Com saída de governadores, base frágil nas redes desafia vices de olho na sucessão

Maioria chegou à pré-campanha com poucos seguidores; exposição com saída de titulares tende a ampliar visibilidade

Agência O Globo

O vice-governador de São Paulo, Felicio Ramuth, e o governador Tarcísio de Freitas (Foto: Isadora de Leão Moreira/Governo do Estado de São Paulo)
O vice-governador de São Paulo, Felicio Ramuth, e o governador Tarcísio de Freitas (Foto: Isadora de Leão Moreira/Governo do Estado de São Paulo)

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Com dois terços dos governadores impedidos de tentar reeleição, o ano eleitoral começa desafiador para os vices, em geral ainda desconhecidos pelo eleitorado, que planejam candidaturas ao Executivo estadual e pretendem ampliar sua visibilidade até outubro.

Levantamento da consultoria Bites feito a pedido do GLOBO revela que, por enquanto, a posição de número dois nos estados não se reflete em uma base consistente de seguidores nas redes sociais.

Especialistas destacam importância da comunicação digital nas campanhas, mas ressaltam, porém, a possibilidade de crescimento destes nomes com a proximidade do pleito e a exposição junto ao governador ou figuras nacionais até a data de ida às urnas. Uma alavanca para o crescimento da figura dos vices é a desincompatibilização dos governadores, até abril, para disputarem novos cargos nesta eleição.

Oportunidade com segurança!

Como mostrou O GLOBO, 11 dos 18 chefes do Executivo estadual sem possibilidade de reeleição sinalizam candidaturas ao Senado, enquanto outros três se colocam como nomes à Presidência. Os vices poderão, nesses casos, ocupar a cadeira principal durante o período eleitoral e capitalizar politicamente a posição para maior projeção.

O levantamento da Bites considerou os 18 estados com governadores sem possibilidade de uma nova disputa pelo cargo e São Paulo, onde Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) tem destino político ainda indefinido diante da possibilidade de disputar o Planalto. Os dados indicam que o ineditismo da maioria dos vices na posição de cabeça de chapa em eleições majoritárias anteriores compromete a visibilidade deles perante a população.

— O vácuo das grandes lideranças estaduais após a saída dos governadores é reflexo da alta taxa de reeleição há quatro anos. Foram 18, oito a mais do que em 2018. Entre abril e dezembro deste ano, veremos estados sendo comandados por nomes desconhecidos e que vão precisar, a qualquer custo, aumentar sua projeção tanto política quanto digital para continuar no poder, disputando uma reeleição — diz André Eler, diretor-técnico da Bites.

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Diferentes perfis

É neste contexto que o desconhecimento nas redes pode comprometer as campanhas. A exceção apontada no levantamento é a vice-governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), que supera o governador Ibaneis Rocha (MDB) no número de seguidores nas principais plataformas.

Uma das razões do impulsionamento dela foi a atuação à frente do Palácio Buriti durante os desdobramentos do 8 de Janeiro, enquanto o titular estava afastado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) sob acusação de omissão perante os atos golpistas na sede dos três Poderes.

Ibaneis é um dos governadores que deixarão o cargo até abril e abrirão espaço para o vice assumir o posto. Além dele, devem ser candidatos ao Senado os governadores Eduardo Leite (PSD-RS), Gladson Cameli (PP-AC), Wilson Lima (União-AM), Helder Barbalho (MDB-PA), João Azevêdo (PSB-PB), Antonio Denarium (PP-RR), Mauro Mendes (União-MT) e Renato Casagrande (PSB-ES).

Também cotados para disputar o Senado, Cláudio Castro (PL-RJ) e Fátima Bezerra (PT-RN) vivem situações excepcionais. A ausência de um vice-governador no Rio e o anúncio no Rio Grande do Norte de que o número dois do estado se desincompatibilizará para disputar o cargo de deputado estadual levarão, em ambos os casos, a eleições indiretas. O cenário, que traz desafios a Castro e Bezerra, culminará na escolha pelo Legislativo dos nomes que estarão à frente de um “governo-tampão” até a posse do escolhido pela população ano que vem.

Já Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, Ronaldo Caiado (União), de Goiás, e Ratinho Júnior (PSD), do Paraná, sinalizam que disputarão o Planalto. Assim, abrirão espaço para os vices — da lista, devem disputar o comando da máquina estadual Mateus Simões (PSD-MG) e Daniel Vilela (MDB-GO). No Paraná, o aliado que receberá aval de Ratinho não está definido.

Há ainda casos de governadores que descartam deixar o Executivo, abrindo mão de candidaturas, para não darem palanque aos vices. Entre os motivos estão a “quebra de confiança” e o desejo por apoiar um outro nome na corrida eleitoral. São os casos de Paulo Dantas (MDB-AL), Wanderlei Barbosa (Republicanos-TO), Carlos Brandão (PSB-MA) e Marcos Rocha (União-RO).

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Para o cientista político Fábio Vasconcellos, professor da Uerj e PUC-Rio, o destaque do vice no ambiente digital conta na disputa eleitoral, mas o alinhamento com quem deixou o cargo ou com um grupo que disputa a Presidência pesa mais na campanha.

— Podemos ter um “novo” governador sem força no digital, mas alinhado politicamente com uma candidatura nacional. Isso conta e muito porque o presidenciável vai trabalhar para que a máquina e seus aliados atuem a favor de determinada candidatura. — diz o também pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia — Representação e Legitimidade Democrática (INCT ReDem). — A comunicação digital é relevante porque ajuda a reverberar e criar ondas de opinião contra ou a favor, mas devemos lembrar que a eleição no Brasil ainda é fortemente determinada por fatores extra digital.

Sombra dos padrinhos

Cientista político da UnB, Murilo Medeiros cita como desafio aos vices o fato de que herdam a máquina, mas não necessariamente o capital político do titular. O pesquisador afirma que o resultado é um paradoxo: ao mesmo tempo em que se beneficiam do bônus da continuidade nos meses pré-eleitorais, eles governam sem identidade própria e dependem intensamente do endosso de seus padrinhos políticos para transferência de votos e legitimidade:

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— Vice-governadores costumam ganhar tração apenas com o início do calendário eleitoral, quando passam a contar com maior exposição institucional, propaganda e agenda oficial convertida em vitrine política. Do ponto de vista eleitoral, esse cenário tende a produzir campanhas menos programáticas e mais personalistas, reforçando uma lógica de poder baseada na tutela política e no apadrinhamento eleitoral.