção negativa seja revertida em tão pouco tempo, pouco menos de dois meses?

Alberto Carlos – Ela pode ser, não a partir de agora em função de uma narrativa gerada pelo governo, talvez parcialmente, um pouco, mas em função do próprio evento. Países que sediam Copa do Mundo, os estabelecimentos comerciais, loja, varejo, locais onde se come fora, eles ficam maciçamente enfeitados com bandeiras dos países que vão à Copa. Foi assim na África do Sul, foi assim na França e em todo lugar. Existe uma mobilização muito grande. A própria proximidade do torneio pode levar ou tende a levar a sociedade a se mobilizar em direção à Copa do Mundo, é um clima avassalador. A Copa do Mundo é também, em grande medida, um fenômeno midiático.

Rio Bravo – Ainda sobre as manifestações de 2013, algumas dessas mobilizações sociais exigiam em tom jocoso, meio a sério, meio de brincadeira, serviços públicos padrão Fifa. Esse tipo de demanda ganhou mais força porque houve uma ingerência ou uma superpresença da Fifa no Brasil ou isso se deve apenas à precariedade dos serviços públicos no país?

Alberto Carlos – Sem dúvida, uma fatia bastante razoável da população não gosta que o país se dobre às exigências da Fifa. Essa pergunta faz parte à simbologia negativa em relação à Copa do Mundo. Eu tinha falado anteriormente, o gasto público foi mal direcionado. Em vez de ter sido feito para construir hospitais, foi feito para construir estádios. Nós sabíamos que não resolveria o problema da saúde. Ainda por cima, nós não estamos fazendo uma Copa à nossa maneira, mas sim à maneira de uma entidade internacional que entra aqui e diz qual é a maneira certa de fazer uma Copa do Mundo. Sem dúvida nenhuma, essa simbologia em torno do padrão Fifa é fundamental para colocar mais lenha nas expectativas negativas com relação ao evento.

Rio Bravo – Você comentou sobre o sentimento de frustração que uma eventual eliminação do Brasil provocaria junto à população brasileira. Essa instabilidade durante a Copa do Mundo também pode acarretar em algo negativo para o processo eleitoral, que é logo em seguida?

Alberto Carlos – O Brasil, em 1950, perdeu em casa, mas em 1950 o Brasil não era potência. As potências futebolísticas que perderam em casa recentemente foram Itália e Alemanha. Nos dois casos, a Itália perdeu para a Argentina em uma semifinal, nos pênaltis, e a Alemanha perdeu para a Itália, também numa semifinal, nos pênaltis. Foram países que, quando sediaram essas Copas, nos anos 90, já eram potências futebolísticas e perderam em casa. O Brasil pode perder em casa. O precedente indica que uma seleção forte jogando em casa vai longe.

Eu andei olhando vídeos no Youtube de seleções que sediaram a Copa do Mundo e a Coreia do Sul, quando sediou com o Japão, venceu dois jogos absolutamente roubados, o que permitiu que a Coreia do Sul chegasse à semifinal – as oitavas de final contra a Espanha, quando a Espanha marcou dois gols legais que foram anulados sem justificativa nenhuma, e o jogo contra a Itália, no qual um jogador italiano sofreu pênalti. O juiz, além de não ter dado pênalti, expulsou o jogador por simulação e a Coreia do Sul bateu na Itália o jogo inteiro. Então é um país com pouca ou nenhuma tradição futebolística, que chegou à semifinal graças às intervenções de juízes em dois jogos.

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O futebol é um jogo cuja oportunidade de marcar o gol é rara, então pequenas intervenções podem fazer uma diferença enorme. Eu não estou dizendo que isso vai acontecer no Brasil, estou dizendo simplesmente que toda essa argumentação é para indicar que é baixa a probabilidade de que o time do Brasil é forte, você tem uma coisa jogando muito contra que é a pressão que o time vai sofrer. Isso é algo bastante negativo, mas temos um time forte, jogando em casa, e uma eventual ajuda de uma arbitragem caseira, digamos assim. Então é baixa a probabilidade de que o Brasil seja eliminado no início. Se for, isso aumenta a força do argumento de que o gasto foi errado.

