Como Lula pretende tirar votos de Flávio e buscar a virada no 2º turno

Campanha mira abstenção, recuperação em Minas e ampliação da vantagem no Nordeste

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A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) começou o segundo turno com uma conta cara, em que precisará recuperar pouco mais de 2,2 milhões de votos para tentar ultrapassar Flávio Bolsonaro (PL), que terminou a primeira etapa com 47% dos votos válidos, contra 45% do presidente.

A estratégia desenhada nos primeiros dias combina duas frentes. Uma é aumentar o comparecimento entre grupos nos quais Lula já tem vantagem. A outra é buscar eleitores que votaram em Flávio ou em candidatos eliminados, principalmente em regiões onde o petista perdeu terreno em relação a 2022.

O desempenho do primeiro turno deixou claro onde estão os principais problemas. Lula perdeu força no Sudeste, viu Flávio virar Minas Gerais e permitiu que o adversário crescesse inclusive no Nordeste, sua principal base eleitoral.

Primeiro passo é buscar quem não foi votar

Mais de 33 milhões de eleitores se abstiveram no primeiro turno. Esse contingente virou uma das prioridades imediatas do PT.

A campanha já havia identificado antes da eleição uma tendência maior de ausência entre idosos e parcelas de baixa renda, grupos nos quais Lula registrava desempenho melhor nas pesquisas. Agora, a orientação é aumentar presença nas ruas e concentrar mobilização em periferias e regiões de maior votação petista.

Essa estratégia tem a vantagem de não exigir converter um eleitor de Flávio. Basta levar às urnas alguém que não participou do primeiro turno e que já tenha preferência por Lula. O próprio presidente cobrou dos aliados mais campanha de rua depois do resultado de domingo.

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Recuperar Minas virou prioridade

Entre os eleitores que efetivamente votaram, Minas Gerais aparece como um dos principais pontos de recuperação.

Lula havia vencido Jair Bolsonaro no estado em 2022. Neste ano, Flávio terminou com 48%, contra 43% do petista, diferença de quase 590 mil votos. Lula também perdeu mais de 619 mil votos no estado na comparação com o primeiro turno de quatro anos atrás.

Diminuir essa distância produz um efeito relevante justamente porque a vantagem nacional de Flávio foi de cerca de 2,2 milhões.

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A campanha tende a concentrar esforços em Belo Horizonte, Região Metropolitana e áreas onde Lula teve desempenho melhor em 2022, ao mesmo tempo em que tenta conter o avanço bolsonarista em regiões ligadas ao agronegócio.

Nordeste: ampliar margem e recuperar votos perdidos

Lula venceu em todos os nove estados nordestinos e abriu mais de 11 milhões de votos sobre Flávio na região.

A vantagem continua expressiva, mas diminuiu na comparação com 2022. Flávio recebeu 10,4 milhões de votos no Nordeste, 1,6 milhão a mais do que Jair Bolsonaro havia conseguido no primeiro turno quatro anos antes.

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Por isso, o plano petista não é apenas preservar o Nordeste. A campanha quer elevar novamente a diferença, sobretudo em estados como Bahia, Ceará, Pernambuco e Maranhão.

O PT também pretende explorar a força de governadores, prefeitos e candidatos locais para aumentar o comparecimento em municípios de baixa renda e nas periferias.

Programas sociais entram no centro da campanha

Na comunicação, o governo pretende dar mais espaço a temas diretamente ligados à renda. A campanha prepara peças sobre Bolsa Família e outros programas sociais e pretende associar uma eventual vitória de Flávio ao risco de mudanças nessas políticas.

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A estratégia é ampliar a rejeição ao candidato do PL entre eleitores de menor renda. Flávio, por sua vez, já disse que pretende manter o Bolsa Família.

A mudança representa uma revisão da comunicação do primeiro turno. Integrantes da campanha reconheceram que temas mais abstratos tiveram dificuldade de mobilizar segmentos importantes, especialmente jovens e mulheres.

Segurança pública também deve ganhar mais espaço. O desempenho da direita nessa agenda levou aliados a cobrar do presidente um discurso mais claro sobre combate ao crime organizado.

Lula quer expor Flávio nos debates

Outra mudança está nos confrontos diretos. Depois de evitar debates no primeiro turno, Lula passou a defender sua participação nesta segunda etapa. Sem os demais candidatos no palco, a campanha acredita que poderá concentrar o confronto em Flávio e comparar propostas de forma mais direta.

O cálculo é também eleitoral. Flávio atravessou a primeira fase com exposição relativamente controlada e terminou acima das previsões de boa parte das pesquisas.

O PT aposta agora em debates, entrevistas e vídeos para aumentar o conhecimento sobre propostas do adversário e tentar elevar sua rejeição entre eleitores menos alinhados ideologicamente.

Há ainda mais de 9 milhões de votos dos eliminados

Outro grupo decisivo é formado pelos eleitores de candidatos que ficaram fora do segundo turno. São mais de 9 milhões de votos que estavam fora de Lula e Flávio. A disputa por esse eleitorado será mais difícil para o petista porque candidatos de direita já começaram a declarar apoio ao PL.

A campanha de Lula aposta principalmente nos eleitores menos ideológicos dessas candidaturas e em quem rejeita os dois finalistas.

A combinação dessas frentes mostra a dificuldade da virada. Lula precisa simultaneamente aumentar o comparecimento de sua base, recuperar parte dos votos perdidos em 2022 e retirar uma parcela do eleitorado que escolheu Flávio no domingo.

O mapa do primeiro turno indica onde essa operação terá maior impacto: reduzir a desvantagem em Minas e no Sudeste e voltar a ampliar a margem no Nordeste.

Em uma disputa separada por menos de dois pontos percentuais, mudanças relativamente pequenas nesses dois blocos regionais já alterariam de forma relevante a diferença nacional.

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Marina Verenicz
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