Nem todos aceitaram

Da esquerda europeia a China e Rússia: a reação de 9 países ao impeachment de Dilma

Na América Latina as principais nações vizinhas se dividiram entre apoio e repúdio à decisão do Senado de retirar Dilma do poder definitivamente

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SÃO PAULO – Nas últimas 24 horas o Brasil se tornou a principal notícia no mundo todo. Confirmando o impeachment de Dilma Rousseff na tarde de ontem, foi o momento das principais nações do planeta passarem a fazer declarações sobe a troca de governo no país, e o que se vê é uma divisão de opiniões, principalmente entre nossos vizinhos da América Latina.

Ainda no fim do dia de ontem, Equador, Venezuela e Bolívia anunciaram o retorno de seus embaixadores no Brasil. Em comunicado enviado por meio de sua chancelaria, o governo equatoriano classificou a destituição de Dilma como “uma flagrante subversão da ordem democrática e um golpe de Estado”. “O Governo do Equador não pode ignorar o fato de que um grande número de tomadores de decisão no processo de impeachment do presidente estão sendo investigados por atos graves de corrupção”, afirma o comunicado.

Já a Venezuela anunciou, em nota oficial, o congelamento das relações com o novo governo brasileiro, que classificou como “originado em um golpe parlamentário”. O documento diz que “as oligarquias políticas e empresariais, que em em aliança com setores imperialistas consumaram o golpe de Estado contra a presidenta Dilma Rousseff, recorreram a artimanhas jurídicas sob o formato de crime sem responsabilidade para ascender ao poder pela única via possível: a fraude e a imoralidade”. 

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“O golpe de Estado parlamentar substitui ilegalmente a vontade popular de 54 milhões de brasileiros, violentando a Constituição e alterando a democracia nesse país irmão”, afirma a nota. Pelo Twitter, o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, ofereceu solidariedade a Dilma e ao povo brasileiro.

Na Bolívia, o presidente Evo Morales condenou o que chamou de “golpe parlamentar contra a democracia brasileira”. Enquanto isso, na Argentina, a ex-presidente Cristina Kirchner também expressou solidariedade com o povo do Brasil, afirmando no Twitter que seu coração está ao lado de Dilma e “dos companheiros do PT”.

Por outro lado, o governo argentino emitiu comunicado com o título “Processo institucional no Brasil”, no qual se manifesta em dois parágrafos sobre o julgamento verificado no “país irmão”. O texto menciona a vontade argentina de “continuar pelo caminho de uma real e efetiva integração no marco do absoluto respeito aos direitos humanos, às instituições democráticas e ao direito internacional”.

Ainda na América Latina, o representante suplente da Nicarágua, Luis Ezequiel Alvarado também usou a expressão “Golpe de Estado parlamentar” para condenar o impeachment de Dilma. “Isso demonstra que as forças regressivas do hemisfério continuam trabalhando com o objetivo de desestabilizar e de provocar golpes de Estado contra os governos progressistas da região”, afirmou Alvarado.

O governo do Chile manifestou sua “confiança em que o Brasil resolverá seus próprios desafios, por meio de sua institucionalidade democrática”. A decisão de reconhecer a votação do Senado brasileiro também foi anunciada pelo Paraguai, por meio de seu chanceler, Eladio Loizaga.

EUA aceitam e Rússia evita problemas
Já o governo dos Estados Unidos afirmou que o afastamento definitivo de Dilma seguiu o ordenamento constitucional, sendo que o país espera manter a “forte relação bilateral” e avançar em temas de interesse mútuo. Além disso, o governo americano classificou como “essencial” a relação com o Brasil. 

“Vimos notícias de que o Senado brasileiro, de acordo com o ordenamento constitucional do Brasil, votou para remover a presidente Dilma Rousseff do cargo. Estamos confiantes que continuaremos a forte relação bilateral que existe entre nossos países”, disse John Kirby, porta-voz do Departamento.

Os russos também se mantiveram distante, evitando qualquer comentário mais duro e que pudesse gerar algum atrito fosse com algum aliado ou com o próprio Brasil. A Rússia considerou o impeachment um assunto interno do país e disse que é importante que a situação no Brasil não evolua para uma confrontação política dura, segundo declarou o Ministério das Relações Exteriores russo.

“Confirmamos a imutabilidade e a consistência da nossa posição, que já foi afirmada anteriormente. O que está acontecendo no Brasil é um assunto interno do país. É importante que todos os processos decorram estritamente dentro do quadro constitucional, em conformidade com a legislação nacional pertinente. Consideramos que é importante que o desenvolvimento dos eventos não agrave a divisão na sociedade e não inicie uma confrontação política dura”, disse uma fonte no ministério, segundo o site Sputnik.

Esquerda europeia rejeita
Os partidos da extrema-esquerda na Europa denunciaram o que chamaram de “consumação do golpe no Brasil”. O grupo formado pelo espanhol “Podemos”, o grego “Syriza” e o alemão “Die Linke” prometeu tomar ações no Parlamento Europeu para pressionar contra qualquer tipo de acordo com Brasília e reforçaram o apelo para que Bruxelas afaste o Brasil das negociações para a criação de um acordo comercial com o Mercosul.

“Condenamos fortemente o golpe de estado no Brasil contra uma presidente eleita”, diz um comunicado do grupo, que ainda inclui o Bloco de Esquerda de Portugal e Sinn Fein, da Irlanda, e mais outros partidos da região. Para eles, “a remoção de Dilma Rousseff marca um dos capítulos mais negros da história do Brasil e um golpe contra a democracia do país”.

China se mantém distante
Por fim, a China expressou nesta quinta-feira ter confiança na capacidade do Brasil em manter a estabilidade após o Senado aprovar o impeachment de Dilma. “É claro que estamos prestando atenção à situação interna no Brasil, incluindo os desenvolvimentos recentes”, disse a porta-voz do Ministério de Relações Exteriores chinês, Hua Chunying, durante entrevista coletiva diária.

“Esperamos e acreditamos que o Brasil pode continuar a manter estabilidade nacional e desenvolvimento sócio-econômico e continuar a desenvolver um papel importante em assuntos internacionais e regionais”, acrescentou a porta-voz, quando perguntada sobre o impeachment de Dilma.