Vamos supor que o Brasil seja eliminado logo de cara na Copa do Mundo, a população vai dizer o seguinte: “Gastamos tudo isso para fazer uma festa para os outros, não para a gente”. Se o Brasil chegar à final, à semifinal, que ocorre poucos dias antes da final, tudo bem, fizemos uma festa, fomos eliminados, mas valeu fazer a festa. Ser eliminado precocemente pode servir de um grande combustível para uma onda de protestos bastante razoável e isso pode vir a ter interferência no processo eleitoral.

Rio Bravo – Depois de muito tempo, embora a democracia no Brasil seja relativamente jovem, da década de 90 para cá, as pesquisas eleitorais mudaram muito. Ainda hoje, elas conseguem captar essas ondas de mudanças, antecipar tendências, vislumbrar resultados? Elas conseguem realizar esse tipo de cenário antes, ainda hoje?

Alberto Carlos – Sim, mas muitas análises são muito superficiais. Ela pode, mas tem muita gente que acredita em mágica no Brasil. O que eu chamo de acreditar em mágica? Não dar o devido peso, as variáveis que são relevantes para a previsão, então tem muito “achismo”. É como se fosse futebol, todo mundo se acha técnico de futebol, todo mundo acha que entende de futebol, no Brasil todo mundo acha que entende de política e de eleição, quando não é bem assim.

Rio Bravo – E de que modo os resultados da economia brasileira podem afetar essa dinâmica eleitoral?

Alberto Carlos – Várias variáveis afetam o resultado de uma eleição. A variável que isoladamente tem maior peso no resultado eleitoral desde a primeira eleição do Fernando Henrique, em 1994, é a econômica, em particular o aumento ou a diminuição do poder de compra da população ou da maior parte da população. Em 1994, com a redução da inflação, houve um abrupto aumento do poder de compra e o Fernando Henrique foi eleito como o candidato do governo. Em 1998, esse aumento do poder de compra foi mantido e o Fernando Henrique foi reeleito. Em 2002, houve uma queda forte do poder de compra da população no ano eleitoral e a oposição venceu com Lula. 2006 foi um ano muito positivo economicamente falando e Lula foi reeleito com uma relativa facilidade no segundo turno, mas a partir de um determinado momento do ano eleitoral, a liderança de Lula não foi ameaçada. Em 2010, a economia cresceu com uma força enorme (7,5% de crescimento do PIB no ano) e Lula elegeu também Dilma com relativa facilidade. O que nós estamos vendo agora no ano de 2014 é um cenário confuso, de aumento do poder de compra, não há crise, porém a população admite que o ritmo de melhora é menor do que vinha sendo. De fato, o que tem é o impacto da variável econômica e o que talvez seja difícil responder agora é a direção desse impacto uma vez que estamos numa situação mais indefinida e mais nebulosa.

Rio Bravo – Essa situação é mais indefinida do que qualquer outra eleição nas últimas quatro eleições?

Alberto Carlos – Sim, certamente, mais do que a passada não tenho a menor dúvida, do que as anteriores… Em 2002, também o cenário no ano eleitoral foi bastante claro, de eleição de mudança. Esse ano, não se configurou ainda uma clareza nesse cenário. Recentemente eu escrevi um artigo no “Valor Econômico”, cujo título era “Avaliação da Dilma está no limbo”, “limbo” vem do latim e significa “beira”, no caso da avaliação da Dilma é um duplo limbo. Se ela melhora um pouco, vai para o céu, significa um relativo favoritismo, uma certa tranquilidade para vencer. E se ela piora um pouco de onde está hoje, sua avaliação vai para o inferno, que significa do ponto de vista dela o favoritismo da oposição vencer.

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Rio Bravo – A propósito disso, qual tem sido o impacto dessa avaliação em relação à percepção popular dos governantes para esse processo eleitoral? Há um descolamento entre avaliação de bom e ótimo do governo e a intenção de voto?

