Eleições EUA

Como Trump pode vencer as primárias e mesmo assim não ser o candidato republicano

As regras da convenção partidária permitem uma série de esquemas que poderia levar os líderes partidários a derrubarem o magnata mesmo se ele atingir os delegados necessários

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SÃO PAULO – O funcionamento das eleições nos Estados Unidos realmente não é tão fácil de entender e poucos brasileiros sabem que terminar as primárias na frente pode não significar que determinado candidato será o escolhido para representar o seu partido nas eleições presidenciais em novembro. E é exatamente neste regulamento que os republicanos estão tentando evitar que Donald Trump se torne o candidato oficial do partido.

Como temos visto no noticiário, desde fevereiro está acontecendo as chamadas “primárias”, onde cada estado americano decide (seja por eleição ou pelos caucus, entenda aqui) qual o seu candidato. Isto acontece tanto para os republicanos quanto para os democratas. A questão aqui é que há um valor mínimo que o candidato precisa atingir para ser eleito pelo partido, e no caso republicano são 1.237 delegados.

Em junho ocorre a convenção do partido em Cleveland, onde o candidato será oficializado. Porém, isto pode não acontecer em apenas uma votação. Se nenhum candidato atingir o número mágico de 1.237 delegados na primeira votação, então começarão as negociações na convenção. Da segunda votação em diante, os delegados ficam livres para mudar seu apoio e então vão sendo realizadas votações até alguém conseguir a maioria. Em 1924, os democratas votaram 103 vezes para escolher seu candidato.

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Mas isso não será nada fácil, já que convencer os delegados a mudarem seus votos será uma árdua batalha. Uma opção seria que os dirigentes orquestrassem uma chapa conjunta Cruz-Rubio que reunisse os delegados de ambos os candidatos. Mas isso exigira que um dos dois saísse da disputa em algum momento. Além disso, não há como garantir que os desistentes de determinado candidato não migrariam para Trump em vez de apoiar a chapa conjunta.

Vale lembrar aqui que se os republicanos estão fazendo de tudo para derrubar Trump, Ted Cruz (segundo colocado até o momento) também está longe de ter o apoio de seu próprio partido. Entre os que tem alguma chance, os líderes partidários têm indicado sua preferência por Marc Rubio, o que torna toda esta mudança no dia da votação ainda mais complicada.

Virada de mesa ainda na 1ª votação
Se todo este esquema já parece bastante complicado, há também a chance de tudo isso acontecer ainda na primeira votação. Este cenário é possível porque as regras estabelecidas pelo partido republicano permitem que os delegados peçam por uma alteração das normas antes da primeira votação. Com isso, seria possível que os delegados pudessem mudar seus votos.

Ou seja, mesmo que Trump chegue à convenção já com 1.237 delegados, ele pode não vencer. É importante lembrar aqui, que alguns estados obrigam que o vencedor das primárias fique com todos os delegados da região. Com uma possível mudança na primeira votação da convenção, esta regra seria desfeita e os delegados poderiam votar como quisessem, aumentando a chance de que Trump não chegue aos 1.237 delegados.

Mas derrubar Trump realmente é bom?
Arquitetar todo este esquema para conseguir evitar a candidatura de Donald Trump pode criar um problema ainda maior para os republicanos – e até mesmo para as eleições gerais. Isto porque derrubar o magnata desta forma pode rachar completamente o partido (lembrando que nem todos odeiam o candidato), e poderia enfraquecer não só o status dos republicanos, mas o candidato que ganhasse no lugar de Trump.

O magnata também não deixaria barato e poderia tentar “se vingar”, lançando-se por um terceiro partido ou até mesmo comandando um boicote para as eleições em novembro. Eles reclamariam que uma campanha eleitoral republicana marcada pela insurgência das bases acabou com o resultado armado pela elite.

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Em 1968, no auge da Guerra do Vietnã, os democratas escolheram Hubert Humphrey como candidato, mesmo sem ele ter concorrido em nenhuma das 14 primárias – ele ganhou delegados em caucus que foram dominados por líderes partidários locais. Fora do salão em Chicago, houve manifestações, com a polícia combatendo protestos contra a guerra. A convenção democrata de 1968 convenceu dirigentes partidários dos riscos de valer-se de acordos de bastidores para escolher candidatos.