Presidente do Insper

Culpar os políticos pelos nossos problemas é uma marca da nossa infantilidade, afirma Lisboa

Em evento realizado pela Empiricus, o presidente do Insper destacou que a PEC do teto de gastos sozinha não resolverá nossos problemas e que boa parte da crise que está ocorrendo é culpa da sociedade como um todo

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SÃO PAULO – O Brasil tem uma janela de oportunidades pela frente, mas também muitos obstáculos. A agenda é complexa e, para o presidente do Insper Marcos Lisboa, não será apenas a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) do teto de gastos, que limita os gastos públicos, que resolverá o problema. 

Um dos pontos mais críticos é a necessidade urgente de realizar uma reforma da previdência, que é um gasto que cresce 4% ao ano e já consome mais da metade dos gastos do governo. “Se não fizermos nada, ela pode se tornar insustentável no início da próxima década”, afirmou, em evento realizado pela Empiricus na manhã desta segunda-feira (1).

“Há uma agenda muito grande de reformas que precisam ir adiante para melhorar a produtividade do país, mas as reformas fiscais e previdenciária precisam andar”, avalia, ressaltando também a alta complexidade do nosso sistema tributário atual. “Se conseguimos sobreviver com o sistema tributário atual, imagina se fosse igual ao resto do mundo?”, questionou. 

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Para Lisboa, a PEC dos gastos não resolve mas, do lado positivo, é importante para voltar a gerar debate também dentro da sociedade. “A agenda não é simples e é necessário um novo pacto entre sociedade e Estado. Em parte, a culpa do que está acontecendo é nossa”. E não se trata, como alguns poderiam pensar, de uma agenda “paternalista” voltada apenas aos mais pobres, mas sim dos que foram mais beneficiados pelos atos do último governo, como os industriais com a política de desonerações.

Além disso, a reforma da previdência também afetará boa parte da população e a sociedade terá que se defrontar com suas escolhas. “Nós estamos mais abertos a ter um estado mais sustentável, mais aberto?”

Lisboa ainda afirmou que se surpreende com a capacidade da sociedade brasileira aceitar a concessão de benefícios para alguns grupos: “e o resultado é a crise em que vivemos”. Ou seja, o “inferno somos nós mesmos”. O presidente do Insper reforça que muitos criticam os políticos, mas que essa é mais “uma marca de nossa infantilidade”, uma vez que, em larga medida, somos responsáveis pelas políticas dos últimos anos. “Nós levamos o Brasil para essa grave crise e, em benefício do curto prazo, sacrificamos o longo prazo”. 

“Por mais desastroso que tenha sido, os governos que estiveram no poder nos últimos anos foram apoiados por uma ampla maioria da sociedade. Há problemas em Brasília, mas a maior parte está em nós mesmos”, afirma Lisboa.  “Todo mundo acha Lei Rouanet ótimo para Cultura, mas o Congresso que tem que liberar os recursos, não o diretor de marketing. A indústria automobilística acha razoável não ter alíquota, a avenida Paulista acha razoável ter desonerações. Todo mundo acha razoável o benefício que recebe. É essa relação infantilizada que nós queremos?”, questiona. 

Ele aponta que as reformas no Brasil não são feitas a partir de debates, e sim como “resultados de nossos próprios fracassos. Não abriu economia porque ia ser melhor, mas porque estava numa defasagem muito grande. A agenda fiscal só ocorreu em um momento em que a inflação bateu os 90%. São soluções desesperadas e é por esse caminho em parece que está caminhando a previdência. Eu temo a falta de debate, mas a minha primeira dose de otimismo é que ele comece a existir no País”, afirma.