Crise externa e ambiente político trazem incertezas à economia brasileira

Em evento sobre RI e Mercado de Capitais, economista Paulo Rabello de Castro fala ainda sobre a questão dos déficits fiscais no mundo

Aprenda a investir na bolsa

SÃO PAULO – Em evento sobre Relações com Investidores e Mercado de Capitais, o economista Paulo Rabello de Castro mostrou-se menos otimista com o desempenho da economia brasileira nos próximos dois anos (2011-2012).

Conforme Rabello explica, existem dois principais cenários que trazem incertezas sobre o crescimento projetado para a economia: o ambiente político doméstico e a turbulência econômica internacional.

No primeiro tópico, o economista fala que existe menos de 50% de chance de o Brasil ter um governo que saiba o que deve ser feito para que a economia brasileira de fato avance o que se esperava e se projeta.

Aprenda a investir na bolsa

“De um lado temos uma banda política que não dimensiona o futuro com clareza [referindo-se à candidatura de Dilma Rousseff] e de outro apenas 50% de chance de elegermos um governo que saiba o que fazer [relacionando ao candidato José Serra], o que nos dá menos de 50% de termos um evento positivo no cenário doméstico”, comenta.

Nesse ponto, ele lembra a apresentação do cientista político Bolívar Lamounier, que falou no mesmo evento, de que a candidata Dilma Rousseff não mostra uma posição clara em relação a sua política econômica, mas que suas ações e sua base partidária (PT e PMDB) indicam um governo com viés mais estatizante e menos propenso a medidas de austeridade fiscal e corte de gastos públicos.

Por outro lado, José Serra, candidato do PSDB que tem parceria com o Democratas, já demonstra uma inclinação maior para a liberalização econômica e medidas de contenção de gastos públicos que são necessários, na opinião de Lamounier, para conter o crescente déficit fiscal.

Economia internacional
Além do cenário doméstico, na visão de Rabello é importante destacar que a economia global está em um delicado momento de continuidade de recessão, e não pós-recessão como muitos falam.

Ele explica que é preciso levar em conta que o momento não é propício para um desempenho muito positivo em termos de crescimento econômico, já que os países desenvolvidos devem ter uma fraca performance nos próximos dois anos.

“O FMI (Fundo Monetário Internacional) atualizou seu papel de dizer que o futuro é melhor que a situação atual. Na nossa noção real de mundo, os países desenvolvidos não crescerão 2,4% como projetado pelo FMI, mas sim 1% porque a crise ainda está presente”, fala.

PUBLICIDADE

Com relação aos países em desenvolvimento, o economista fala que o crescimento também deve ser moderado já que eles dependem de certa forma das nações desenvolvidas e dos investimentos.

Déficit fiscal
Outro ponto importante de análise segundo Rabello é o crescente déficit fiscal do mundo, especialmente de países desenvolvidos. “Nos EUA, os gastos públicos estão bem maiores que a arrecadação fiscal e esse quadro será dificilmente contornado rapidamente”, fala.

Ele cita como exemplo o crédito ao consumidor norte-americano que desde o estouro da crise em 2008 passou de um crescimento de 10% para decrescimento este ano, levando para baixo também as perspectivas para o mercado de trabalho e para o desempenho econômico.

“É importante acompanhar como o governo norte-americano vai tratar a questão fiscal porque o cidadão norte-americano não aceita um aumento de impostos como nós”, fala. Nesse ponto ele destaca que um dos gargalos que o Brasil precisa enfrentar para ser o país do futuro como todos falam é a simplificação tributária e um máximo de 30% do PIB de impostos.

“Esse é o ponto máximo para não prejudicar os lucros das empresas, investimentos e a economia como um todo. Além disso, temos que passar de um país autoconsumidor para auto-investidor porque não estamos investindo mais, apenas consumindo mais e tomando mais crédito”, acredita.

Para a Europa, o economista comenta que a dívida pública sobre o PIB (Produto Interno Bruto) dos países da Zona do Euro deve chegar a 120% em 2020 e que todo esse movimento está prejudicando a credibilidade da moeda comum europeia.

“As economias mundiais não quiseram enfrentar a crise de frente e adiaram o processo, espalhando ao longo do tempo. Esse será o desafio para os governos, inclusive o brasileiro, nos próximos anos”, comenta Rabello.