De dez opiniões para PIB, as otimistas não chegam nem perto dos 2% do governo

Autoridades acusam mercado de pessimismo, mas cortaram quatro vezes a projeção deste ano, e podem ter de rebaixar mais

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SÃO PAULO – O discurso do governo aos poucos vai assumindo o baque da crise internacional. De fato, suas projeções começam cercadas pelo otimismo e vão se ajustando aos poucos, para baixo. Na quinta-feira (19), o governo federal revisou pela quarta vez sua aposta para o crescimento do Produto Interno Bruto brasileiro em 2009. e pode ter de revisar mais vezes.

A nova estimativa do governo é de crescimento de 2% este ano. Bem mais modesta que os 3,5% anteriores, mas ainda otimista se comparada ao que os analistas projetam. Citando alguns, a agência de classificação de risco Fitch vê estagnação da economia brasileira este ano; a Tendências Consultoria aposta em tímido avanço de 0,3%; o Credit Suisse enxerga crescimento de 1,3%, mas diz que o risco de recessão é significativo.

Recessão técnica

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Depois do susto com a queda de 3,6% do PIB do Brasil no quarto trimestre, o pior resultado dos últimos 12 anos, a confirmação de mais um trimestre de queda configura oficialmente recessão. Assim, todo o foco vai para o saldo deste primeiro trimestre.

A avaliação de cenário do Credit Suisse combina efeitos da crise lá fora e expectativa de contração de crédito no mercado doméstico, fator que aponta não o último trimestre do ano passado, mas “sobretudo” os primeiros dois de 2009 como de desaceleração mais forte.

“Risco de recessão na economia brasileira é elevado e dependerá de quão extensas serão a crise externa e a contração do crédito”, argumenta o banco suíço. Marcela Prada, economista da Tendências Consultoria, espera queda de 0,9% no PIB referente ao primeiro trimestre deste. “Configuraria um caso de recessão técnica”.

Quebra de ciclo após 22 trimestres

Caso as estimativas dos analistas se confirmem, o ciclo mais longo de crescimento que o Brasil apontava desde a década de 70 será interrompido após 22 trimestres. Ainda assim, “desaceleração será menos intensa e mais breve do que nas recessões anteriores (desde 1991)”, pontua o Credit Suisse.

O presidente Lula recentemente afirmou que o país crescerá em 2009, mas já admite que será em ritmo menor. Depois do susto com o quarto trimestre do ano passado, a base governista enfrenta duras críticas, que o acusam de subestimar a crise.

“Não existe isso. O governo inteiro está comprometido com o combate à crise. Essa proposta de gabinete de crise é de quem não segurou a barra e teve apagão”, declarou Dilma Rousseff, aproveitando para cutucar o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Dilma credita as proporções que a crise assumiu ao mercado, pessimista demais em sua opinião.

Pessimista ou realista?

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De fato, as projeções do mercado estão bem mais pessimistas que o discurso do governo. Resta saber se o mercado que está pessimista ou o governo está otimista demais. Só o desenrolar das coisas vai dizer, lá na frente. Por enquanto, a ideia de crise para analistas e estrategistas varia bastante. Os mais cautelosos chegam a projetar retração de 4,5% para a economia brasileira este ano; os mais arrojados enxergam crescimento, mas não chegam nos 2% do governo.

Dá para classificar Hamilton Moreira Alves, da BB Investimentos, entre os mais otimistas. O analista mencionou que a economia brasileira em 2009 é baseada na interpretação de que o Brasil apresenta resistência superior à da maior parte dos outros países, sendo que o primeiro semestre deste ano representaria “tão somente uma readequação transitória de alguns indicadores ao longo de 2009”.

10 opiniões – variação do PIB em 2009
Instituição Projeção
BNP Paribas -1,5%
Morgan Stanley -4,5%
Fitch Ratings estável
Tendências Consultoria +0,3%
Credit Suisse +1,3%
LCA Consultores entre +0,4% e 1,4%
WestLB -0,2%
Bradesco +0,6%
Austin Ratings +0,7%
Relatório Focus +0,59%

Abaixo do potencial

De maneira ou de outra, o Credit Suisse destaca que o desempenho do PIB ficará abaixo de seu potencial. Crescimento potencial relaciona o ritmo em que fatores de produção (capital e trabalho) são utilizados de maneira que não afetam as taxas inflacionárias. Hiato do produto representa a diferença entre crescimento efetivo e potencial da atividade econômica.

“Projetamos crescimento de 2009 e 2010 inferior ao seu potencial, sugerindo que o ritmo de atividade é um risco positivo para a dinâmica da inflação”, comenta o banco suíço.

Recuperação pode vir forte

Marcela Prada acredita em recuperação relativamente forte a partir do segundo trimestre. Para tal, explica que à pressão da indústria os dados ruins da atividade brasileira nos últimos meses. Ainda assim, menciona que este movimento negativo do setor está atrelado a uma ajuste de estoques que está ocorrendo.

“A partir de março, esperamos que a produção mostre uma recuperação mais forte, passado este processo. Fora isto, estamos com taxas positivas para crescimento do PIB ao longo do ano também explicado pelos estímulos da política monetária e outras medidas para conter a crise. Estamos com este cenário relativamente otimista, e ainda assim chegamos nesta taxa baixa de 0,3% no ano.”, conclui a economista.

Ao citar política monetária, Marcela acredita que a próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) traga corte de mais 1 ponto percentual na Selic, que, para ela, fecha 2009 em torno de 9,75% ao ano.