Análise

Como Michel Temer joga com a reforma da Previdência e faz mercado e base aliada reféns?

Como bom conhecedor do funcionamento da máquina da política brasileira, presidente faz seus reféns para influenciar no processo eleitoral de 2018

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SÃO PAULO – Não são poucas as análises que apontam para uma sarneyzação do governo de Michel Temer e a percepção de que o peemedebista, tal como seu correligionário nos últimos meses de mandato, apenas esperaria a ampulheta fazer seu trabalho, sem forças para impor uma agenda efetiva ao parlamento após livrar-se de duas denúncias apresentadas pela PGR. Nesse sentido, Temer seria uma espécie de “pato manco”, como dizem os cientistas políticos. Será?

Os movimentos recentes do peemedebista podem ensejar outra interpretação sobre a disposição das nuvens no céu de Brasília. O discurso pessimista sobre a aprovação da reforma da Previdência deixou rastros de algo que pode indicar uma estratégia sofisticada.

Enquanto não movimentar as peças certas em uma reforma ministerial, Temer sabe que não haverá acordo para a aprovação das mudanças nas regras para as aposentadoria — por mais diluídas que podem ser em relação ao texto original, preparado pelo Ministério da Fazenda –, e pode operar com isso.

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Por outro lado, a procrastinação da “reorganização da base” (para usar as palavras do próprio presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia) torna mais difícil qualquer desembarque do PSDB da situação — ou ao menos mais custoso. Sem a expulsão dos atuais ministros tucanos, não há indicações de que o partido conseguirá superar o “murismo”. Do ponto de vista eleitoral, é um tiro no pé, que apenas faz fortalecer a disputa entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ).

Contudo, talvez seja eleitoralmente caro para o partido romper com o governo sem justificativas claras, após ter sido o principal fiador do processo de impeachment de Dilma Rousseff e apoiar quase integralmente os principais pontos da agenda do governo, além de ter emitido dois pareceres contrários às denúncias apresentados contra o presidente — embora tenha votado dividido em ambas as situações.

Com a fala do início da semana, Temer transferiu responsabilidades ao parlamento sobre o destino da reforma previdenciária, embora tenha mantido o discurso de que manutenção do empenho para o êxito nas medidas. A batata quente ficou nas mãos de Rodrigo Maia. Os parlamentares, contudo, ganharam um agrado, com a possibilidade de tocar uma agenda focada em segurança pública a um ano das eleições. Outro presente vem do programa “Avançar”, que prevê desembolso superior a R$ 100 bilhões em 7.500 obras paralisadas em todo o Brasil, incluindo setores de infraestrutura, saúde e educação. Música aos ouvidos de deputados e senadores às vésperas das eleições.

O presidente também sabe que mesmo uma reforma diluída hoje enfrenta resistência de setores da base do governo. Membros do “centrão” têm sustentado que, além do frequentemente comentado desgaste eleitoral, votá-las agora seria dar um poder excessivo ao PMDB, o que teria impacto importante no cenário de 2018.

No fundo, Temer deixou a agenda em banho-maria, assumindo o controle do processo. Quando adia a realização de uma reforma ministerial, o peemedebista aumenta a ansiedade no “centrão” e deixa a agenda pesada em compasso de espera. Da mesma forma, o presidente eleva seu poder de negociação, por oferecer perspectiva de distribuição de cargos no primeiro escalão a alguns meses das eleições. Mesmo sem votos e com cada vez menos recursos a oferecer, o presidente consegue assumir relativo controle da agenda, prendendo junto de si o “centrão”, o PSDB e o próprio mercado, ao mostrar que não há condições de se aprovar qualquer reforma previdenciária sem seu papel decisivo.

“Parece que Temer segue no xeque-mate: o PSDB não pode romper sem agenda, que fica para 2018. O mercado não pode se descolar, senão fica sem reforma [mesmo que diluída]“, observou o analista político Leopoldo Vieira. Para ele, o peemedebista não delega de fato atribuições ao parlamento, mas mantém o controle da coalizão. “Agora ele vai administrar a coalizão para 2018, que era a missão do pós-segunda denúncia”.

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Sem novos recursos para distribuir, o presidente pode não ter forças para aprovar uma reforma previdenciária, mas sinaliza que ainda está longe da paralisia, a despeito da baixíssima popularidade. Às vésperas da eleição, Temer está juntando os cacos para recuperar capital e influenciar mais fortemente na disputa por sua sucessão, reavendo parte de sua força com as expectativas de sinais pontuais de melhora da economia.

Como bom conhecedor do funcionamento da máquina da política brasileira, Temer faz seus reféns para influenciar no processo eleitoral próximo. Não se trata exatamente de força política, mas de habilidade para operar com os recursos com que dispõe, na mais clássica versão da realpolitik. Nesse sentido, a despeito da votação mais baixa na segunda denúncia e a sinalização de indisposição de membros da base aliada, é difícil tratar o presidente como um “pato manco” propriamente dito. Por outro lado, como escreveram os analistas da XP Investimentos em relatório recente, tampouco trata-se de Usain Bolt.

Afinal, política é como nuvem.