Crise e chance de calote: o que realmente acontece com a economia dos EUA?

Nem China nem a resiliência dos bancos no Brasil parece capaz de suportar o pior - e improvável - cenário: um default dos EUA

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SÃO PAULO – “Se os Estados Unidos espirram, o mundo pega uma gripe”. A frase de efeito perdeu espaço para a tese do descolamento, mas nem por isto a maior economia do mundo deixou de ter enorme importância para os mercados globais.

Nem mesmo todo o apetite chinês por commodities ou a resiliência do sistema financeiro no Brasil parece capaz de resistir à pressão do pior cenário possível: um calote dos Estados Unidos; o país do dólar, moeda corrente no comércio internacional e uma das principais formas de reserva de valor, e da taxa livre de risco.

A situação parece tão distante quanto absurda, mas tecnicamente pode estar bem próxima. Existe até data marcada para o “fim do mundo”: 2 de agosto de 2011. Nem é preciso esperar pela já famosa data do calendário maia.

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Segundo cálculos do Tesouro norte-americano, se não houver um acordo no congresso para a elevação do teto legal da dívida do país, os malabarismos contábeis não evitarão que o país entre em uma situação definida como “calote técnico” – ou seja, os EUA não deixariam de pagar sua dívida em termos nominais, mas poderiam promover mudanças que impactem os fluxos de caixa reais. O montante seria o mesmo, mas – no fim das contas – o investidor perceberia que ficou com uma situação pior. 

Impressões sobre os EUA
Em entrevista ao programa Money Talks, da InfoMoney, o economista-chefe do banco UBS, Paul Donovan, afirmou que “o Reino Unido e os EUA serão sempre países AAA, a despeito do que digam as agências de rating, pois eles podem imprimir seu próprio dinheiro”.
“A libra [ou o dólar] pode não valer muito, mas essa é uma decisão econômica, não uma decisão de rating de crédito”, avalia Donovan. Neste sentido, sempre será mais barato emitir mais moeda que deixar de pagar os investidores. “Em termos de moeda estrangeira, pode ser que eles percam o rating, mas isto é uma pergunta diferente”, esclareceu Donovan.
Além disso, segundo ele, os mercados de rating não ligam muito para o que as agências dizem. “Em outras palavras, o mercado iria ignorar completamente o que as agências dizem e continuar a tratá-los como AAA”.
Já o fundador e diretor-gerente da gestora de recursos Pimco, Bill Gross, mostrou-se reticente em relação à credibilidade dos EUA. Em sua avaliação, quando somada ao valor presente das obrigações a serem assumidas pelo governo do país no futuro – como os programas de assistência médica e seguridade social –  “[a situação] é pior que a da Grécia e muito pior que a de qualquer país desenvolvido”, afirmou Gross à rede norte-americana CNBC.
Gross ainda afirmou que tem dúvidas sobre a capacidade do país em continuar a oferecer seus títulos no mercado aberto após o encerramento dos programas de alívio quantitativo do Federal Reserve. “Sempre nos perguntamos sobre quem comprará as treasuries. (…) Certamente não será a Pimco e provavelmente não os fundos de renda fixa do mundo”.

Para a maior parte dos investidores, o cenário mais provável ainda é o de que os políticos cheguem a um acordo, mesmo que seja nos últimos instantes. “Nosso cenário base compreende um acordo entre republicanos e democratas para elevação do teto da dívida na última hora antes do dia 2 de agosto”, afirmou o economista do Société Générale, Rudy Narvas.

Mas as recentes declarações inflamadas têm repercutido de forma negativa no sentimento dos investidores. Desde o início da crise, os spreads de CDSs (Credit Default Swaps) – ativos que oferecem proteção em caso de não pagamento – relacionados à dívida dos EUA cresceram mais de 20 pontos-base desde o início da “crise do teto da dívida”, ou debt ceiling crisis, como ficou conhecida em inglês.

Crise política…
A dificuldade política para negociação do acordo se dá por vários fatores, mas o principal é o chamado Gridlock. O partido democrata – do presidente Barack Obama – possui apenas a maioria das cadeiras no senado. Já na câmara, a outra instância do congresso, o controle é da oposição republicana. Para aprovar mudanças na legislação, é preciso obter a aprovação das duas casas.

Identificados com a redução de impostos e a limitação dos gastos públicos, muitos dos políticos de oposição têm elevado o tom do debate por conta da política fiscal amplamente expansionista do governo dos EUA, sob a forma de “pacotes de estímulo”. A ideia era reativar a economia do país após a crise financeira por meio de gastos e ajuda a consumidores.

…e econômica
“Agora, a era do estímulo chegou ao fim”, ressaltou a equipe de análise econômica do banco Wells Fargo. “O nível de deficit fiscal permanece mais elevado do que nas últimas recuperações econômicas”, desde o final da década de 1970, avaliam.

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Em sua opinião, o crescimento não está no nível projetado por muitos analistas. Ainda assim, “temos crescimento sustentado, mas em ritmo modesto; e é com isso que temos que lidar”, concluíram.

Segundo o banco francês, a passagem de congressistas de posições moderadas para outras mais radicais pode prejudicar as negociações, que tem sido conduzidas pelo prório vice-presidente Joe Biden, um senador veterano. Alguns políticos estariam dispostos a testar a reação do mercado, pois entre muitos existe a expectativa de que o “calote técnico” não seja suficiente para causar um impacto amplo nos mercados.

Três cenários para os EUA
Se isto acontecer, o Tesouro seria forçado a adotar um dos três caminhos, segundo o Société Générale: 1) cortar gastos drásticamente; 2) priorizar pagamentos de títulos e 3) vender ativos para fazer caixa. “Tais movimentos dariam tempo aos políticos para chegar a um acordo, mas se eles demorarem muito, o calote será inevitável”.

Cortes de gastos precisariam ser anunciados ainda no mês de julho, para se tornarem efetivos em agosto. Todavia, isto poderia deixar a economia do país ainda mais fragilizada e abortar a lenta recuperação.

Já a segunda alternativa poderia acalmar os investidores, uma vez que os recursos seriam prioritariamente destinados ao pagamento da dívida. Todavia, há riscos políticos na possivelmente impopular estratégia.

Por fim, a venda de ativos teria impacto incerto no mercado, já que dependeria de quão rápido o Tesouro consegue vender os ativos e o que exatamente seria colocado à venda. Todos os ativos adquiridos pelos EUA recentemente poderiam ser colocados na vitrine – como os ativos lastreados por hipotecas, ou carteiras de crédito estudantis, participações em bancos e montadoras de automóveis. 

Um problema desta magnitude é tido como de tão baixa probabilidade de ocorrer, que muitos investidores e analistas consideram o risco desprezível. Todavia, caso ocorra, a chance de causar estragos é enorme, sendo chamado de black swan. É não pagar para ver.