Alberto Carlos – Esse descolamento pode existir quando se está longe da eleição. Na medida em que se aproxima a eleição, ele vai se colando. O próprio processo de comunicação eleitoral faz com que o eleitor que avalia os governos, ou o respectivo governo, como ótimo e bom, tenda a votar no candidato à reeleição, no candidato apoiado pelo governador em exercício, prefeito ou presidente, que foi o caso do Lula na eleição passada. E quem avalia pior, em péssimo, regular ou ruim, tende a votar no candidato de oposição. O processo de esclarecimento feito durante a campanha eleitoral tende a colar uma coisa com a outra.

Rio Bravo – Nas últimas eleições, o número de pessoas que não foram votar chamou bastante atenção. Alguns até afirmaram que esse foi o fator preponderante que teria levado ao segundo turno entre o candidato José Serra e a então candidata Dilma Rousseff. Qual é a mensagem que está sendo passada com esse nível de abstenção? Isso pode ser considerado um processo natural das democracias?

Alberto Carlos – A abstenção no Brasil fica, tradicionalmente, na faixa dos 20%. Ela é reduzida toda vez que há um recadastramento eleitoral, então isso indica que a principal razão para a abstenção é mudar o domicílio eleitoral. A pessoa se muda e não muda o domicílio eleitoral, aí ela se abstém e justifica o voto. Se a Justiça Eleitoral quiser reduzir a proporção das pessoas que se abstêm de votar, é necessário fazer um recadastramento eleitoral. O voto branco e nulo para presidente na última eleição foi uma faixa de 9,5%, mas esse tipo de voto tem sido um erro na hora de votar.

Quando nós tínhamos o voto no papel, o branco e nulo era muito maior; em algum momento, no período de transição, uma parte do país votou na urna eletrônica e outra parte no papel; a parte que votou na urna eletrônica o voto nulo era muito menor que a parte do país que votou no papel; e quando 100% do país passou a votar na urna eletrônica, o voto branco e nulo despencou ainda mais. A abstenção e o branco/nulo não têm sido, no Brasil, um meio para protesto, simplesmente, a abstenção é a alienação eleitoral e o branco/nulo é erro. Ambos estão correlacionados com o nível social: quanto mais baixa a classe social, quanto menor a renda, maior o nível de abstenções e brancos e nulos.

Rio Bravo – Quem são os grandes puxadores de voto no Brasil: as celebridades, as lideranças políticas com tradição ou os partidos políticos tradicionais?

Alberto Carlos – Eu ficaria mais com os partidos políticos, não sei se colocaria o adjetivo “tradicionais” aí, mas no sentido de grandes organizações. Nesse sentido, eles são tradicionais, claro. As disputas eleitorais tendem a ser uma coisa para poucos. Você não tem uma competição de inúmeros partidos, ainda que o Brasil tenha muitos, você tem uma barreira à entrada muito grande. Nós temos aí cinco eleições presidenciais, todas elas foram disputadas entre PT e PSDB. Isso é um indicador, não diria de partidos tradicionais, mas de grandes organizações. O eleitorado olha, vê quem está fazendo campanha e diz: “Olha, vai governar um país, não dá para ser uma pequena estrutura. É necessário apoio político, é necessário quilometragem rodada, é necessário experiência” E quem é que tem? PT e PSDB.

O que é um processo de campanha eleitoral? Você promete alguma coisa para o futuro baseado em alguma coisa que você fez no passado. Nesse sentido, há uma vantagem no que você denominou de partidos tradicionais ou de partidos com grandes estruturas.

Rio Bravo – O marketing político ainda tem a mesma força que tinha na década de 90, por exemplo?

Alberto Carlos – Sim, ele é forte, não sei se a mesma ou não. A comunicação política, o marketing político, permite fazer com que os motivadores do voto, que muitas vezes estão latentes ou adormecidos, sejam acionados no momento oportuno para que o eleitor decida votar em A, B ou C.